terça-feira, 18 de outubro de 2011

Humildade


Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.


Cora Coralina

Vereda dos lamentos


Soa um grito
Lacuna da imperfeição
Por entre os malefícios

Pomo da discórdia
De qualquer geração
Em todas as situações

Eis a contradição
Retrato incongruente
Da regeneração da subtileza

Soa a palavra
Sonora a preceito
Nos vales de todos os silêncios

Aperto vital
No cântico da vida
Nos meandros de qualquer destino

Eis a maldição
Esperada e ansiada
Entre as paredes das vivências

Soa o último lamento
Onde definha a voz
Do simples consentimento

Até quando


António MR Martins

imagem da net

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Pedra Filosofal


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

António Gedeão

Rotundas da omissão



À volta de círculos moldados
que encerram tantas lamúrias,
onde os factos são consumados
e nunca passam das penúrias.

Circulando nos mesmos percursos
que se empalam por tantas voltas,
flagelam-se sórdidos discursos
e se aguardam pelas revoltas.

Fundamentos de circunstância,
ou de mera coincidência,
nos iludem pelo mesmo jeito.

Nas rotundas da redundância,
onde omitem por conivência,
tudo passa tendo um defeito.


António MR Martins

imagem da net.

domingo, 2 de outubro de 2011

Trago a tua dor dentro do meu peito


Trago a tua imagem
no meu horizonte,
negra,
triste.

Trago a tua voz
dentro de mim,
trémula,
silenciosa.

Trago a tua lágrima
nos meus olhos,
que cai,
como um pedaço de alma.

Mas é no peito que trago a tua dor,
porque é no meu peito que te guardo.


Vanda Paz

in livro "Dedos Acesos", página 31, edições AL - Atelier de Letras

Sublime extracto de amor

No sólido fulgor da ventura
onde os ânimos revoltam,
o espaço arde e perdura
entre os pruridos que se soltam.

A água aveluda o fogo
perante névoas de ar preso,
sobram as estrelas a quem rogo
só, estático e indefeso.

Na noite atento ao cintilar
das chamas algo adormecidas
afiro as ondas do teu louvor.

De esguelha luziu o teu pulsar
e se queimam as tuas feridas
renascendo celso tanto amor.


António MR Martins

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

RECEITA


Quando se quer morrer,
basta apenas matar-se,
pode ser num hotel,
pode ser num rio,
pode ser com veneno,
pode ser com um tiro,

ou pode ser assim aos poucos

como faço eu em meu suicídio
de todos os dias,
a cada minuto, a cada hora,
um pouco de cada vez,

mas é sempre preciso
começar a morrer
matando primeiro
os sonhos:

depois a morte virá
sem que se perceba.


Álvaro Alves de Faria

in livro "Três Sentimentos em Idanha e Outros Poemas Portugueses", página 86, edições Temas Originais

Poema em P


Podem prender
Publicamente
Pessoas pobres
Pedintes
Poetas pensadores
Penitentes perdedores
Plagiadores

Podem prender
Passivamente
Participantes
Palermas perdidos
Pecadores poluídos
Pendentes prometidos
Perseguidores

Podem prender
Paralelamente
Por propostas pracianos
Patifarias propinas
Péssimas polémicas
Povo pela plena poeira
Palradores
Podem prender
Plenamente
Penhoras perfeitas
Práticas percalços
Paz polvilhada
Pelo pavor paleio prepotente
Penhores

Podem
Pedem
Pensam
Pintam

Políticos podem prender

Pelo país por prometer
Pelas pantanas por perceber
Pelos pomposos protocolos
Pálidas pontes pistas pólos
Pragas potentes poluentes
Pilhando pistolas para pacientes


António MR Martins

imagem da net

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Louca sabedoria


Louca sabedoria
incrementada pela voz
desse dom
que é saber comunicar

saber viver melhor
sem a dor de andar perdido

louca sabedoria!

Saber olhar o nosso sentir
saber tocar nesse desejo entranhado
com um afável sorriso
e no gesto sucumbir à tentação

louca sabedoria
de saber galantear cada dia.


