sábado, 30 de julho de 2011

pátio da prosperidade


escrevo poemas fugindo, como tu,
deste engano vazio e hábil que te faz chorar.
faltou-me gritar o silêncio triste da tua ausência,
nas horas gastas na lentidão da noite.
lancei o meu corpo, sombreado no chão,
ao lado daquela parede inacabada do pátio da prosperidade.

Gonçalo Lobo Pinheiro

Simplesmente sei de ti


Sei de ti neste caminho
pelo cheiro que vem do ar,
passando nele sozinho
te trago a acompanhar.

Sei de ti a tanta hora
que me passa nesta vida,
entre noite e aurora
te amo minha querida.

Sei de ti e te escrevo
pela frescura da manhã
ou na soleira da tarde.

Sei de ti e me atrevo
em sentir-te por talismã
sem disso fazer alarde.

 
António MR Martins

imagem da net

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Sem Corpo Nenhum


Sem corpo nenhum,
como te hei de amar?
— Minha alma, minha alma,
tu mesma escolheste
esse doce mal!

Sem palavra alguma,
como o hei de saber?
— Minha alma, minha alma,
tu mesma desejas
o que não se vê!

Nenhuma esperança
me dás, nem te dou:
— Minha alma, minha alma,
eis toda a conquista
do mais longo amor!

Cecília Meireles, in 'Poemas (1942-1959)'

Meu chão


Um chão
que se não pega aos sapatos
onde o silêncio esquecido
mora a cada instante.

Um chão
moldado a um espaço
onde se remendam
os trilhos por demais pisados.

Um chão
que me sustenta o apoio
onde me é permitido poisar
as raízes do meu tempo.

Um chão
sobrado que é da gente
com tantas memórias
de que não pode falar.

Um chão
espreitando o futuro
que anseia a passagem
dos pés dos vindouros.

Um chão
que é este sendo meu
onde circulo ou vou em frente
e me é impossível voltar atrás.


António MR Martins

imagem da net

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Mesa dos Sonhos


Ao lado do homem vou crescendo

Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas

Ao lado do homem vou crescendo

E defendo-me da morte povoando
De novos sonhos a vida

Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'

Aos homens de tanta coragem


Nas marés da inocência
Onde se atalham as redes
E os homens são destemidos
Há um travo a saudade
Que se deixa em cada praia
Na partida para o mar

Em cada noite menina
Com chuva ou lua cheia
Nas ondas de tanta coragem
Se unem seus braços lestos
Que a manhã traz a ressaca
No pecúlio das suas margens

Os esperam suas mulheres
E as viúvas de tantos outros
Num auxílio necessitado
No reencontro da vida
Onde sobrevivem memórias
E as vestes negras perdidas

Restam as caixas do fresco peixe
Que os mercados tanto anseiam
Onde tantos ganham mais
Do tão pouco que lhes fica
E em cada mesa distante
Se tempera tanta façanha

Noutro dia noutras vidas
Nos mares do desempenho
Os pescadores neles retornam
Regressando em cada maré
Às areias que os acolhem
Muitas vezes em menor número


António MR Martins

imagem da net in http://salvador-nautico.blogspot.com/2010/02/faina.html

terça-feira, 26 de julho de 2011

Resistir


Dobrar na boca o frio da espora
Calcar o passo sobre lume
Abrir o pão a golpes de machado
Soltar pelo flanco os cavalos do espanto
Fazer do corpo um barco e navegar a pedra
Regressar devagar ao corpo morno
Beber um outro vinho pisado por um astro

Possuir o fogo ruivo sob a própria casa
numa chama de flechas ao redor.


