quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O mar de tantos (des)encantos



E o mar não tinha braços
nem ondulação hostil,
entre as vértebras do descanso,
num amainar assaz profundo.

Acariciava as rochas,
que pendiam das escarpadas,
por entre o sorridente raiar
da luz do sol que despontava.

E nas grutas das memórias
então ele se espraiava
numa sensualidade suprema
e no aconchego da sua paz.

Esse mar também bravio
que ultimou tanto destino
onde feneceram existências,
tem por ora a plena virtude
de meigamente se encostar
à doce orla que o acolhe.

E o voo das aves festeja-o
numa alegria sem limites.


António MR Martins

imagem da net (dreamstime.com)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Desinferno II


Caísse a montanha e do oiro o brilho
O meigo jardim abolisse a flor
A mãe desmoesse as carnes do filho
Por botão de vídeo se fizesse amor

O livro morresse, a obra parasse
Soasse a granizo o que era alegria
A porta do ar se calafetasse
Que eu de amor apenas ressuscitaria

Luiza Neto Jorge, in “Poesia”

Natal pode ser quando um homem quiser, às vezes nunca


Noite radiosa de Natal
alpendre de pura magia,
entre abraço sem ter igual
a um ser que muito sofria.

Noite de especial carinho
de afago ou de presente,
apego de fé num santinho
numa visita a doente.

Brilha o céu bem estrelado
se não chover por essa hora,
um coração despedaçado…

Clamor de um desalinhado
que às vezes perde e chora
ao sentir-se injustiçado.


António MR Martins

imagem da net

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Voz Que Escuta




Chamam-me lá em baixo.
São as coisas que não puderam decorar-me:
As que ficaram a mirar-me longamente
E não acreditaram;
As que sem coração, no relâmpago do grito,
Não puderam colher-me.
Chamam-me lá em baixo,
Quase ao nível do mar, quase à beira do mar,
Onde a multidão formiga
Sem saber nadar.
Chamam-me lá em baixo
Onde tudo é vigoroso e opaco pelo dia adiante
E transparente e desgraçado e vil
Quando a noite vem, criança distraída,
Que debilmente apaga os traços brancos
Deste quadro negro - a Vida.
Chamam-me lá em baixo:
Voz de coisas, voz de luta.
É uma voz que estala e mansamente cala
E me escuta.

Políbio Gomes dos Santos

À porta da esperança ou simples utopia

À porta da transição
Onde o acordo compete
E o diálogo só vale
No sentido da razão
Se entenderam conceitos
E se deu valorização
A toda a nobreza humana
Como esteio da concertação

À porta da redescoberta
Onde nada mais se ensaia
Se entra com prontidão
Desde que a intenção não moleste
A grandeza da sedução
Na apoteose do carinho
E de outra congeminação
Entre o amor que a todos reste

À porta de elevação
Não se tramam mais atitudes
Em recreios de malvadez
Que fomentem o descrédito
Denegrindo semelhantes
Em tantas vicissitudes
Depauperadas nos tempos
Que tingiram tantas imagens

À porta que nos desperta
Começa um mundo novo
Onde nos espera a alegria
Numa intensa melodia
Fortalecendo o âmago
De tanta mente caída
Pelo superar das dificuldades
Com perseverança e magia


António MR Martins

imagem da net.

domingo, 11 de setembro de 2011

enclausurado


revelei-me precipitado.
a porta estava aberta ao mistério do coração.
amontoei os pedaços do meu corpo, vazio,
junto com o silêncio da noite.
senti-me enclausurado, perdido,
evocando na escuridão a tua boca.
nela quero morrer enquanto o vento leva os versos do poema.


