quinta-feira, 6 de maio de 2010

A tua força mulher

Podes festejar o teu ser
Na imensidão de um abraço
Envolvido no permanecer
No carinho do teu regaço

Podes dormir no cansaço
Desígnio do rude labor
Que encontras em ti o espaço
Para dar e receber amor

Podes omitir a tristeza
Que te embala o interior
Numa melancolia profunda

Que sorris sempre à mesa
Onde alimentas a tua dor
Na comida que não abunda


António MR Martins
imagem in http://aideiadenaoterideia.wordpress.com/2009/04/24/movimentos-feministas-decada-60-70/, na net

Soltando as palavras

De novo
A perspectiva da emoção
De um enlevo que urge aparecer

A ânsia
Que envolve essa marcha
Onde tudo parece acontecer

O conforto
Traz partículas de comoção
Onde o suspiro não se consegue conter

O incentivo
Manobra o ego e não paga taxa
Iluminando o semblante quando nada se quer ver

O abraço
Envolve o afecto da amizade numa imensidão
E que muito poderá valer

O apoio
Enfim nos relaxa
E diminui o domínio deste bom sofrer

Mas tudo valerá sentir
Desde que de bom augúrio
Neste meio de intervir
Sem alimentar o mercúrio
Acicatando o leitor a sorrir
E por fim soltar um murmúrio

António MR Martins
imagem in http://victody.wirdpress.com/2010/01/05/sentimentos/, na net

domingo, 2 de maio de 2010

BLOG DE OURO


Este belíssimo selo foi-me remetido por um amigo, nesta coisa que são as palavras:
Grato pela referência, Emanuel Lomelino.
As regras são:
1
Porque acha que mereceu este prémio?
Porque alguém se lembrou de o conceder ao meu humilde local das palavras.
2
O blog que o indicou merecia o prémio blog de ouro?
Em absoluto. É um autor que humildemente mexe e remexe com as palavras e fá-lo bem.
3
Indicar este selo para 10 blogues

Sombras

Alcanço um som,
Leve, muito leve,
Não são harpas
Não são Anjos
São fantasmas descalços.
Sabem-se implicantes
Por tão antigos serem.
Vivem no sótão,
Nos medos e segredos
De quem nada sabe.
Inquietam, procuram,
Abanam,
Remexem o passado:
Matam as palavras,
As desculpas,
Os lamentos,
Os ais dos choros
Ainda vivos,
Sofridos no sangrar
Dos pulsos.
Nas sombras da noite
Onde sopra uma pitada
De luar,
Meus olhos sempre criança,
Gemem de pavor…
Nas mãos uma Cruz,
Na boca,
Um Anjo da Guarda.
O hábito veste de branco
Na luta contra o medo,
Quando partem,
Sem cuidado,
Advém a desarrumação.
Na parede,
Sem mais…
Um lembrete!
Amanhã, à mesma hora!
Cerram os suores,
Por fim, durmo.

José Luís Lopes

Tantas vezes Mãe

Se escolhem palavras bonitas
Se oferecem flores tão belas
No dia que a ti dedicam Mãe

Te oferecem coisas catitas
E se esquecem das singelas
Como o teu simples sorrir Mãe

Te publicitam a rodos
Pelas compras que te dirigem
E os enfeites que te atingem Mãe

Deviam falar-te com modos
E esquecer-se da fuligem
Que a tua idade já tem Mãe

Te compram uma viagem
Uma mala ou um vestido
Sem que a ti te mereçam Mãe

Nesta esquiva passagem
Falta-te um pouco de amor
De que às vezes me esqueço Mãe


António MR Martins

2010.05.02
DIA DA MÃE
imagem in http://ilove.terra.com.br/lili/palavrasesentimentos/dia_maes.asp, na net

sábado, 1 de maio de 2010

Amas-me?

Dorme-nos.
Com anjos.
No leito das minhas lágrimas
Cobre-te de pele
Aquece-te em mim
Encontra amor
Ateado na dor
De estar assim
Perdida nele,
Nos desarranjos.

Dorme-me.
Com asas.
Roubadas aos anjos da noite
Eleva-nos no ar
Faz-me alvorada
Diz-me a sorrir
Que não vais partir
Quero-me abraçada
Num perpétuo amar
Amas-me?
Goreti Ferreira

Um adeus maior

Uma lágrima
Me cai dos olhos
Pela tristeza que me consome

Uma perda
Num cântico triste
Em melodia inigualável

Um abraço
Na despedida
Mais interioriza tal findar

Um baixar a cabeça
E num repente a levantar
Porque aquele ser agora dorme

Um sorriso
Pela partilha
E pela amizade inesgotável

Um adeus
Eternamente profundo
Pelas memórias que me deixou ficar


António MR Martins

foto do cartaz do filme "A Melodia do Adeus", da net

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Consolação

Se eu morrer de manhã
abre a janela devagar
e olha com rigor o dia que não tenho.