Paulo Afonso Ramos

traço do recomeço


qual cavalo de água
ou de tróia na palavra
onde os segredos permanecem
quietos na sua inquietude

qual eclodir inesperado
onde o silêncio se corta
e emergem as intenções
guardadas em cada imo

o gesto é o recomeço
a cada nova jornada


António MR Martins

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domingo, 25 de setembro de 2011

Amar-te em silêncio




Deixa-me amar-te assim... em silêncio...
Não me peças palavras que não sei pronunciar, nem gestos que nunca fiz. Não sei tanto do que queria e quero tanto do que não sei.
Olhas-me e perco o norte. Fico muda e desvio o olhar. Não é por não te amar, mas sim por esse amor ser grande demais. Mas em silêncio...
Seria tão fácil dizer que te amo e perder-te. Seria tão simples dançar ao som da ilusão e entregar-me completa, plácida, serena, e acrescentar apenas as letras que faltam quando não digo “Amo-te”!
Não me peças para ser o que não sou, nem para me transformar subitamente em mulher, porque sou apenas menina.
Queria crescer nos teus braços fortes e esconder-me atrás do teu tronco másculo. Mas abraço-te... em silêncio.
Desejo o suave toque acetinado dos teus lábios nos meus e imagino como será um beijo de verdade. Anseio por ele e sonho-o.. em silêncio.
Aproveito-me do que tenho de melhor e sonho... Nos meus sonhos eu sou tua e tu... Tu, meu amor, pertences-me! Todos os dias nos amamos intensamente e somos apenas um do outro! Todos os segundos das minhas noites são aproveitados ao máximo e vividos energicamente, ardentemente, gloriosamente...
Chega a manhã e a realidade!
Não me peças palavras que não sei dizer e deixa-me! Deixa-me amar-te assim... em silêncio...


Vera Sousa Silva

foto da autora, by Lua de Marfim

entre o destino e a sorte



a cada relinchar do cavalo perdido
o eco na montanha adormecida

e as árvores escutam o som
do caminhar sorrateiro das nuvens
entre as palavras perdidas
do verso por inventar
e que o tempo não ousa encontrar

há um canto amargurado
na ida e volta
por entre os trilhos da desventura

e a efémera sorte
não é para quem a procura
mas para quem a tem por desígnio


António MR Martins

imagem da net

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

FRAGMENTOS DE MIM - CEPTICISMO


Travo um diálogo com a vida,
e fico num cepticismo,
porque se nego as verdades,
estou cometendo ilogismo.
E num dificil colóquio,
entre o céu e este inferno,
tento ser medianeira
de tanta contradição.
Ouço a voz do absurdo,
vaticinando o futuro,
sem qualquer motivação.
E a alma fica gelada,
com o frio da madrugada,
lutando pela razão,
querendo acordar o tempo,
dizer que é o momento,
que é preciso renovar...
Mas é tanta a letargia,
em estado de hibernação,
onde prima a insapiência,
que vou perdendo a ilusão.


Lita Lisboa

Há caminhos por percorrer


Tonificado sentir
entre a seiva da poesia
se empolga a cada hora
desgastando sorrateiro
o sofrimento atroz
e as vestes do silêncio
onde desabam os sentidos
pela infinidade dos tempos

Apaladada sedução
de intercâmbio empolgante
se mistifica a rigor
sem vestígios contemplativos
no socalco generoso
que culmina no esplendor
entre o norte da esperança
e o sul da liberdade

Desvanecem-se preconceitos
em partículas de fulgor
traços de outros desenhos
ou empenhos figurados
na mostra do encantamento
ficcionado ou inventado
pelas ruas mutiladas
quase todas sem saída

Ressurge a perfeição
telepatia sem ter apelo
que inteira sensações
entre outros conteúdos
na espera de um abraço
ou num aperto de mão
que no gosto de outro espaço
intensifica tanto amor

Entre os filtros já rareia
o prazo da comoção
e de tantas emoções
que jamais retornam à tona
nos rios do desespero
mas revoltas essas águas
se libertam sem ter medo
exultando tanta esperança

António MR Martins

foto da net

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Belo anjo


Quando, em vias de perder a esperança
um anjo, vindo do céu, caiu a meus pés
lançou-me um feitiço, um olhar de viés
penetrou-me com sageza e perseverança


deixou cravada no meu peito a sua lança
e encharcou-me com água de mil marés
logo meu coração ganhou força de dez
e se encantou pelo seu jeito de criança


eu sei, belo anjo, qual a tua motivação
sei também que fazes tudo sem alarde
e sou o alvo desse teu afecto e fervor


se bem conheço o meu pobre coração
garanto que mais cedo ou mais tarde
por ti, belo anjo, se inundará de amor


Emanuel Lomelino