quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Nó limitador


Este nó
Do desconforto
Me estabelece o alcance

Quão perturbador
É o aperto
Que me rodeia o movimento

É vaga
A possibilidade
De o abandonar

Tão vaga
Como a incerteza
Num futuro

Se este nó
Tivesse
Apenas
O efeito de me toldar
De me agarrar
De me segurar

Não permitindo
Que tombe
Intempestivamente
Sem sentido

Mas não
Este nó
Limita-me todo o ser
E sua desenvoltura

Desenfreadamente

António MR Martins

foto da net

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Estrela do Mar

Olhei, para aquela estrela
Mais laranja que amarela
Sentei-me e, falei com ela
Bem perto, uma pedrinha
Ela tinha o brilho do sol
E no meu pensamento
Uma janela
Rodopiei com a dita
Deixei uma palavra escrita
Um coração, desenhei com ela
Branca, polida e bonita
Um pedacinho na terra
Conversamos tanta coisa
Até no reflexo do mar
Eu me deixei ir com ela
Depois de muito conversar
Deixei-a lá ficar, para o mar a vir buscar
De noite, se a encontrar
Neste lindo planeta azul
Que nós temos que cuidar
E o amor não descuidar
Coberto de mar e terra

Cristina Pinheiro "mim"

A precisa palavra para ti


Comecei
a escrever um texto…
nada de relevante,
mas no continuar
me lembrei de ti.

A ânsia
de te dirigir uma palavra…
qualquer que ela fosse,
o importante
era escrevê-la.

Quase parei,
perante tal circunstância…
como seria a aludida,
qual o seu significado,
teria que dizer tudo por si.

Interroguei-me
no âmago da questão…
seria a definição do esplendor,
seria a sublimação,
imensa força, teria de tê-la.

Num instante pensei:
- Não poderia ser uma qualquer!...

Nome de flor?
Nome de estrela?
Nome de cor?
Ou, simplesmente,
a referenciação dela?

Depois de achas lançadas,
de outras desaproveitadas,
das mais enfeitiçadas,
das ténues adornadas,
das simples transfiguradas,
e de quejandas enfeitadas…

Decidi:

- Amo-te!
António MR Martins
foto in helenmix.blogspot.com (na net)

domingo, 16 de agosto de 2009

#07



tenho fome de silêncios.




sobe lenta a minha morte, do lado de fora da janela, à espera. às vezes penso que nunca existirão palavras suficientes para te matar deveras. às vezes penso que me são reveladas palavras pela primeira vez, entupidas de silêncio, elas próprias criadas da segunda costela do meu desespero. estás em retrocesso e creio ser essa a tua última morada. quero escrever-te qualquer coisa breve, qualquer coisa que não nos consuma como nos consome o tempo, ou o espaço atrás dele. delicadamente perco o rumo a esta vida, tão curta como a tua, tão vadia, que se desprende em gotas pelos poros como o orvalho de madrugada a pender nas folhas. bem te disse que fomos criados por um adeus sem acenos, somos frutos da mesma estação, estamos podres. quisera hoje roubar-me o passado e enforcá-lo na galha desta saudade, quisera hoje matá-lo, repetidamente, até o ouvir chorar o teu nome como da primeira vez. repito: sobe lenta a minha morte, do lado de fora da janela, à espera.

Margarete da Silva "Mar"

Vem de ti


Vem de ti…
A pujança do teu carácter,
a firmeza do decidir.

Vem de ti…
A beleza do teu sorriso,
a magia do teu encanto.

Vem de ti…
O enlevo que pressinto
na razão do existir.

Vem de ti…
As pétalas da esperança,
que envolvem nosso manto.

Vem de ti…
A simplicidade das coisas,
numa áurea de felicidade.

Vem de ti…
O eminente rejubilar
no colmatar o sofrer.

Vem de ti…
A voz da proeminência
no relato da verdade.

Vem de ti…
O afago que sempre sinto
e que tento acolher.

Vem de ti…
Entre tantas outras coisas,
saudadas sem preconceito,
a carícia que em mim poisas
nesse teu sublime jeito!...

Vem de ti…
Tudo o que preciso em mim:
- A amizade no seu esplendor
e o auge de me sentir assim:
- Aconchegado no teu amor!...

António MR Martins
foto de Alzira Martins, ano de 1977

Resto de luz

É no tempo que nos resta
Que encontramos a vida
Aguarela cinzelada
No dourado solar
Escondido
Na lua prateada

Um labirinto caminho
Com becos cicatrizados
Espiral de horas
Promessas imaginárias
Erguem-se as pálpebras
Descalças
No fundo do túnel em breu
Um resto de luz
Espreita ao longe
Arranca no sangue
O grito agudo
Enraizado no desalento
Rasga o véu
Em busca da força divina
Tempo perdido
Agarrado no sussurro
Sem lamento…

Ana Coelho

9 - Escolhas

todos os instantes futuros
serão passado.
ditames do fluir,
pois nada é cativo senão livre.
fundamentos da consciência?
o pensamento do coração
a redenção não é opção. é escolha!
como a luz,
a bondade,
o ser universal
e o aceitar do místico que nos faz no uno.
o tempo é maior do que o tempo humano!