Gonçalo Lobo Pinheiro

Quietude final

O momento é de silêncio
Na estrada do sem fim
Onde o desagrado ultima
A consternação emergente
Do sentido já morto
E sem memória retida

O atalho já não serve
Para uma utilização certa
De um destino aproximado
No tempo que não demora
Na exaustão de cada hora
E da mensagem proscrita

A nuvem já não existe
No desfiladeiro estrelar
E na insónia da paisagem
Esquecida no lamento
Onde despontou a vileza
De toda a consumação

Os clamores terminaram
Na pressão permitida
Que restaura ambiguidade
E desfere imposições
Sem sentido profícuo
E valor sensorial

O sentir já não mora
No contexto da vida
Ou de qualquer existência
Então nada mais fenece
E outra origem prevalece
Numa morte permitida


António MR Martins

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

MI CORAZÓN Y LA GUERRA


Si acaso un día me buscas,
te esperaré en crepúsculos de tarde.
No me hallarás en guerras
ni en fríos soportales.
Porque mi corazón no se detiene
en amargos pantanales,
él vive y se baña
en lunas y azules soles,
vuela como paloma
en campos y verdes valles,
le da a la flor sonrisa
y a la gaviota mares.
Que la vida y el amor no pare,
que en mi casa entre luz y aire,
alejarme de la crueldad quiero,
reniego de las maldades.
Mi puerta sólo está abierta
a poesia, sol y aire,
a los labios de un amante,
a su beso...
y al amor de ese instante.


Angie Ibarra, de Barcelona

reintegração especial


em cerimónia tão cáustica
onde as luzes foram ribalta
não se enquadram reboliços

não há espera que amanheça
nem paradeiro simulado
entre as desventuras da sorte
que aprofundam sentenças
retidas e conservadas

os foguetes se dissipam
nos céus da concepção
onde nascerá a luz plena

um parecer magnânimo
resulta de toda a terra
lavrada pela virtude
como semente revolta
que incorpora todo o sentido

um flash é a promessa
que destempera o desânimo
e logo atraca no esplendor


António MR Martins

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Das Quatro Estações - O Outono


Novembro apagou nas buganvílias
seus nomes brancos, roxos, escarlates.

É mais difícil regressar a casa:
o caminho disfarçou, emudeceu
seu rosto nos muros e nas grades.

— Por onde seguiremos
sem que o outono espesso nos trespasse?

José Bento

In "Um Sossegado Silêncio", Porto, Edições Asa, 2002

Quem pode manda e quem manda pode


Encurralados no efeito
e no espaço circundante,
se encaram pelo defeito
em sentido alienante.

Negam expedir quaisquer sons
pelas bocas da sua presença,
por eles não sobressaem dons
nem aguardam por sentença.

Ninguém ousa assim opinar
pela decisão ultimada,
sem direito a reclamação.

O desfecho é de esperar
pela solução encontrada
e espera a revogação.


António MR Martins

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Os amantes sem dinheiro



Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

Eugénio de Andrade

No desabrigo da infelicidade


No rasgo da memória sofrida
uma ténue recordação
onde se abriga o desejo

Não se sentem os sentidos
de quem se encontra perdido
sem fuga aparente
das normas da consumação
e dos atritos sequenciais

A visão turva
encadeia cada horizonte
que a vista já atropela

Não se respiram os balidos
nos gemidos do corpo parido
que logo fica doente
perante tanta constatação
sem recurso a rituais

A bala anda à solta
no desencontro do seu destino
que mais profundo se torna

O sol jamais se alcança
nesta felicidade
por demais escorregadia

O homem
esse não dorme
mas também não sobrevive
a tanto rude golpe
que lhe penitenciam a morte
como simples tormento


António MR Martins

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

[o céu é aquela clareira]


o céu é aquela clareira
onde deito os olhos com ténues
cambiantes de cor que quase
gasto nas mãos, e como. como
o céu e aguardo uma
digestão convulsa. enquanto
o aguaceiro seca na terra antes que o
possa beber e deus se
vinga de mim ditando
os versos que escondem
a água ao mundo. já as
fogueiras florindo em volta,
murchando o dia que me
persegue. uma intervenção
divina para me resistir

valter hugo mãe
estou escondido na cor amarga do fim da tarde

Onde o amor não existe



Traz a esperança na esporta
não lhe espoliem tantos sonhos,
perder um tanto jamais importa
na espera de tempos risonhos.

Pura utopia nos alentos
onde drena a ansiedade
e sem assomar outros proventos
que afaguem a felicidade.

Tanto bate a água na pedra
em ritmada precisão cíclica,
como o apupar sarcástico.

Então o pecúlio já não medra
nesta viagem tão fatídica,
omitindo o termo mágico.


António MR Martins

imagem da net