quarta-feira, 11 de maio de 2011

Súbito sonhar

No tardar
Do tempo fora
Se desvanece a ideia

Entardecendo
Na demora
Do esperar pela ceia

Tão tarde
Se pôs lá fora
Construindo-se a escuridão

Tardiamente
A noite implora
Pela sua imensidão

Tardando
A resposta aflora
O que se faz prenunciar

Urge
Acordar agora
Deste prematuro sonhar

António MR Martins

Fogo Sagrado

A nossa alma fala devagar
E a palavra é tão precipitada!...
Fala-se e a dor ainda vem no ar;
Por isso é que a palavra não diz nada.

Fora a dor ninguém se pode dar,
Só por ela a palavra é orquestrada;
Forma, ideia, emoção, tudo anda a par
Nela e só dela sai eternizada.

Mas que fazemos nós? Por nós apenas
Damos tudo o que abrange o nosso olhar,
Nada visto através das nossas penas...

E é preciso que a dor, por mais singela,
Em nós viva e progrida até falar,
Ela e não nós, porque o poeta é ela!

Fausto Guedes Teixeira (1871-1940)

Noite ao rubro

No calor de cada noite
se afaga o rosto quente,
como quem dá um açoite
numa listagem pendente.

Acalmia do nocturno
envolve eloquências,
alvo olhar taciturno
altera as saliências.

Há um gesto de carinho
que medeia as intenções,
do calor vindo do vinho.

Um brinde pelas sensações
orienta o caminho
e empolga os corações.

António MR Martins

terça-feira, 10 de maio de 2011

SONETO DO TRABALHO

Das prensas  dos martelos  das bigornas
das foices  dos arados  das charruas
das alfaias  dos cascos e das dornas
é que nasce a canção que anda nas ruas.

Um povo não é livre em águas mornas
não se abre a liberdade com gazuas
à força do teu braço é que transformas
as fábricas e as terras que são tuas.

Abre os olhos e vê. Sê vigilante
a reacção não passará diante
do teu punho fechado contra o medo.

Levanta-te meu Povo. Não é tarde.
Agora é que o mar canta é que o sol arde
pois quando o povo acorda é sempre cedo.

Ary dos Santos

A poesia é a bandeira

Em cada verso escrito
se toma uma leitura,
em cada teor proscrito
se alivia a ditadura.

Um verso em cada frente
por cada rude batalha,
onde a poesia presente
muitos tanto atrapalha.

A palavra é sentido
do gesto à igualdade
pelo seu pronto prurido.

Carril da fraternidade
pelo clamor escondido
que leva à liberdade.

António MR Martins

Os Amantes de Novembro

Ruas e ruas dos amantes
Sem um quarto para o amor
Amantes são sempre extravagantes
E ao frio também faz calor

Pobres amantes escorraçados
Dum tempo sem amor nenhum
Coitados tão engalfinhados
Que sendo dois parecem um

De pé imóveis transportados
Como uma estátua erguida num
Jardim votado ao abandono
De amor juncado e de outono.

Alexandre O'Neill

in "No Reino da Dinamarca"

Fruta de tantas épocas

No fruto tanto esplendor
se degusta no paladar,
na magia intenso sabor
ressoa o verbo amar.

Há então suco contido
no gostoso interior,
onde se está perdido
por entre tamanho calor.

Na polpa não se ampara
a vitamina dormente
que de si manifestara.

Num preparo eminente,
onde gente consolara
seu sentido resistente.


António MR Martins

segunda-feira, 9 de maio de 2011

CONTRASTE

Vem sobre mim tugindo às ameaças
Da Barra o temporal que é uma peste!
E nem galho há de secular cipreste
Que em sua rijidez lhe louve as graças.

A planície varrida encrespa a estio:
Dá ermos líbicos, evoca areais!
Desgrenhados, de bruços para o Rio,
Agitam-se os sanguíneos salgueirais.

No longe alguém que fala; um ou outro ralha.
(O alto falar do povo é como um gume,
As vozes lembram pontas de navalha).

Ala-se o vento; agride ramo em ramo.
Só eu, criança de brincar com o lume,
Sofro por ti, e mais te quero, e amo.

Afonso Duarte

Dedilhando

No caule de uma flor
a mão que a empertiga;
onde um gesto de amor
adorna como espiga.

Aroma dos seus encantos
se envolve consonância
e aviltam tantos cantos
inspirados na fragrância.

E nesse dedilhar solto,
da mão que tanto acolhe
se esconde mar revolto.

Que em todos dedos tolhe
num manipular envolto
e tanto amor recolhe.


António MR Martins

COMO UMA FLOR VERMELHA


À sua passagem a noite é vermelha,
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Memórias de afectos

No rugido do esplendor
se enobrece o carinho,
desfraldando tanto amor
em abraços de mansinho.

