sexta-feira, 17 de junho de 2011

Sublime extracto de amor


No sólido fulgor da ventura
onde os ânimos revoltam,
o espaço arde e perdura
entre os pruridos que se soltam.

A água aveluda o fogo
perante névoas de ar preso,
sobram as estrelas a quem rogo
só, estático e indefeso.

Na noite atento ao cintilar
das chamas algo adormecidas
afiro as ondas do teu louvor.

De esguelha luziu o teu pulsar
e se queimam as tuas feridas
renascendo celso tanto amor.


António MR Martins

imagem da net

terça-feira, 14 de junho de 2011

Poema da Memória


Havia no meu tempo um rio chamado Tejo
que se estendia ao Sol na linha do horizonte.
Ia de ponta a ponta, e aos seus olhos parecia
exactamente um espelho
porque, do que sabia,
só um espelho com isso se parecia.

De joelhos no banco, o busto inteiriçado,
só tinha olhos para o rio distante,
os olhos do animal embalsamado
mas vivo
na vítrea fixidez dos olhos penetrantes.
Diria o rio que havia no seu tempo
um recorte quadrado, ao longe, na linha do horizonte,
onde dois grandes olhos,
grandes e ávidos, fixos e pasmados,
o fitavam sem tréguas nem cansaço.
Eram dois olhos grandes,
olhos de bicho atento
que espera apenas por amor de esperar.

E por que não galgar sobre os telhados,
os telhados vermelhos
das casas baixas com varandas verdes
e nas varandas verdes, sardinheiras?
Ai se fosse o da história que voava
com asas grandes, grandes, flutuantes,
e poisava onde bem lhe apetecia,
e espreitava pelos vidros das janelas
das casas baixas com varandas verdes!
Ai que bom seria!
Espreitar não, que é feio,
mas ir até ao longe e tocar nele,
e nele ver os seus olhos repetidos,
grandes e húmidos, vorazes e inocentes.
Como seria bom!

Descaem-se-me as pálpebras e, com isso,
(tão simples isso)
não há olhos, nem rio, nem varandas, nem nada.


António Gedeão

Livro perfeito

Há a página aberta
no livro da perfeição;
é leitura descoberta
com grande satisfação.

Noutra página incerta
nos traz à leitura rigor;
anseio que tal desperta
ao menos atento leitor.

Seu conteúdo envolve
a mensagem majestosa
e a palavra manobra.

A mente assim dissolve
a poesia deliciosa
do conteúdo da obra.

António MR Martins

imagem na net

QUALQUER MÚSICA


Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!

Qualquer música - guitarra,
Viola, harmónio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...

Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!


Fernando Pessoa

in livro "Poesias" (Obras Completas de Fernando Pessoa), página 220, Edições Ática

palestra

o sonolência opera
no escutar da palavra vã.

tudo cheira a repetição
na podre atmosfera
do desespero.

não há discurso
que acate
este clima de negligência.

tudo soa a imperfeição
neste sonegar constante.

António MR Martins

imagem na net

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Apresentação do livro "Águas de Ternura", em Ansião, no Auditório do Centro de Negócios, 12 de Junho de 2011


A mesa de honra.
Da esquerda para a direita: - Drª. Teresa Ramos, directora da Biblioteca Municipal de Ansião, que apresentou a obra, Drª. Célia Freire, Vereadora do Pelouro da Cultura do Município de Ansião, moderadora da sessão e que fez a apresentação do autor e o poeta António MR Martins.


O poeta Luís Ferreira lê um poema de "Águas de Ternura".


A escritora Manuela Fonseca, também, lê um poema da obra em apresentação.


É a vez da escritora Maria de Fátima Gouveia.


Os membros da mesa atentos ao desenrolar do momento musical desta sessão.


António Simões musicou um poema do anterior livro do autor, "Foz Sentida", e interpretou-o nesta sessão. Foram emocionantes momentos.


Ocasião para António MR Martins fazer uso da palavra.


