sábado, 24 de novembro de 2012

O MEU NOVO LIVRO "FLOR DAS MEMÓRIAS PERDIDAS" SERÁ APRESENTADO NO PRÓXIMO DIA 9 DE DEZEMBRO, EM LISBOA, NO AUDITÓRIO DO CAMPO GRANDE, 56. VAI SER UM DIA COM UM PROGRAMA MUITO INTERESSANTE:

 
Domingo, dia 9 de Dezembro
Auditório do Campo Grande, 56, em Lisboa
Passe uma tarde em boa companhia.
 
15h00
Apresentação dos dois primeiros títulos da série “Criação Temas”:
“Flor das Memórias Perdidas”, de António MR Martins
e “Ao Sabor do Instante”, de Vítor Cintra.
 
16h00
Lançamento do 2.º volume
da série “Sob Epígrafe”,
dedicado
a José Carlos Ary dos Santos.
 
18h00
Lançamento da obra
“O outro lado de mim”,
de Jorge Antunes,
cuja apresentação estará a cargo
da poetisa Maria Antonieta Oliveira.
 
 
Se puder, não falte!
 
Vai ver que valerá bem a pena!
 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Dúvida


Será que estou a muitos anos luz
ou a uma centelha de fé?

Olho para dentro de mim
E só encontro dúvidas e sombras
E persistentes perguntas me assolam.

Acaso sou eu de mim
Ou Outro por mim as faz?

Acaso sou eu que Te pergunta
E que Te sussurra o medo,
Quando, procuro a Luz dos olhos?
Ou: algo que em mim vive
Desassossegando a fraca carne
E, me abre brechas, na minha
Perfeita esfera de luz?

Será que tu me escutas
No tempo em que me calo,
Por não ter palavras para chegar a Ti?
Ouvir-Te-ei no silêncio incomensurável
De tantas vozes flutuantes?
Ou: saberei ler nos lábios que escuto
Quando, a sombra é nula, no caminhar do Sol?

Conhecer-Te-ei quando, o silêncio
For a fonte permanente da fala
E, a Luz, a forma exaltada do espanto,
Ao ver em mim a forma última de Ti?
Será o Teu rosto, rosto de muitos rostos
O qual, o meu se assemelha ao Teu
E, que procuro afincadamente no outro?

Quando eu sair de mim, estando aqui,
Saberei, o infinito da minha voz
Escutando, as vossas vozes de dúvidas.


Joaquim Monteiro

A quarta estação

 
Por terras alentejanas, algures perto de Beja.
 
 
*”…o gelo do Inverno, a doçura
da Primavera e o fogo dos Estios."
 
Sophia de Mello Breyner Andresen

 

 

Efeito do gelo não chegara
na prestabilidade do tempo
já a doçura se ofuscara
entre o fogo do contratempo

tombam já das árvores as folhas
despindo-as sem qualquer apelo
em agravos de ventos mais trolhas
manifestando-se sem desvelo

águas começam a tocar o chão
com enorme regularidade
quando nos surge esta estação
Outono gerador da saudade

nuvens acentuam novos trilhos
e vão cobrindo do céu seus brilhos

 
António MR Martins

 
*in livro “Contos exemplares”, página 52, edições Figueirinhas, 1992.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

33 [Há um bicho ferido nos teus gestos]

 

Há um bicho ferido nos teus gestos
deslizante como um segredo na noite.
Há um silêncio de bronze que se
desfolha e se desdobra louco na tua
pele a erguer-se como uma febre.
E em mim fica suspensa a furiosa
e dorida lágrima e o riso é-me
um lago de raiva sinal trovejante
no mar interior da minha esperança.
As palavras voam-te e são coisas
de vidro estilhaçadas que ferem de
vez em quando e a lucidez
tremula-te nos olhos sérios e o teu
riso é uma perdida infância
um incêndio longínquo.
Resta então a paisagem triste
da minha presença alucinada
que sangra cansaços e uma flor
de mágoas rebenta-me nos lábios
solitários e frios lentamente
pela madrugada...

Airam Alice Pereira Santos

in livro "Stasis" (edição póstuma), nas páginas 71 e 72, edições Temas Originais, Coimbra, 2012.

Sabor a nada ou menos disso

 
Hebao, na China, by Gonçalo Lobo Pinheiro.
 

Valem os versos de apoio
entre outros de contestação
nas vozes de teor “saloio”
e nos enredos da contenção

riscam deslizes sucessivos
e sugando os mais carentes
exultam votos expressivos
sempre dos mesmos clientes

filtram virtudes esquecidas
na selva da incongruência
das belas imagens perdidas

retornam sempre à saliência
de muitas teses mal paridas
pelos restos da penitência

 

António MR Martins

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

"Palavras na Vastidão de Ti, em Sílabas de Esperança"

 

(a todas as crianças que nasceram diferentes)


Trazes na bagagem um vidro de gotas de orvalho
E na ponta dos dedos um fio de sol para bordar.
...
Guardas os tesouros no esconderijo, que suspendes na memória
E inventas parcelas de sonho com que enfeitiças a alvorada.

