sexta-feira, 27 de maio de 2011

Apresentação do meu novo livro de poesia "Águas de Ternura", em Ansião, dia 12 de Junho, pelas 16 horas


O Presidente da Câmara Municipal de Ansião, Rui Alexandre Novo e Rocha, o
autor, António MR Martins, e a Temas Originais têm o prazer de
o convidar a estar presente na sessão de apresentação do livro “Águas de
Ternura
”, no âmbito da 15.ª Feira do Livro, a ter lugar no Centro de
Negócios de Ansião, sito no Parque Empresarial do Camporês, Chão de Couce,
Ansião, no próximo dia 12 de Junho, pelas 16:00. Obra e autor serão apresentados
pela Dr.ª Teresa Leonor Falcão Ramos e esta sessão contará com um momento
musical a cargo do maestro António Simões.


[a cada momento]


a cada momento
nos furtamos às palavras
que se protegem no tempo,

os dias completamente abertos
diante de nós,

e os pés ajustando-se
ao caminho de volta

Prisca Agustoni

Escrever na tela

No pincel da doçura
pela tinta que espreme
se enreda uma bela tela

Nos guaches coloridos
ou nos óleos da perfeição
se saboreia a roupagem

No pastel incorporado
ou na china que é tinta
se envolvem os condimentos

Nas colagens mais propícias
e nos cortes que as rodeiam
se enfeitam as virtudes

Nas aguarelas espontâneas
e no contexto do papel
se deliciam os resultados

Nos horizontes perdidos
nos vales rios e montes
se envolve a inspiração

Há sempre um olhar diferente
um postal que sempre inspira
um novo pensamento da mente
um motivo onde se suspira

Há sempre um sentir profundo
um quadro de todo o desejo
um mártir assaz moribundo
uma imagem de sensual beijo

Há sempre o retrato da guerra
o covil da mais rude miséria
o abraço que envolve a terra
o delinear de tanta matéria

Há sempre tanta informação
o retrato para todo o sempre
o rigor ou ténue imaginação
o dar à luz de qualquer ventre

Há a pintura perfeita
a tela que é desfeita
o trabalho que se rejeita
e tanta mente tão estreita

Mas na tela que perdura
fica o registo que corta
de uma batalha tão dura
ou de uma natureza morta

Poeta eu escrevo palavras
neste ou naquele contexto
e tu que pintas tu lavras
em cada tela o maior texto

E quando em jeito comum
sílaba e pincelada são sintonia
elevam sua força a dois em um
se concretiza a mais-valia

António MR Martins

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Camões


Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar co'o sacrílego gigante;

Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.

Ludíbrio, como tu, da Sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.

Modelo meu tu és, mas... oh, tristeza!...
Se te imito nos transes da Ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.

Manuel Maria Barbosa du Bocage

Sempre do mesmo


Restam as palmilhas suadas
de tantos percursos trilhados,
pelas gentes entusiasmadas
entre seus sonhos apagados.

Tanta mente inconformada
sem resposta deste efeito,
que vai sofrendo na calada
não encontrando outro jeito.

O tempo assim vai morrendo
sem recurso noutra imagem,
por aquelas que se vão vendo.

E continua a vil pilhagem
dos que discursam ofendendo
pela sua regular mensagem.

António MR Martins

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Inscrição


Quem se deleita em tornar minha vida impossível
por todos os lados?
Certamente estás rindo de longe,
ó encoberto adversário!

Mas a minha paciência é mais firme
que todas as sanhas da sorte:
mais longa que a vida, mais clara
que a luz no horizonte.

Passeio no gume de estradas tão graves
que afligem o próprio inimigo.
A mim, que me importam espécies de instantes,
se existo infinita?

Cecília Meireles, in 'Retrato Natural'

Fados e guitarradas


Nas cordas dessa guitarra
trinam melodias do fado,
junto a vozes com garra
na portuguesa tocado.

Em acordes nas suas notas
por entre baixos e altos,
nos graves das tuas botas
e agudos sobressaltos.

São gemidos da coerência
musicados com robustez
na maior eloquência.

Pelos versos de sensatez
e fadistas de saliência
se sente o fado de vez.

António MR Martins

António Paiva, escritor e amigo, lança seu novo livro no próximo dia 28 de Maio, pelas 16H30, na LEYA BARATA, em Lisboa (Av. de Roma)


O autor, António Paiva, e a Temas Originais têm o prazer de
o convidar a estar presente na sessão de lançamento do livro “À Conversa
Com Alves Redol
” a ter lugar na Livraria LeYa na Barata, sita na
Avenida de Roma, 11-A, em Lisboa, no próximo dia 28 de Maio, pelas 16:30. Obra e
autor serão apresentados pela escritora Cristina Carvalho.

FADO

Música triste
desenganado
canto nocturno
a pouco e pouco
vai penetrando
meu coração

Nocturna prece
ou pesadelo
não sei que sombra
aquele canto
em mim deixou.

Febre ou cansaço?
Não sei! Nem quero.
lúgubre pranto
de roucas vozes
não tem beleza
- só emoção.

É como um eco
de noites mortas
de vidas gastas
ao deus dará.

Mas eu o recebo
dentro de mim.
Entendo. Choro.
Eu o recebo
Como um irmão.

Adolfo Casais Monteiro

Rio


Do rio correm as águas
que me vão lavar o pranto...
limpando as velhas mágoas
e aumentando seu manto!...

António MR Martins

terça-feira, 17 de maio de 2011

inferno

na suave asa do grito reflecte-se o lume
comestível do tempo - a mão transformada
em polvo sacode a erva seca no sangue
da manhã

eis o mundo feérico das feridas incuráveis
o inferno
mesmo quando dormes gemes abandonado
ao estertor da chuva na vidraça e ao vento
que dança na persiana

não saberás nunca da tua metamorfose
em pantera aérea - vou proibir que te passeies
por cima dos sentimentos e dos móveis

e que te vingues
do hábil sedutor de feras

Al Berto, in livro "Horto de Incêndio", página 20, edições Assírio & Alvim

Degraus da vida

Na escadaria da vida
há um degrau bem direito,
desde a nossa partida
e sempre ao nosso jeito.

Vendo o degrau quebrado
tem de se ter mais cuidado,
no outro arredondado
escorregar é um dado.

Há outro mais inclinado
ainda outro desfeito,
um pisar precipitado
pode roubar um direito.

Tanto degrau tem a vida
de diferentes feitios,
que tem de ser decidida
nos seus múltiplos desafios.

Degraus às vezes difíceis
em qualquer sua subida,
mas não sendo mais fáceis
no momento da descida.

Nos obstáculos da vida
os degraus têm seus preceitos,
subir ou descê-los melhor
é ao que somos sujeitos.


António MR Martins

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Soneto do amigo

Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...


Vinicius de Moraes

impossível retorno

no ínfimo toque da flor
o murchar em simulacro da raiz
pelo caule do porvir adormecido
onde cada folha polvilha o impasse
por cada certeira razão

ao rubro no devorar de cada mar
a imperfeição de cada conquista
pelo tempo comum a cada vida
onde os amantes acontecem
por cada persistente demora

a derrota será um destino
do caminhar simples a sós
onde morarão os abrigos
dos gestos que apertam
a obscura seiva de cada desenlace
sem retorno calculado


António MR Martins

domingo, 15 de maio de 2011

Trova do vento que passa

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio — é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre