quarta-feira, 20 de julho de 2011

Frente a frente


Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco!


Eugénio de Andrade

Relevâncias


Há um ventre que não cala
na voz do segredar,
entre montanhas dispersas
e uma solidão constante,
onde se afundam as mágoas.

Há um ventre que não sofre
a essência do descobrir,
entre as náuseas da cólera,
pelo toque que o despreza
nos vestígios da saudade.

Há um ventre que se recente
das efémeras investidas,
tão próximas da negação,
no amparo das ilusões
onde correm muitas águas.

Há um ventre que abala
pelo porto da omissão,
trucidado de discordâncias,
no mar do rio sangue
entre o castigo da sua pele.

Há um ventre de uma estrofe
num poema dito de amor,
carente das infracções
da sedução no tempo ausente,
enfeitado de tantas estrelas.

Há um ventre sol nascente
ao rubro no corpo que é dele,
que na calada das noites
e na esquina onde se dá,
exultando, abraça a lua.


António MR Martins

imagem da net

Cabelos Brancos


Cobrem-me as fontes já cabelos brancos,
Não vou a festas. E não vou, não vou.
Vou para a aldeia, com os meus tamancos,
Cuidar das hortas. E não vou, não vou.

Cabelos brancos, vá, sejamos francos,
Minha inocência quando os encontrou
Era um mistério vê-los: Tive espantos
Quando os achei, menino, em meu avô.

Nem caiu neve, nem vieram gelos:
Com a estranheza ingénua da mudança,
Castanhos remirava os meus cabelos;

E, atento à cor, sem ter outra lembrança,
Ruços cabelos me doía vê-los ...
E fiquei sempre triste de criança.

Afonso Duarte, in "Ossadas"

terça-feira, 19 de julho de 2011

No respirar da poesia


Sonho poesia vendo o mar
e no observar as estrelas,
vejo poesia pelo olhar
que às mãos vão entretê-las.

Despertam alvos os sentidos
perante acidez e o mel,
os valores são espremidos
entre a tela e o pincel.

Com as palavras se preenchem
tantas singelas folhas brancas,
que com a poesia consentem
fazer as mais belas heranças.

Pelas árvores pelos rios
pelas casas pelos caminhos
pelos locais bem mais sombrios
e pelas vinhas e seus vinhos.

Pelo céu por todas as flores
pelos castelos e ameias
pelas paixões pelos amores
pelo criar novas ideias.

Por tudo o que nos rodeia
pelo cismar das velhas mentes
pelo rubor que incendeia
pelas melodias dolentes.

Pela verdade e beleza
pelo início de cada fim
pela bondade e riqueza
pelas palavras que vem de mim.

Há um sentido tão presente
em cada verso que alinho
nesta poesia que se sente
e me fornece o caminho.

Vendo o rio eu já a sonho
olhando o céu a invento,
sentindo a terra exponho
na fonte corre o alimento.

Pelo sorrir nela inspiro
da dor de que me não queixo,
pelo apertar dum suspiro
é poesia que aqui deixo.


António MR Martins

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segunda-feira, 18 de julho de 2011

percepção


custava-me aprender
que meu pai pudesse
ter visto um dia,
uma onda do mar quebrar...

- pois quebra sim moleque,

vivia comigo a ralhar!

e então quando a chuva
vinha - didaticamente -
apontava-me os pingos
que caiam lentamente
do telhado...

- vê moleque, o choro de deus
rolando pelas faces do ar?


Edilson José

Aliança sobrenatural


Nos descaminhos da vida
onde pálida cor rosa
interfere-se perdida
no ensaio da prosa.

Se encobre na nuvem ar
em gasosos esperança,
pela pressa do céu galgar
como bem-aventurança.

Velha haste fiel rasto
pungente na memória,
conteúdo livro vasto.

No desencadear glória
entre humilde repasto,
definida dedicatória.


António MR Martins

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domingo, 17 de julho de 2011

Meus pensamentos são nómadas


Meus pensamentos são nómadas
e vagarosos

como a água que vem da montanha
e não sabe nada

do coração dos homens.
O meu, por exemplo,
tem a leveza do vento

e corre para casa como se fosse
um cão que precede
os passos do dono.


Casimiro de Brito

Se a pança não fosse do Sancho nem a mancha do Quixote


Os moinhos que são aragem
são toureiros que enfeitamos,
surge Dulcineia em miragem
e por Quixote não passamos.

Ante a proeminente pança
de alguém com nome de rei,
os amantes ficam em dança
o tumulto é tanto nem sei.

Quixote confunde a musa
com outra de carne e osso
e Basílio não sente graça.

É excêntrico ou abusa
na batalha com o colosso
nada mais que uma trapaça.


António MR Martins

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sábado, 16 de julho de 2011

Cântico Negro


"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!


José Régio

A verdade virá à tona

E nesta inquietude mundana
onde se muram desconfianças
no atropelo às margens,
ante os dissabores estabelecidos
por incúria dos maldizentes
que tanto sabem atrapalhar.
Nada se ramifica no seu auge,
nem os projectos se concretizam,
perante as indefinições tão retratistas
das múltiplas evidências sustidas.

Existe uma plataforma do engano
onde não se filtram atitudes,
nem se meditam suas causas,
para que se consiga obter tudo
ou quase tudo, sem nada mais.

Restam os restos tão restantes…
onde a verdade ainda existe
e anseia pela demora
que a traga ao seu breve reconhecer.


António MR Martins

sexta-feira, 15 de julho de 2011

ARTE POÉTICA



Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.

Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.

Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.

E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?


Manuel António Pina

A vila na nostalgia nocturna


Os candeeiros acesos
Acalmam o anoitecer da vila
As ruas desertificam-se

O silêncio é ainda mais intenso
Ouve-se a tosse dos sentidos
E o rosnar dum cão que pára à minha porta

Dá-se o regresso ao local de partida
Na jorna de cada dia repetida
No hoje amanhã e depois

Os locais continuam ilesos
Numa casa grita um miúdo reguila
E os jantares intensificam-se

À vila volta o bom senso
No comum dos sensos perdidos
De uma terra que fica morta

De quando em vez uma alma perdida
Procura a sua habitual saída
Para o caminho dos seus lençóis

Amanhã um novo dia começa
Retorna a agitação paralela
Construindo assim a peça
Que faz esta vila ser bela


António MR Martins

foto por ASimões, Ansião, 16 de Agosto de 2008.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A cada ciclo da lua


Deste sangue que me escorre da alma,
desta dor que se enlaça à carne,
provocando-a,
devorando-a…
Fica um segmento de vida
pendurado num tempo que jamais retorna.


Palpita-me que o pensamento fugiu
à vontade de ficar.
Que as cordas
que tocam a voz aposentaram-se
cansadas de gemidos silenciosos
e de gritos que se recolheram
à chegada da dor.


Para que não deixe o corpo morrer
injecto-me de palavras
que me enchem o peito de ar
e brilho nos olhos.
Só o oxigénio de um poema me faz renascer.
Só o chão feito de roldanas aguçadas
faz mover as frases compostas de esperança,
não esmorecendo o sorriso.


Por vezes também vens, atenuando-me a dor
ao embriagar-me os sentidos.


Vou rasgando devagar o tempo.
Vou alimentando aos poucos
o futuro que já se adivinhou,
tentando me convencer que o sol vai lá estar,
mesmo em céu encoberto e frio.


Cego-me sempre,
ao nascerem-me lágrimas rosadas, a cada ciclo da lua.

Vanda Paz

Correntes de amor


Sorriem as fontes da vida
pela água que delas corre,
entre a palavra perdida
e o vazio que ali morre.

Cerram candeias acesas
o fim de tanto alumiar,
amontoando incertezas
que provocam o encadear.

Lenço tingido pelas águas
que saudade intensifica
nas fontes que vão secando.

Se desvanece entre mágoas
e no sentir solidifica
os amores que vai deixando.


António MR Martins

imagem da net.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A TERRA DO NUNCA


Se eu fosse para a terra do nunca,
teria tudo o que quisesse numa cama de nada:

os sonhos que ninguém teve quando
o sol se punha de manhã;

a rapariga que cantava num canteiro
de flores vivas;

a água que sabia a vinho na boca
de todos os bêbedos.

Iria de bicicleta sem ter de pedalar,
numa estrada de nuvens.

E quando chegasse ao céu, pisaria
as estrelas caídas num chão de nebulosas.

A terra do nunca é onde nunca
chegaria se eu fosse para a terra do nunca.

E é por isso que a apanho do chão,
e a meto em sacos de terra do nunca.

Um dia, quando alguém me pedir a terra do nunca,
despejarei todos os sacos à sua porta.

E a rapariga que cantava sairá da terra
com um canteiro de flores vivas.

E os bêbedos encherão os copos
com água que sabia a vinho.

Na terra do nunca, com sol a pôr-se
quando nasce o dia.


Nuno Júdice

in livro "As coisas mais simples", 2ª. edição, páginas 23 e 24, Publicações Dom Quixote.