Não me lamentes. Eu não me entristeço:
ter tido a morte é mais do que mereço
se nem conheço a noite de que venho.

Deixa entrar pela casa um pouco de ar
e um pedaço de céu
- o único que sei.

Talvez um pássaro me estenda a asa
que não saber voar
foi sempre a minha lei.

Não busques o meu hálito no espelho.
Não chames o meu nome que eu não venho
e do mistério nada te direi.

Diz que não estou se alguém bater à porta.
Deixa que eu faça o meu papel de morta
pois não estar é da morte quanto sei.


ROSA LOBATO DE FARIA

Arcas do esquecimento

Esplêndidas as gloriosas arcas
E o elixir que elas contêm
Pelo aroma que transmitem

Se auto-avaliam parcas
E a tudo que de si advém
Sem que tal o debitem (ou creditem)

Nunca passam além das marcas
Resistem sem um vintém
Mesmo que não acreditem

Expressas as suas atitudes
Embora julgadas irreflectidas
Apresentam-se só e fragilizadas

Nomeiam-se plenas de virtudes
Por nunca terem sido detidas
E serem de todos enamoradas

Acompanhadas de vicissitudes
Sendo por tal apetecidas
Jamais serão divulgadas


António MR Martins
origem da foto: net

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Três poemas do livro "Amador do Verso", de Emanuel Lomelino



Valor

Na perplexidade da certeza
Surge a divina iluminação
De um abraço, a riqueza
Da amizade de um irmão

Qual o valor da amizade
Que os amigos podem dar?
Ninguém sabe da verdade
Ninguém pode quantificar

Qual o valor de um amigo
Que na ausência se faz sentir?
A distância só será castigo
Se a amizade não se reflectir

…………

Ítaca


Percorro caminhos sem rumo definido
Procuro descobrir um lugar para ficar
Onde tudo na vida faça algum sentido
E o meu ser alcance um novo patamar

Preciso encontrar esse efémero espaço
É grande mister abraçar nova energia
Ganhar outros hábitos, novo compasso
Desfazer-me desta perniciosa letargia

Pretendo outras cores e frescos brilhos
Quero novos resplendores, outros sóis
Que iluminem uma existência refeita

Vou libertar-me nestes inócuos trilhos
Aonde não existem vilões nem heróis
E aproximar-me de uma vida perfeita

…………

Assim me dou

Tenho uma paixão e não guardo segredo
Tenho na veia palavras que correm
E não me incomodo ao sangrar
Sou dador de versos que partilho
Sentimentos que vos ofereço
Sou um livro aberto.
Sou poesia ou talvez não
Dou o que quero e posso
Letras, palavras, frases, versos, ideias.
Sou uma história que relata
Emoções à flor da pele
Sentimentos na ponta da língua.
A minha voz é muda e ecoa em vossos olhos
Vocês lêem os meus lábios
Ficam com uma imagem do que sou
Ficam com uma ideia do que quero
Ficam a saber o que penso.
Faço da poesia o meu grito de revolta
Escrevo a minha presença no mundo
Rasgo-me em pedaços de sentido
Dou-me retalhado mas compreensível.
Assim deixo ao mundo o meu legado
Herança maior do que a que me foi deixada
Tudo isto partilho e vos deixo
Sem testamento ou últimas vontades.

…………

Emanuel Lomelino

::::::::::::

Emanuel Lomelino, o autor do livro de poesia “Amador do Verso”, traz-nos experiências, divulgações e sentimentos nas palavras que nos deixa por legado (como ele próprio afirma). O Emanuel não teve uma vida fácil e sabe o que é comer o pão que o diabo amaçou.
Esta sua obra literária que nos surge às mãos, pela editora Temas Originais, nos envolve em circunstâncias que são as suas e tudo o que em volta delas se desenrola.
O Emanuel é um homem que está pronto a apoiar o seu amigo, ou a escrita de quem lhe merece a atenção. Chegou a vez de ser ele o referenciado, e é isso que neste momento faço. Não por simples ajuda ou retribuição. Faço-o porque a poesia de Emanuel Lomelino merece ser conhecida e divulgada, para depois ser reconhecida.
É um enorme prazer, aliás um privilégio, publicar e referenciar o Emanuel no meu blogue.
Façam favor de o ler, no seu: “Amador do Verso”.


