sábado, 15 de maio de 2010

Moliceiro, ilustre habitante da Ria de Aveiro

Na sentida foz caminham
as águas do teu sossego,
os braços se desalinham
na beleza que não nego.

Teu moliço antigamente,
transportado no moliceiro;
era o sobreviver da gente
nascida na cidade de Aveiro.

Hoje embarcação graciosa
te revelas aos turistas,
que te levam fotografada.

Na Ria navegas formosa,
lhes ensaias velhas pistas
e sentes-te muito amada.


António MR Martins

foto de António MR Martins. Esta foto faz parte da capa do meu próximo livro de poesia "Foz Sentida", que terá o seu lançamento em Lisboa, dia 29 de Maio.

DIFÍCIL DESPERTAR

'alvorada!' ‘alvorada!’
cacarejou o galo,
gritou o despertador;
às seis horas da manhã,
numa manhã preguiçosa,
daquela; fria e chuvosa.

o poeta abriu um olho,
com o outro; meio de soslaio,
olhou seu mais belo poema;
sua ‘flor do dia’, dormia,
sonhando com a poesia,
o amor da noite anterior,
na cama ainda aquecida.

e a partir daquele dia,
não mais, houve alvorada
e decidiu ser sonhador.
e assim; cumpriu a risca,
e não mais foi pra labuta.
precisava de sossego.

por isso; comeu o galo,
quebrou o despertador.
cumprimentou a preguiça;
e voltou pro cobertor.


José Silveira

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Constante destruir

O cata-vento não mói
E este verso não rima

O tempo às vezes corrói
A moça é tão franzina

O sobreviver também dói
A angústia de quem desanima
E já nada constrói

O moço já não atina
Ele que já foi herói
E agora ninguém ilumina

Tem por graça o nome Elói

Já nada o sentido mima
Agora tudo destrói


António MR Martins
foto in Image 100 - RF Royalty Free, na net

terça-feira, 11 de maio de 2010

Poema das palavras

São de pedra
as minhas palavras
entretiveram-se a florir
nas serras
agasalhando o uivo dos lobos
e o sono das noites mais frias.

São como rios perdidos
nas serras
montes rasgados
em fluidos de alecrim
suspiros errantes
arranhar o vento
feridas que se abrem
dentro de mim.

Murmúrios calados
a eclodir no chão
afagando os pés
que trilham o destino
conchas diabéticas
que se matam de sal
areia da praia
em bebedeiras de poesia.

São cânticos de pássaros
as minhas palavras.
Ousaram abrilhantar
os becos mais sombrios
as feridas dos vagabundos
tropeçando na estrada
como se fossem crianças
a chorar a vida!

Vóny Ferreira

Sonhar com a utopia

Sonho
Com as finitas recordações
Sonho acordado com elas
Neste misto de recordações
Visionado em múltiplas janelas

Sonho
Com o gesto da criança
Brincando na praça livre
Almejos de uma bonança
Por que muita gente vive

Sonho
Com o trajecto futuro
Recheado de boas novas
Onde o virtuoso apuro
Desenvolva belas trovas

Sonho
Com melodias supremas
Juntas a belos cânticos
Onde sublimes poemas
Nos façam sentir românticos

Sonho
Com a pobreza perdida
E nunca mais encontrada
Onde se sarem todas as feridas
E as vidas sejam festejadas

Sonho
Com a amizade sentida
Em relances de felicidade
Amando de forma sofrida
Toda a nossa realidade

Sonho
Com um mundo que tarda
Nos passos para a Igualdade
Que no nosso âmago não arda
A plenitude para a Liberdade


António MR Martins
foto in "Fotosearch Enhanced" - RF Royalty Free, na net

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Quietude...(i)

(...e a Natureza)


Devagar, devagarinho…
Chega o Sol no seu raiar,
Seus raios de ouro fininho
Para a Terra iluminar.


Devagar, devagarinho…
Passa a brisa no pairar,
Ficando o ar tão fresquinho
Tão puro p’ra respirar.


Devagar, devagarinho…
Cai a neve no telhado,
Vai ficar tudo branquinho
Num ambiente gelado.


Devagar, devagarinho…
A nuvem branca a passar,
Parece algodão branquinho
Que anda no céu a voar.


Devagar, devagarinho…
Vai a flor desabrochar,
Deixa no ar um cheirinho,
Quando a manhã vai chegar.


Devagar, devagarinho…
A ave no seu glissar,
Vai direitinha p’ro ninho,
Há “biquitos” a chilrear.


Devagar, devagarinho…
Corre a água no ribeiro,
Vai rolando de mansinho
Como se fosse um goteiro.


Devagar, devagarinho…
Pelo mar a saltitar
Um cardume de golfinhos,
Felizes no deu brincar.


Devagar, devagarinho…
As brandas ondas do mar
Vão à praia, com carinho
A fina areia beijar.


Devagar, devagarinho…
Cai a chuva no pingar,
Fica tudo molhadinho
P’ra Natureza brindar.


Devagar, devagarinho…
Vai o Sol a declinar,
E assim deixar o caminho
Para a Lua clarear.


Devagar, devagarinho…
Foi-se o Sol, vem o luar,
E um luzeiro pequenino
Dum vaga lume a brilhar.