Joaquim Pessoa, in "Paiol de Pólen"

apatía

la roca deletrean
las sílabas del sonido perdido
antes de que la hierba y los silbidos
que germinan en sus bermas

una extremidad latente
libere de todas las raíces
si es inquieto
en el origen de cada oscuridad

sin embargo
se estabilice
en el serenidad del amanecer

consiguiente
a la soledad de la noche

en la tierra donde habita
se vuelve para ser deletreo nato
donde no es inútil la palabra


António MR Martins

Versão espanhola de "Indiferenças"

domingo, 24 de julho de 2011

[recordo]


recordo
a minha mãe estende a roupa e canta

canta uma cantiga
que me soa a uma espécie
de hino à alegria

mas não o de beethoven
que agora desfralda a bandeira
da tal união

não essa
ode na die freude
escrito pelo schiller

aquela canção
que a minha mãe cantava
era de outra sorte

trazia consigo o sol preso
à sua voz

mesmo que só o vento
afagasse a roupa
que estendia

que estende
agora mesmo
no despertar da minha memória

vinha de um lugar
onde as palavras eram ditas
por gestos

um aceno
um sorriso
um aperto de mão
um abraço

palavras
que poema algum soube guardar


Xavier Zarco

quimera


tanta cegueira
em busca da coisa amada
tantas horas
fizeram as amarras da perdição

trilhos sinuosos no prurido da ventania
das mãos abertas
ouço a voz

o crepúsculo nos corta o âmago
nos erectos pêlos da consistência
o teatro de quase todas as vidas
esconde-se a cada anoitecer

mais triste não é o cego mas quem não quer ver
no tormento de tantas insónias

o adormecer anseia
que a bruma não disperse
o sentir de cada sonho

no alcance de cada infinito

as queixas dominam
a insensatez de cada acordar aflito
no crepitar de cada lume

sulcam-se estreitos
onde a prisão de todas as vozes
tonteia
e a quimera de cada incêndio
estabelece o queimar do nosso interior mais profundo


António MR Martins

imagem da net

sábado, 23 de julho de 2011

joão da calada


guardas no ventre
pão para a minha fome
vinho para a minha sede

que este é o destino
de quem nasceu aqui
não cruzou oceanos
à aventura de outros futuros

não partimos
mas lutamos para regressar
todos os dias
mar

desafiamos
ondas e correntes
sobreviventes que somos
desta arte de te amar


António José Cravo

foto de joão da calada, da autoria de António José Cravo

indiferenças


a pedra soletra
as sílabas do som perdido
perante ervas e silvas
que germinam em suas bermas

uma extremidade latente
liberta de todas as raízes
se inquieta
na origem de cada anoitecer

porém
estabiliza
na acalmia da alvorada

consequente
à solidão da noite

no solo em que habita
renasce o soletrar
onde a sonora palavra não é vã


António MR Martins

imagem na net

sexta-feira, 22 de julho de 2011

VELHA CHÁCARA


A casa era por aqui...
Onde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.

Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinqüenta anos.)
Tantos que a morte levou!
(E a vida... nos desenganos...)

A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa...

- Mas o menino ainda existe.


Manuel Bandeira

Salpicos de fragrâncias com aromas de amizade



Dedicado a todas as amigas (e amigos)
e a uma amiga especial



Sento-me na pedra do horizonte
e oiço o encaminhar da tua voz
Amiga

Vislumbro o céu sentindo o mar
nos cheiros da terra e do ar da montanha
Amiga

Escuto os sons da natureza
que nos acolhe no esplendor da existência
Amiga

Sinto o inebriar carinhoso
do alfazema em que me aconchego
Amiga

Há uma sintonia sem paralelo
em tudo o que nos rodeia
Amiga

Sinto esse olhar que ora não vejo
e o pronuncio de felicidade que irradia
Amiga

Oiço tuas palavras que vêm do longe
mas que eu capto em meros segundos
Amiga

Sinto o profundo abraço que me sustém
e a alquimia que dele resplandece
Amiga

Depois vem o teu sorriso lindo
onde ultimo o descanso da pura amizade
Amiga

António MR Martins

imagem na net

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Frente a frente


Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco!


Eugénio de Andrade