António MR Martins

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Solos das preces perdidas


Chão calcado
Pela dor
Em tempos de sofrimento

Onde o sol
Tinha mais calor
E o trabalho menos provento

Chão perdido
No desalento
No campo e na cidade

Alentejo
Hoje um portento
Onde se festeja a Liberdade


António MR Martins

As palavras que o livro tem


O livro grande ternura
A procura que não abandono
Na etapa de cada palavra

Tal qual a terra amanhada
Vê florir o crescimento
Do trabalho de sua lavra

Nestas páginas do desejo
Onde correm as metáforas
Da escrita da invenção

Se projectam os clamores
De um valor bem profundo
Da palavra em ebulição

Tocam os sinos a seu jeito
Faz-se a festa bem airosa
No meio da felicidade

A palavra no branco papel
Torna-se muito mais formosa
Faz fluir a Liberdade


António MR Martins

2010.04.23
(Dia Mundial do Livro)

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Três poemas do livro "Varandas de Luar", de Dalila Moura Baião



AURORA BOREAL

Nascem madrugadas apressadas,
entrelaçadas de sonho e Vida;
irrompem ternuras orvalhadas,
na inquieta irreverência da palavra,
que em castelos de luar,
flutua… perdida!

…………

NAMORO DO SOL

Hoje fui à janela de cristal
Espreitei e vi o Sol dependurado
Surpresa, quis tocar-lhe de mansinho
Então, vi-o partir p’ra outro lado!

Saltava como criança feliz
Na mão levava um raio enfeitiçado
Deixou preso um recado no vento
“Cautela, porque estou enamorado”…

Fechei a janela muito a medo
Esperei no soalho envidraçado
Dancei a melodia do Segredo
E fiz dessa ilusão um aliado!

Foi quando o meu olhar se iluminou
E o Sol transpareceu sua Verdade
Juntinhos improvisaram um sonho
Eu vi o Sol beijar a Liberdade!...

…………

VARANDAS DE LUAR

Que ternura é essa
que irrompe desse olhar
cansada e secreta
presa na memória
duma flor colhida
em varanda de luar?
Colho do teu corpo a melodia
e danço contigo, ao som do desejo
embriagado
dum Verão por acontecer…
Fascina-me esse silêncio
atarefado em se ocultar.
Rasgas da boca o sorriso,
como gaivota apressada
e surge o beijo.
Tal qual um bater de asas
livre e doirado, cheirando a mar.
Rasgo da memória, a flor.
Será que doem as imagens
com fragmentos de luar?
Que envelheça a dúvida,
aí!
Onde a ternura é jovem
na doçura do olhar.

…………

Dalila Moura Baião

::::::::::::

Tenho para com o livro “Varandas de Luar”, de Dalila Moura Baião, um carinho muito especial. É que esta obra, constituída em livro-papel pela editora Temas Originais, teve a particularidade de ser apresentada por mim, no seu lançamento, em pleno dia de meu aniversário, 27 de Novembro de 2009. No entanto o carinho que refiro não é só por esse acaso, no início da sua existência, é, também, porque não estava prevista essa apresentação ser feita por mim (eu não conhecia a autora, sequer), como veio a acontecer e porque se determinou uma verdadeira empatia com esta belíssima obra. Subir a estas varandas, donde se avista uma paisagem de transcendente beleza, foi um prazer enorme. A poesia da Dalila embeleza o semblante do leitor, derivado desse revelado pressuposto, sucessivamente, na abordagem de temas tão belos e naturais, como a própria natureza e/ou o amor que tonifica o seu seio familiar.
Esse prazer não termina após a leitura dos seus poemas, aliás quantifica-se na memória do que nos fica depois dessa leitura. E ter a oportunidade de repetir a subida a estas majestosas varandas, conforme irá acontecer no próximo sábado dia 24, na terra natal da autora, em Santo Estêvão – Benavente, mais vem fortalecer esse sentir.
É óbvio que tudo isto se traduz, igualmente, no conhecimento que hoje tenho da autora, pelos encontros tidos em vários eventos e, pelo regular intercâmbio das nossas mútuas palavras. Nossa amizade vai-se fundamentando e cimentado.
Quanto ao livro “Varandas de Luar” recomendo-o à leitura, pelos belos poemas que contém, mas também, como é evidente, pela sua grande qualidade. Aqui as palavras vão surgindo repletas de belos significados.

