sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Alma Coerente

Se visses o que eu sofri…
Em tempos idos que foram
Talhados de muita amargura,
Mas sempre coerente comigo!
Se visses o que eu sofri…
Por um ser que muito amo
Não lhe trazer maiores mágoas,
Mas sempre coerente comigo!
Se visses o que eu sofri…
Por outros que pensei me amarem
Hoje uma certeza marcante,
Mas sempre coerente comigo!
Se visses o que eu sofri…
Quando um dia eu descobri
Que sofrer não vale a pena,
Mas sempre coerente comigo!

Luísa Simões Martins

As fontes de tantas vidas - Ao ilustre poeta Xavier Zarco

O poeta fala das fontes
Da sua vontade
E do anseio
Pela sua cidade
Mítico tesouro
Da universidade da vida
Centro de um universo histórico
Que lhe deu guarida

Num misto de sublimação
E história
Num retrato de euforia
E felicidade
Preservado pela sapiência
E pela memória
Em fantasia ao encontro
Da realidade

Realça a água que corre
Das fontes
A meias com o caminhar
Do Mondego
Dessa Coimbra entre serras
E montes
E do seu constante percurso
Para se alhear do degredo

Conflitos de gerações
Amores divinais
Das ilusões
E de todos os vitrais

Desse espólio
Dessas fontes de cristal
Do amor de Pedro e Inês sem igual
De Coimbra de Portugal

Do embalar da História
Do apogeu e da glória
De cultura com apego
De Santa Clara do seu aconchego

Quem faz um hino
Fá-lo por gosto
António MR Martins
foto de António Martins (junto à Fonte dos Amores, árvore secular, Coimbra - 15 de janeiro de 2008)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Estudo

Do que sei de mim
Sei do mar.
Sei das formas, sei das cores.
Que a onda nasce, cresce e cai
E que, a cada recomeço,
Já não vai ser mais a mesma
Que desperta, sobe e seca
Mas a luz do seu avesso.
E corres e corres mas afundas
Percorres, percorres mas perdes
E morres e morres mas demoras.

Diana Correia

Azul sempre, sempre azul


Azul do mar
Azul do céu
O mesmo arfar
O mesmo véu
Azul celeste
Azul bebé
Azul que veste
Azul que é
Azul Belém
Azul fraterno
Azul de mãe
Azul tão terno
Azul prefiro
Cor sem igual
Te acho giro
Cor celestial
Ó meu Belenenses
Tu és azul
Quero que penses
Sempre azul
Por ti eu choro
Por ti eu rio
Por ti demente
Por ti imploro
Dias a fio
Azul para sempre
António MR Martins
foto de Gonçalo Lobo Pinheiro

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

«« Néctar ««

Não, não perguntes se ainda te amo
Não se pergunta ao dia se quer o sol
À noite se quer a lua, à cama se quer lençol
Nessa cama em que por ti clamo
Assim como a folha precisa do ramo
Para balançar ao vento tal o rouxinol
Que canta uma melodia ao girassol
Que abre as pétalas onde derramo
A minha existência tentando colher
O amarelo aveludado das pétalas
Os matizes e a seiva que tento absorver
No néctar que busco em ti, em algumas
Poucas palavras, lágrimas brotadas
Sonhos suspensos, tantas curvas apertadas…

Antónia Ruivo "alentejana"

Nó limitador


Este nó
Do desconforto
Me estabelece o alcance

Quão perturbador
É o aperto
Que me rodeia o movimento

É vaga
A possibilidade
De o abandonar

Tão vaga
Como a incerteza
Num futuro

Se este nó
Tivesse
Apenas
O efeito de me toldar
De me agarrar
De me segurar

Não permitindo
Que tombe
Intempestivamente
Sem sentido

Mas não
Este nó
Limita-me todo o ser
E sua desenvoltura

Desenfreadamente

António MR Martins

foto da net

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Estrela do Mar

Olhei, para aquela estrela
Mais laranja que amarela
Sentei-me e, falei com ela
Bem perto, uma pedrinha
Ela tinha o brilho do sol
E no meu pensamento
Uma janela
Rodopiei com a dita
Deixei uma palavra escrita
Um coração, desenhei com ela
Branca, polida e bonita
Um pedacinho na terra
Conversamos tanta coisa
Até no reflexo do mar
Eu me deixei ir com ela
Depois de muito conversar
Deixei-a lá ficar, para o mar a vir buscar
De noite, se a encontrar
Neste lindo planeta azul
Que nós temos que cuidar
E o amor não descuidar
Coberto de mar e terra

Cristina Pinheiro "mim"

A precisa palavra para ti


Comecei
a escrever um texto…
nada de relevante,
mas no continuar
me lembrei de ti.

A ânsia
de te dirigir uma palavra…
qualquer que ela fosse,
o importante
era escrevê-la.

Quase parei,
perante tal circunstância…
como seria a aludida,
qual o seu significado,
teria que dizer tudo por si.

Interroguei-me
no âmago da questão…
seria a definição do esplendor,
seria a sublimação,
imensa força, teria de tê-la.

Num instante pensei:
- Não poderia ser uma qualquer!...