Conheces como ninguém, esses tesouros que deambulam
Sobre o teu ser e te conquistam a palavra em gruta secreta
Do verso por nascer, gerado nas entranhas onde te acordas,
No amor concebido em útero de esperança, onde cresceu a poesia
Que há em ti! Onde dança a palavra como gaivota em voo suave,
Barco que se agita ao sabor das asas que tecem a vida, num grito
De liberdade e mel a escorrer no sorriso que te enfeita o rosto

E que fazer da palavra? Ela sabe que mesmo ao lado do sonho
Há musgo que cresce por entre os dedos desabitados de encanto.
Há insónia que se agiganta perante os factos que geram novidade.
Há espuma nas vozes que tolhem olhares de descoberta.

Entre ti e a palavra, há uma insónia que corre no verso
Que atravessa o vidro e transforma as gotas de orvalho
Em cristais de espanto e cheiro de inquietação.

A insónia dorme, na madrugada desperta,
em que os silêncios habitaram
Na razão cintilante onde guardaste o sonho e a melodia
Que juntamente se fizeram poema
E tu, a poesia.



Sonhas por dentro da vastidão de ti
Qual enigma delineado em espaço fugaz
Onde te descobres em futuros repousados.

Sabes a vento Norte quando sibila junto ao mar
E soletras praias desarrumadas que tardam no Verão
Onde te sentas soltando areia fina por entre os dedos.
O mar está lá. Deitado na toalha ausente de ti.

Passeia-se nos silêncios resguardados nos teus olhos
Como marinheiro, vela de esperança, viajante sem destino
Gaivota do pensamento. Acorde de madrugadas!
Cada onda que se aquieta no areal, leva um segredo
Enrolado na vastidão da espuma que gargalha
E, as espigas, são sóis adormecidos na esperança.

No teu olhar, há um ribeiro onde cresce a inquietação
De ser seara, ser voz, vento em turbilhão a espraiar-se
No leito de sonhos, repousando o instante de ser tempo,
De ser vulcão… donde sai a palavra, deslizando como lava
No teu peito feito verso, incendiado de amores-perfeitos
Plantados no poema, que cresce em ti
E que aos poucos aprendemos a ler, nas pétalas do silêncio
Que te persegue e que o vento solta, poisando-as na floresta
Que guardas no peito onde os rouxinóis desenham um novo voo!

As palavras vestem-se de ramos e flores,
Tocam-te a alma como beijos perfumados de luar
E todas as estrelas te abraçam,
Permitindo que a lua, em círculos de prata
Te vista o pensamento e te enfeite o corpo
Da poesia que te visita na seda que te embala as margens
Onde um grito de esperança eclode,
Atravessando a noite de luzeiros
Em que os barcos soletram horizontes bilrados de Futuro
E tu, pintas de azul e chama -retalhos de sol-
que ousam descobrir novas marés!

Dalila Moura Baião
 
- Poema concorrente ao XVII Concurso de Poesia da APPACDM de Setúbal - 2012 -

Trapos velhos

 
Kok Mak, na Tailândia. Foto de Gonçalo Lobo Pinheiro.
 
rebusco a sintonia
dos paradigmas
na consonância da explicação
e da sua devida compreensão
sem frases alinhavadas
 
a talhe de foice
se fomentam novas ideias
espezinhando
conceitos e investigações fidedignas
e relevantes
nas reuniões da insatisfação
perante as vozes secas da discórdia
 
há sempre um trâmite descabido
na apreensão de todos os homens
e nas gestas a que se vinculam
perante teorias demagogas
e muitas vezes sem o delicado sumo
do uníssono aplauso
 
tudo se tenta pisar e repisar
sem a filtragem devida
conotando a celeuma 
com puro arcaísmo
vigorando-o
em ultrapassadas opiniões
 
me vem à tona da mente
aquela máxima
bem arcaica:
- velhos são os trapos
 
 
António MR Martins


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A ferida

 

Real, real, porque me abandonaste?
E, no entanto, às vezes bem preciso
de entregar nas tuas mãos o meu espírito
e que, por um momento, baste

que seja feita a tua vontade
para tudo de novo ter sentido,
não digo a vida, mas ao menos o vivido,
nomes e coisas, livre arbítrio, causalidade.

Oh, juntar os pedaços de todos os livros
e desimaginar o mundo, descriá-lo,
amarrado ao mastro mais altivo
do passado! Mas onde encontrar um passado?