António MR Martins


Ao findar de um dia

Segredo-te
Na penumbra da noite
A contenção do meu sentir

Relembro-te
A validade desse guardar
Sem divulgação

Questionas-me
Antes de dormir

Oiço-te
Com toda a atenção

Recordas-te
Do nosso último segredo
E como o colocámos
Em nossas recordações
Invisíveis
Não palpáveis
E escondidas

Segredo-te
Pela vez última do nosso descanso
Não esquecendo nossas feridas

Lembro-me
Como se fora hoje
Até amanhã

E pela madrugada fora
Surge-nos um dia novo
Uma outra manhã

António MR Martins
foto in http://www.baixaki.com.br/papel-de-parede/17334-montanhas-ao-anoitecer.htm

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O livro "Entre as margens da memória" (excerto), o texto "9 Minutos", de Paulo Afonso Ramos - Edições Temas Originais


9 Minutos


Tenho nove minutos para fazer tudo o que me falta. E ainda me falta tudo. Olho para trás e vejo que quase nada fiz. Ou melhor, que tudo quanto fiz foi tão pouco para o que poderia – e deveria – ter feito, que agora, que restam nove minutos, tentarei redimir-me, um pouquinho, de tudo o que ignorei quando pensava que teria todo o tempo do mundo para, a meu belo prazer, fazer as coisas que mais gostaria de fazer. Puro egoísmo.

Quero redimir-me. Quero, mas não consigo. Quero que as palavras possam correr pelos corações, que possam saciar a sede dos que precisam de água e que possam alimentar as barrigas esfomeadas que, por este mundo, se escondem ou que aparecem num nítido pedido de ajuda. Que as palavras, tudo o que ainda tenho, possam trazer a paz.

9 Minutos. Que não pararam, que fugiram de mim como na vida tudo fugiu e em que nada mudou. Lamento que as mentes, como a minha, só acordem para a vida quando já é tarde demais, quando já nada podem fazer e depois, em parcos minutos, queiram fazer tudo o que, numa vida inteira, ignoraram. Lamento e penitencio-me por ser igual a todos, por olhar para o outro lado. Lamento profundamente embora de nada adiante. E agora, que escolhi. E não foi por falta de avisos, de conselhos e de vontades que o escolhi. Foi porque só pensei em mim e no momento que vivia quando escolhi cada passo, quando tomei cada decisão e nada mais.
E nos meus últimos segundos, se escolher pudesse, gostaria de usar as seguintes palavras, sabendo de que, com elas, me afasto:

Perdoem. Amem. Uni-vos. Libertem-se. Olhem em redor.

Esgotou-se-me o tempo e nada fiz.

…………

Paulo Afonso Ramos

::::::::::::

“Entre as margens da memória”, um excelente livro de prosa poética da autoria de Paulo Afonso Ramos (um amigo), editado sob a chancela da Temas Originais. Para mim, não é o seu melhor livro (“Mínimos Instantes”, está nesse patamar, pelo menos segundo a minha óptica de singelo leitor) mas tem diversos textos de enorme qualidade, de onde saliento, para além do ora aqui publicado, Diz-me, Embarco na liberdade dos nossos sonhos e Traz-me de volta o meu sorriso, isto, para além de outros. O Paulo é um poeta, um escritor, que ama a palavra e vive com todas elas, em todos os momentos, as palavras são uma das saliências do seu gosto pela vida. Tem sido uma referência, para mim, foi o grande incentivador e impulsionador para que o meu primeiro livro tivesse vida. Portanto não posso emitir opinião só sobre o autor de qualidade, que o é, mas também o devo fazer pela amizade, que vai ganhando fortes alicerces, entre nós.
Um facto é relevante nesta breve alusão a este seu livro “Entre as margens da memória”, é uma obra de grande qualidade, que nos faz sonhar, meditar e bastas vezes nos leva a concluir que nós, como seres humanos, que o somos, nunca fazemos o bastante para cumprir o nosso verdadeiro papel terreno, e quando um dia isso verificamos, torna-se, efectivamente, tarde para fundamentar esse incumprimento.
Para finalizar esta pequena referência sobre esta obra de Paulo Afonso Ramos, passo a transcrever o primeiro parágrafo da respectiva Nota Introdutória, da sua própria autoria: “O corpo segue o que a mente manda. Há, portanto, uma força motriz que gere o nosso Universo, num nosso que é, de facto, o de cada um, em exclusivo.”.

Quanto ao livro, propriamente dito, façam o favor de o ler.

António MR Martins