Nome de flor?
Nome de estrela?
Nome de cor?
Ou, simplesmente,
a referenciação dela?

Depois de achas lançadas,
de outras desaproveitadas,
das mais enfeitiçadas,
das ténues adornadas,
das simples transfiguradas,
e de quejandas enfeitadas…

Decidi:

- Amo-te!
António MR Martins
foto in helenmix.blogspot.com (na net)

domingo, 16 de agosto de 2009

#07



tenho fome de silêncios.




sobe lenta a minha morte, do lado de fora da janela, à espera. às vezes penso que nunca existirão palavras suficientes para te matar deveras. às vezes penso que me são reveladas palavras pela primeira vez, entupidas de silêncio, elas próprias criadas da segunda costela do meu desespero. estás em retrocesso e creio ser essa a tua última morada. quero escrever-te qualquer coisa breve, qualquer coisa que não nos consuma como nos consome o tempo, ou o espaço atrás dele. delicadamente perco o rumo a esta vida, tão curta como a tua, tão vadia, que se desprende em gotas pelos poros como o orvalho de madrugada a pender nas folhas. bem te disse que fomos criados por um adeus sem acenos, somos frutos da mesma estação, estamos podres. quisera hoje roubar-me o passado e enforcá-lo na galha desta saudade, quisera hoje matá-lo, repetidamente, até o ouvir chorar o teu nome como da primeira vez. repito: sobe lenta a minha morte, do lado de fora da janela, à espera.

Margarete da Silva "Mar"

Vem de ti


Vem de ti…
A pujança do teu carácter,
a firmeza do decidir.

Vem de ti…
A beleza do teu sorriso,
a magia do teu encanto.

Vem de ti…
O enlevo que pressinto
na razão do existir.

Vem de ti…
As pétalas da esperança,
que envolvem nosso manto.

Vem de ti…
A simplicidade das coisas,
numa áurea de felicidade.

Vem de ti…
O eminente rejubilar
no colmatar o sofrer.

Vem de ti…
A voz da proeminência
no relato da verdade.

Vem de ti…
O afago que sempre sinto
e que tento acolher.

Vem de ti…
Entre tantas outras coisas,
saudadas sem preconceito,
a carícia que em mim poisas
nesse teu sublime jeito!...

Vem de ti…
Tudo o que preciso em mim:
- A amizade no seu esplendor
e o auge de me sentir assim:
- Aconchegado no teu amor!...

António MR Martins
foto de Alzira Martins, ano de 1977

Resto de luz

É no tempo que nos resta
Que encontramos a vida
Aguarela cinzelada
No dourado solar
Escondido
Na lua prateada

Um labirinto caminho
Com becos cicatrizados
Espiral de horas
Promessas imaginárias
Erguem-se as pálpebras
Descalças
No fundo do túnel em breu
Um resto de luz
Espreita ao longe
Arranca no sangue
O grito agudo
Enraizado no desalento
Rasga o véu
Em busca da força divina
Tempo perdido
Agarrado no sussurro
Sem lamento…

Ana Coelho

9 - Escolhas

todos os instantes futuros
serão passado.
ditames do fluir,
pois nada é cativo senão livre.
fundamentos da consciência?
o pensamento do coração
a redenção não é opção. é escolha!
como a luz,
a bondade,
o ser universal
e o aceitar do místico que nos faz no uno.
o tempo é maior do que o tempo humano!

Vicente Ferreira da Silva

in livro "Interlúdios da Certeza", edições Temas Originais, Março de 2009

Grande festança

Naquele grandioso repasto
para o qual fui convidado
deparámos com menú vasto,
nunca antes saboreado
Foi degustar carne e peixe
sobremesas até mais não;
regados com vinho a desleixe,
até tombar ao "caixão"!...
Alimentos em demasia...
jamais foram recusados,
sempre com enorme alegria.
Nunca, por nunca pensado
aquela ementa por magia...
teve seu teor reprovado!...
António MR Martins
foto in blogue "Momento", de Sara Ramos (Gula)

sábado, 15 de agosto de 2009

As voltas que uma folha dá

E a folha enrola no vento
Prisioneira arrebatada
Num inquieto sentimento
De leveza sustentada.
Num sopro se ergue ao céu
Repescando o nosso olhar
Lá no alto tudo é seu
E a alma segue-a a pairar.
Quebra-se o ar e a vontade
Soltam-se os laços sustento
Cai a folha em liberdade
E morre junto com o vento.
E a alma segue-a também
Num movimento sem jeito
Liberta-se no que a mantém
Presa num amor perfeito

Conceição Roque Silveira

Banco de jardim

Apetece-me!
Hoje sento-me no banco do jardim.
Aqui espero a tua chegada.
Hás-de vir um dia, eu sei.
Rodeiam-me os passos do sossego.
Ao virar a face creio em ti no horizonte.
Não estou aqui a todo o momento;
Vou e venho amiúde, e me tolero
Neste jogo de anseio.
Entretanto se chegares e não me vires,
Pergunta por aí onde me encontro.
Não creio que o banco de jardim te responda
Pois nele não mais me sentei.
29 de Julho de 2009

© Gonçalo Lobo Pinheiro