Vicente Ferreira da Silva

in livro "Interlúdios da Certeza", edições Temas Originais, Março de 2009

Grande festança

Naquele grandioso repasto
para o qual fui convidado
deparámos com menú vasto,
nunca antes saboreado
Foi degustar carne e peixe
sobremesas até mais não;
regados com vinho a desleixe,
até tombar ao "caixão"!...
Alimentos em demasia...
jamais foram recusados,
sempre com enorme alegria.
Nunca, por nunca pensado
aquela ementa por magia...
teve seu teor reprovado!...
António MR Martins
foto in blogue "Momento", de Sara Ramos (Gula)

sábado, 15 de agosto de 2009

As voltas que uma folha dá

E a folha enrola no vento
Prisioneira arrebatada
Num inquieto sentimento
De leveza sustentada.
Num sopro se ergue ao céu
Repescando o nosso olhar
Lá no alto tudo é seu
E a alma segue-a a pairar.
Quebra-se o ar e a vontade
Soltam-se os laços sustento
Cai a folha em liberdade
E morre junto com o vento.
E a alma segue-a também
Num movimento sem jeito
Liberta-se no que a mantém
Presa num amor perfeito

Conceição Roque Silveira

Banco de jardim

Apetece-me!
Hoje sento-me no banco do jardim.
Aqui espero a tua chegada.
Hás-de vir um dia, eu sei.
Rodeiam-me os passos do sossego.
Ao virar a face creio em ti no horizonte.
Não estou aqui a todo o momento;
Vou e venho amiúde, e me tolero
Neste jogo de anseio.
Entretanto se chegares e não me vires,
Pergunta por aí onde me encontro.
Não creio que o banco de jardim te responda
Pois nele não mais me sentei.
29 de Julho de 2009

© Gonçalo Lobo Pinheiro

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Deixem-me em paz

Arranquem-me das entranhas
pela vil desobediência
e pelas causas tamanhas,
já me falta a paciência!...
Deixem-me da mão um segundo,
de vós já não faço caso...
querem ser senhores do mundo,
para isso não vos dou azo!...
Vão lixar-se e outro tanto,
bugiar para outro lado...
da vida perdi o encanto!...
Estou de merda atolado,
deixem de emitir esse canto,
dele já estou escaldado!...

António MR Martins
foto RF Royalty Free "Ira"

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Terra é sempre Terra!

Ainda há terra em minhas unhas
Onde arava a vida em verve!
Em brados de sonhos da alcunha
Da minha querida Baixa Verde
Ainda ouço o baque do balde no poço
E o trote dos burros mansos,
O crepitar da lenha cozinhando o almoço,
A rede no alpendre, embalando o descanso...
Mesmo quando algum dia, velhinha
Envolta em lembranças que me definham
Ainda terei seguro nas mãos, o sonho
Agasalhando meus ossos gelados
E erguendo meu olhar, já ignorado
Alçando vôo a procura de meu ninho!

Gladys F. Kogl "Maria verde"

domingo, 9 de agosto de 2009

Perde-se o homem, não o valor

Perde-se o homem
Não o valor
Fica o autor
Por ele meu clamor.
Perde-se o homem
Não o valor
Fica o humanista
O poeta, o cantor.
Perde-se o homem
Não o valor
Fica o companheiro
O sagaz apresentador
Perde-se o homem
Não o valor
Fica a sua razão
De simples sofredor.
Perde-se o homem
Não o valor
Fica a sua imensidão
O sorriso libertador.
Perde-se o homem
Não o valor
Fica o seu pundonor
O ser lutador.
Perde-se o homem
Não o valor
Fica o belo azul
A sua grata cor.
Perde-se o homem
Não o valor
Fica a sua criatividade
O ser inventor.
Perde-se o homem
Não o valor
Fica a recordação
Do seu bom humor.
Perde-se o homem
Não o valor
Fica-nos na alma
O seu eterno amor!...
A minha singela homenagem ao grande homem da cultura portuguesa, meu consócio azul de Belém, que deixou a vivência terrena a 8 de Agosto de 2009.

Até lá!
2009.08.09
António MR Martins
foto de Raul Solnado, tvuniverso.com (net)

domingo, 2 de agosto de 2009

Diálogo impossível

- Acontecem-me coisas sem falar.
Disse como se não tivesse ouvido.
- E digo-lhe mais:
- O que é que você disse?
- Disse que você ouve coisas a mais.
- Ah! Pensei que você tinha dito que eu falava pouco.
Queira desculpar.

José Ilídio Torres

sábado, 1 de agosto de 2009

rasga tudo

rasga que é papel, rasga que é verso,
rasga calvário acima, rasga calvário abaixo.
rasga e crucifica a paciência,
rasga tudo que a mentira virou ciência.
rasga a fictícia tempestade,
rasga que é álcool nas pernas e água a ferver.
rasga esse estalar de ossos,
rasga que não passa de arroto débil da mente.
rasga e tropeça no fragmento,
rasga e não choques ovos na alcova do jumento.
rasga tudo que são cólicas,
rasga a gargalhadinha de raiva que idiotice virou talento.

António Paiva