António Boavida Pinheiro

Olhos teus

Nos teus olhos
Renasce o clima
Que o mau tempo desvanece

Nesses olhos
De minha estima
Onde o olhar apetece

Esses teus olhos
Apaziguam o sofisma
Que a toda a hora acontece

Nesse olhar
Que a mim anima
E em cada dia floresce

São teus olhos
Um mundo acima
Deste que agora me aquece

Teus olhos para além de belos
São o carisma
Que amiúde me enlouquece


António MR Martins

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Tempo acabado de um Poeta

O tempo come-te a carne
e vomita flores perfumadas,
selvaticamente.

Ardem os livros
no inferno da Palavra
e o gosto a mel
percorre-te a língua, ávida.

Queixumes e lágrimas
acordam o Poema sagrado,
que desfaz a iliteracia
e aplaude o Poeta
compassivo do tempo
que come carne
e vomita flores.
Vera Sousa Silva

A tua força mulher

Podes festejar o teu ser
Na imensidão de um abraço
Envolvido no permanecer
No carinho do teu regaço

Podes dormir no cansaço
Desígnio do rude labor
Que encontras em ti o espaço
Para dar e receber amor

Podes omitir a tristeza
Que te embala o interior
Numa melancolia profunda

Que sorris sempre à mesa
Onde alimentas a tua dor
Na comida que não abunda


António MR Martins
imagem in http://aideiadenaoterideia.wordpress.com/2009/04/24/movimentos-feministas-decada-60-70/, na net

Soltando as palavras

De novo
A perspectiva da emoção
De um enlevo que urge aparecer

A ânsia
Que envolve essa marcha
Onde tudo parece acontecer

O conforto
Traz partículas de comoção
Onde o suspiro não se consegue conter

O incentivo
Manobra o ego e não paga taxa
Iluminando o semblante quando nada se quer ver

O abraço
Envolve o afecto da amizade numa imensidão
E que muito poderá valer

O apoio
Enfim nos relaxa
E diminui o domínio deste bom sofrer

Mas tudo valerá sentir
Desde que de bom augúrio
Neste meio de intervir
Sem alimentar o mercúrio
Acicatando o leitor a sorrir
E por fim soltar um murmúrio

António MR Martins
imagem in http://victody.wirdpress.com/2010/01/05/sentimentos/, na net

domingo, 2 de maio de 2010

BLOG DE OURO


Este belíssimo selo foi-me remetido por um amigo, nesta coisa que são as palavras:
Grato pela referência, Emanuel Lomelino.
As regras são:
1
Porque acha que mereceu este prémio?
Porque alguém se lembrou de o conceder ao meu humilde local das palavras.
2
O blog que o indicou merecia o prémio blog de ouro?
Em absoluto. É um autor que humildemente mexe e remexe com as palavras e fá-lo bem.
3
Indicar este selo para 10 blogues

Sombras

Alcanço um som,
Leve, muito leve,
Não são harpas
Não são Anjos
São fantasmas descalços.
Sabem-se implicantes
Por tão antigos serem.
Vivem no sótão,
Nos medos e segredos
De quem nada sabe.
Inquietam, procuram,
Abanam,
Remexem o passado:
Matam as palavras,
As desculpas,
Os lamentos,
Os ais dos choros
Ainda vivos,
Sofridos no sangrar
Dos pulsos.
Nas sombras da noite
Onde sopra uma pitada
De luar,
Meus olhos sempre criança,
Gemem de pavor…
Nas mãos uma Cruz,
Na boca,
Um Anjo da Guarda.
O hábito veste de branco
Na luta contra o medo,
Quando partem,
Sem cuidado,
Advém a desarrumação.
Na parede,
Sem mais…
Um lembrete!
Amanhã, à mesma hora!
Cerram os suores,
Por fim, durmo.

José Luís Lopes

Tantas vezes Mãe

Se escolhem palavras bonitas
Se oferecem flores tão belas
No dia que a ti dedicam Mãe

Te oferecem coisas catitas
E se esquecem das singelas
Como o teu simples sorrir Mãe

Te publicitam a rodos
Pelas compras que te dirigem
E os enfeites que te atingem Mãe

Deviam falar-te com modos
E esquecer-se da fuligem
Que a tua idade já tem Mãe

Te compram uma viagem
Uma mala ou um vestido
Sem que a ti te mereçam Mãe

Nesta esquiva passagem
Falta-te um pouco de amor
De que às vezes me esqueço Mãe


António MR Martins

2010.05.02
DIA DA MÃE
imagem in http://ilove.terra.com.br/lili/palavrasesentimentos/dia_maes.asp, na net

sábado, 1 de maio de 2010

Amas-me?

Dorme-nos.
Com anjos.
No leito das minhas lágrimas
Cobre-te de pele
Aquece-te em mim
Encontra amor
Ateado na dor
De estar assim
Perdida nele,
Nos desarranjos.

Dorme-me.
Com asas.
Roubadas aos anjos da noite
Eleva-nos no ar
Faz-me alvorada
Diz-me a sorrir
Que não vais partir
Quero-me abraçada
Num perpétuo amar
Amas-me?
Goreti Ferreira

Um adeus maior

Uma lágrima
Me cai dos olhos
Pela tristeza que me consome

Uma perda
Num cântico triste
Em melodia inigualável

Um abraço
Na despedida
Mais interioriza tal findar

Um baixar a cabeça
E num repente a levantar
Porque aquele ser agora dorme

Um sorriso
Pela partilha
E pela amizade inesgotável

Um adeus
Eternamente profundo
Pelas memórias que me deixou ficar


António MR Martins

foto do cartaz do filme "A Melodia do Adeus", da net