Nos momentos finais, o habitual autógrafo.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Apresentação do meu novo livro de poesia "Águas de Ternura", em Ansião, dia 12 de Junho, pelas 16 horas


O Presidente da Câmara Municipal de Ansião, Rui Alexandre Novo e Rocha, o
autor, António MR Martins, e a Temas Originais têm o prazer de
o convidar a estar presente na sessão de apresentação do livro “Águas de
Ternura
”, no âmbito da 15.ª Feira do Livro, a ter lugar no Centro de
Negócios de Ansião, sito no Parque Empresarial do Camporês, Chão de Couce,
Ansião, no próximo dia 12 de Junho, pelas 16:00. Obra e autor serão apresentados
pela Dr.ª Teresa Leonor Falcão Ramos e esta sessão contará com um momento
musical a cargo do maestro António Simões.


[a cada momento]


a cada momento
nos furtamos às palavras
que se protegem no tempo,

os dias completamente abertos
diante de nós,

e os pés ajustando-se
ao caminho de volta

Prisca Agustoni

Escrever na tela

No pincel da doçura
pela tinta que espreme
se enreda uma bela tela

Nos guaches coloridos
ou nos óleos da perfeição
se saboreia a roupagem

No pastel incorporado
ou na china que é tinta
se envolvem os condimentos

Nas colagens mais propícias
e nos cortes que as rodeiam
se enfeitam as virtudes

Nas aguarelas espontâneas
e no contexto do papel
se deliciam os resultados

Nos horizontes perdidos
nos vales rios e montes
se envolve a inspiração

Há sempre um olhar diferente
um postal que sempre inspira
um novo pensamento da mente
um motivo onde se suspira

Há sempre um sentir profundo
um quadro de todo o desejo
um mártir assaz moribundo
uma imagem de sensual beijo

Há sempre o retrato da guerra
o covil da mais rude miséria
o abraço que envolve a terra
o delinear de tanta matéria

Há sempre tanta informação
o retrato para todo o sempre
o rigor ou ténue imaginação
o dar à luz de qualquer ventre

Há a pintura perfeita
a tela que é desfeita
o trabalho que se rejeita
e tanta mente tão estreita

Mas na tela que perdura
fica o registo que corta
de uma batalha tão dura
ou de uma natureza morta

Poeta eu escrevo palavras
neste ou naquele contexto
e tu que pintas tu lavras
em cada tela o maior texto

E quando em jeito comum
sílaba e pincelada são sintonia
elevam sua força a dois em um
se concretiza a mais-valia

António MR Martins

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Camões


Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar co'o sacrílego gigante;

Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.

Ludíbrio, como tu, da Sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.

Modelo meu tu és, mas... oh, tristeza!...
Se te imito nos transes da Ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.

Manuel Maria Barbosa du Bocage

Sempre do mesmo


Restam as palmilhas suadas
de tantos percursos trilhados,
pelas gentes entusiasmadas
entre seus sonhos apagados.

Tanta mente inconformada
sem resposta deste efeito,
que vai sofrendo na calada
não encontrando outro jeito.

O tempo assim vai morrendo
sem recurso noutra imagem,
por aquelas que se vão vendo.

E continua a vil pilhagem
dos que discursam ofendendo
pela sua regular mensagem.

António MR Martins

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Inscrição


Quem se deleita em tornar minha vida impossível
por todos os lados?
Certamente estás rindo de longe,
ó encoberto adversário!

Mas a minha paciência é mais firme
que todas as sanhas da sorte:
mais longa que a vida, mais clara
que a luz no horizonte.

Passeio no gume de estradas tão graves
que afligem o próprio inimigo.
A mim, que me importam espécies de instantes,
se existo infinita?

Cecília Meireles, in 'Retrato Natural'

Fados e guitarradas


Nas cordas dessa guitarra
trinam melodias do fado,
junto a vozes com garra
na portuguesa tocado.

Em acordes nas suas notas
por entre baixos e altos,
nos graves das tuas botas
e agudos sobressaltos.

São gemidos da coerência
musicados com robustez
na maior eloquência.

Pelos versos de sensatez
e fadistas de saliência
se sente o fado de vez.

António MR Martins

António Paiva, escritor e amigo, lança seu novo livro no próximo dia 28 de Maio, pelas 16H30, na LEYA BARATA, em Lisboa (Av. de Roma)


O autor, António Paiva, e a Temas Originais têm o prazer de
o convidar a estar presente na sessão de lançamento do livro “À Conversa
Com Alves Redol
” a ter lugar na Livraria LeYa na Barata, sita na
Avenida de Roma, 11-A, em Lisboa, no próximo dia 28 de Maio, pelas 16:30. Obra e
autor serão apresentados pela escritora Cristina Carvalho.