Tocam as vias perfeitas
pelos enredos sensuais,
na memória das receitas
entre doces conventuais.

Nos anais da história
se retiram as ilações
dos afectos saliência.

Ecoam gritos vitória
extenuadas seduções,
paixões em envolvência.

António MR Martins

domingo, 8 de maio de 2011

.tenho paixão.


.conheço. "a cabra cega dos corações miseráveis" de ana c. sei que em algum lugar escondo essa tristeza. não é "uma tristeza difícil" é a "tristeza de saudade" que clarice escrevia. todos os lugares me doem por serem esses. queria eu que fossem outros. mais distantes. que em certos sonhos me visitam. posso dizer pagú que vou contigo. porque também “eu quero ir bem alto, bem alto... é que do outro lado do muro tem uma coisa que eu quero espiar”.quero encontrar outros lugares. estes não me servem. tão longos são os dias. tão curtas noites me dão. que desassossego. trago comigo a gritar no peito esta certeza. "falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão" não é clarice? sorris. também era teu. também. o desconforto de ter um coração tão grande e tão doente. mas "não meu bem, não adianta bancar o distante lá vem o amor nos dilacerar de novo".caio.

à minha amiga patrícia lino

esse génio.

mar.

(Margarete da Silva)

Efeitos da sedução

Sentem teus olhos o pairar
dum leve traço desejo,
que o caminho ultimar
no descortinar do beijo.

As meninas sendo deles
ruborizam o momento
e fazem lembrar por eles
todo um contentamento.

As nuances prevaricam,
eloquências do sentir
onde se geram carícias.

Gestos então se arriscam
perante sedutor sorrir
no despertar das delícias.

António MR Martins

sábado, 7 de maio de 2011

Apresentação do livro "Águas de Ternura", em Aveiro, no Hotel Moliceiro, dia 6 de Maio de 2011, pelas 21H30.

A apresentação do livro de poesia "Águas de Ternura", em Aveiro, ocorreu a 6 de Maio num local pelo qual tenho imenso apreço e considero apelativo para estes eventos, o Hotel Moliceiro.
Há a registar o agradecimento contínuo à Drª. Cristina Durães, directora do Hotel Moliceiro, que sabe proporcionar amáveis recepções para quem anda nestas lides da promoção da sua palavra, sempre em difíceis percursos.
A sessão decorreu de forma magnífica, ante a empatia geral de quem se disponibilizou a estar presente, perdendo um pouco do seu tempo livre.
A escritora Isabel Rosete fez uma apresentação minuciosa da obra, sempre envolvida num calor da palavra e de toda a sua força.
À editora Temas Originais, pela pessoa do seu gerente Pedro Baptista, o também poeta Xavier Zarco, o meu agradecimento pelo regular acompanhamento. A sua presença foi uma mais-valia para a sessão. Isabel Rosete e Xavier Zarco foram autênticos focos de aprendizagem viva para todos os presentes.
Depois a minha palavra de gratidão para todos quantos se predispuseram a ler alguns poemas do "Águas de Ternura".
Finalmente as palavras dedicadas a quem adquiriu o livro, com o respectivo autógrafo.
Foi mais uma sessão que levarei, para o meu sempre, em minhas memórias.
A minha gratidão!...



A mesa de honra.
Da esquerda para a direita: A escritora Isabel Rosete, que apresentou obra e autor, o autor António MR Martins e Pedro Baptista, ou o poeta Xavier Zarco, como se pretenda, pela editora Temas Originais.


Um aspecto da plateia.


Isabel Rosete faz a sua apresentação e, como lhe é peculiar, fá-lo deambulando pela sala.


Desta feita, Isabel Rosete lê um poema do livro "Águas de Ternura".


António MR Martins no uso da palavra, perante a atenção dos restantes membros da mesa.


A poetisa Vanda Paz lê um texto da obra.


É a vez do poeta Xavier Zarco.


Mais um dos presentes que se disponibilizou a ler um poema da obra em apresentação.


Sérgio Azeredo lê "Águas de Ternura".


A ocasião dos autógrafos.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Gasto

Olhei o espelho.
Nenhuma admiração, estou velho.
Reparei nos cabelos brancos ou nos outros que caem,
por entre os dedos, enquanto me lamento.
Ainda ontem tinha menos um dia.
Hoje sinto-me acabado, gasto e preso
numa corrente de equívocos que não sei decifrar.
Passo os dedos pela face.
Descubro a agrura da pele seca e da barba por fazer.
Desleixo ou simplesmente medo pelo amanhã?
Gastei-me de tanto me ver.
Virei a face.
Responde-me espelho, estarei velho?

Gonçalo Lobo Pinheiro