Manuel António Pina

in livro "Os Livros", página 17, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003.

O poema esquecido de ti

 

Escrevi todas as palavras
sentidas
nos meus versos imperfeitos,
metáforas,
quiçá derretidas,
de tantos sonhos desfeitos.

Versejei sobre o sol e a lua,
do céu e das nuvens
em esplendor,
dos campos,
dos mares ,
dos rios e de ti nua,
sempre ensaboando as palavras
de amor.

Juntei sentires imprecisos,
registos alegres e sofridos,
sempre com o mesmo lema,
com outros mais indecisos.

Empolguei estrofes em resma
repliquei tanto e mais sem avisos
e esqueci-me do teu poema.

 
António MR Martins

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Sós

 

Não me canso de pensar no teu rosto, na tua pele e no ínfimo dos seus poros. Não me canso de imaginar mil e um sorrisos, e o teu olhar límpido, provido de ternura. Ai, se soubesses como desejo essa boca. Ficaria horas a contemplá-la com os dedos, em desenhos, pela noite fora. Anseio o toque e o beijo. Não consigo, nem quero, ter mão em mim. Não quero parar. É mais forte do que eu, a libido e a vontade de possuir esse teu corpo feminino, belo, perfeito, quase intocável. Ao existires, sou mais homem e sobrevivo à saudade. É verdade, basta sorrires. Tão fácil, amor. Consigo, por instantes, ter-te aqui e abraçar-te. Podiamos dançar a noite inteira, não achas? Entrelaçados ao som da vida. Gritar, fugir, viver, os dois, sós, lado a lado. Tão bom!
 
 
Gonçalo Lobo Pinheiro

Humana alma

 
Foto de Gonçalo Lobo Pinheiro, em Macau.
 

Será a alma um sentido
ou expressão do interior
um gostar mais apelativo
entre um abraço de amor

a razão de se poder viver
ou pela morte consagrada
versus pulsações pelo sofrer
ou mensagem estruturada

evidência de contrastes
ou um olhar bem mais profundo
valência de tantos disfarces
entre os desígnios do mundo

força sem escutar opinião
ou impasse entre sim e não

 

António MR Martins

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

[Quando me agasalhas]

 
 
Quando me agasalhas

Ancoro recatadamente em mim

E dou-me, e damo-nos…

E vamos por ali, até às estrelas…

Quando me invades
...

De olhos cerrados,

Procuro a perenidade...

Neste momento saliente

E dá-se o laço de nós dois...

E devolvo-me neste enlace…

E assumo-me na outra metade

E damo-nos à soma de nós

E acato esta pertença, de mim...

Num mesclado do mais profundo

Pleno de anseios, e de silêncios escusos

Entre a tua e a minh'alma!
 
 
 
Maria Nóbrega

Sinais dos tempos

 

 

Madrugam enlaces sonoros
no clamor restrito da noite
por entre sorrisos e choros
na leva de tanto açoite

restos de outro dia sofrido
sentidos sem ter qualquer nome
perante um sonho perdido
desencadeado na fome

rebuliços do desespero
na vil alçada da confusão
onde decisões sem tempero
afastam o sorriso  união

no regresso ao exagero
volta o choro da ilusão

 
António MR Martins

sábado, 3 de novembro de 2012

Deixa-me ler-te à luz da vela

 

No deserto do tempo impune
Arranquei labaredas dos teus olhos
Sem saber se as algas
Que me salgavam o rosto
Tinham o mesmo sabor frio
Das mazelas que pintei no teu corpo

Quem me dera poder apagá-las
Num simples traço a carvão
Sucumbindo em seguida
Sob os braços da Mendiga Romana

Talvez o lamaçal d’ escuridão
Que carrego nesta pena incondicional
Partisse com o clarão de luz
Que atravessa esta cela de barro

Deixa-me ler-te à luz da vela
Quando o dia se acabar



Conceição Bernardino

finados antes de tempo

 
Bodies: The Exhibition, by Gonçalo Lobo Pinheiro.
 

fervem
inquietudes soberanas
a bombordo
do bote do desgaste evidente

entre mares
de sofrimento
e outros traumas inquietantes

fervem
os atilhos inconsequentes
pelas manobras
de um inseguro leme

entre ondas de desespero
que fervilham náuseas
na indisposição das mentes
e nos prantos das medusas

fervem
notícias de podridão
com metáteses mecânicas
secadoras de almas

entre o sonegar
das horrendas intenções
que nos trazem perdidos
perante
a procura do verdadeiro caminho

fervem-nos
sequem-nos
filtrem-nos
apertem-nos
molestem-nos
finem-nos

 
António MR Martins