sábado, 5 de novembro de 2011

Há moscas e moscas


Salta uma mosca perdida
na magra cara de um homem
e outra voa escondida
pelo espaço onde dormem

Poisa outra numa orelha
ele se irrita de forma tosca,
franze então a sobrancelha…
ó homem estás com a mosca?!

Responde sem ter preconceitos
e diz em sentido arrogante:
- Vai-te encher mas é de moscas!

Perante tamanhos defeitos
deixaram o local errante,
ficando vazio às moscas.


António MR Martins

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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A Taça de Chá


O luar desmaiava mais ainda uma máscara caida nas esteiras bordadas. E os bambús ao vento e os crysanthemos nos jardins e as garças no tanque, gemiam com elle a advinharem-lhe o fim. Em róda tombávam-se adormecidos os idolos coloridos e os dragões alados. E a gueisha, procelana transparente como a casca de um ovo da Ibis, enrodilhou-se num labyrinto que nem os dragões dos deuses em dias de lagrymas. E os seus olhos rasgados, perolas de Nankim a desmaiar-se em agua, confundiam-se scintillantes no luzidio das procelanas.

Elle, num gesto ultimo, fechou-lhe os labios co'as pontas dos dedos, e disse a finar-se:--Chorar não é remedio; só te peço que não me atraiçoes emquanto o meu corpo fôr quente. Deitou a cabeça nas esteiras e ficou. E Ella, num grito de garça, ergueu alto os braços a pedir o Ceu para Elle, e a saltitar foi pelos jardíns a sacudir as mãos, que todos os que passavam olharam para Ella.

Pela manhã vinham os visinhos em bicos dos pés espreitar por entre os bambús, e todos viram acocorada a gueisha abanando o morto com um leque de marfim.

A estampa do pires é igual.

Almada Negreiros

Há vida entre a árvore e o papel

No papel o seio
Da vogal
E da consoante
Que incorporam
O sentido à palavra

O ínfimo veio
Da complementaridade
E do sequente texto
Que iluminará
Cada próxima leitura

O caminho perdido
Reencontra-se
Entre a árvore de pé
E uma outra caída
À espera da transformação

O rumo esquecido
No vértice da palavra
Onde o papel ascende
Ao paralelismo
Por entre um toco de madeira

Eis a centelha
De um conhecido fado
Onde se ouve a voz
No complemento do trinado
De outro derivante da árvore

Neste olhar de esguelha
Onde a palavra se revela
Algum sentido se dá à vida
Em apelos transfigurados
Até que haja uma folha papel


António MR Martins

terça-feira, 1 de novembro de 2011

OBTIVE UM PRÉMIO NO BRASIL


Obtive uma Menção Honrosa no 3º Concurso "Poetizar o Mundo" - 2011, na modalidade Minimalista, com o poema "A Árvore da Vida". Este concurso é organizado pela escritora e poeta Isabel F. Furini.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Esperança


Tantas formas revestes, e nenhuma
Me satisfaz!
Vens às vezes no amor, e quase te acredito.
Mas todo o amor é um grito
Desesperado
Que apenas ouve o eco...
Peco
Por absurdo humano:
Quero não sei que cálice profano
Cheio de um vinho herético e sagrado.

Miguel Torga

Quietude final



O momento é de silêncio
Na estrada do sem fim
Onde o desagrado ultima
A consternação emergente
Do sentido já morto
E sem memória retida

O atalho já não serve
Para uma utilização certa
De um destino aproximado
No tempo que não demora
Na exaustão de cada hora
E da mensagem proscrita

A nuvem já não existe
No desfiladeiro estrelar
E na insónia da paisagem
Esquecida no lamento
Onde despontou a vileza
De toda a consumação

Os clamores terminaram
Na pressão permitida
Que restaura ambiguidade
E desfere imposições
Sem sentido profícuo
E valor sensorial

O sentir já não mora
No contexto da vida
Ou de qualquer existência
Então nada mais fenece
E outra origem prevalece
Numa morte permitida


António MR Martins

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Coração Habitado


Aqui estão as mãos.
São os mais belos sinais da terra.
Os anjos nascem aqui:
frescos, matinais, quase de orvalho,
de coração alegre e povoado.

Ponho nelas a minha boca,
respiro o sangue, o seu rumor branco,
aqueço-as por dentro, abandonadas
nas minhas, as pequenas mãos do mundo.

Alguns pensam que são as mãos de deus
— eu sei que são as mãos de um homem,
trémulas barcaças onde a água,
a tristeza e as quatro estações
penetram, indiferentemente.

Não lhes toquem: são amor e bondade.
Mais ainda: cheiram a madressilva.
São o primeiro homem, a primeira mulher.
E amanhece.

Eugénio de Andrade

Entre o mar e a lua


Abafam-se as ondas deste mar
e os ruídos da noite escura,
brilhando nas águas o luar
por entre sedutora brandura.

Sonham-se enredos de magia
entre as palavras e os gestos,
suprem-se máculas na nostalgia
e esquecem-se tantos protestos.

Sintonizam-se pelos semblantes
num olhar de mútuo consenso,
vislumbrando doce harmonia.

Brade o mar os sons latejantes
em aromas de puro incenso
e com a lua leva a noite fria.


António MR Martins

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sábado, 29 de outubro de 2011

O interrogatório de Rosa Luxemburgo



O interrogatório
de Rosa Luxemburgo
durou apenas algumas horas. Ela sabia
tão bem como os seus carcereiros
que palavras ali já não existiam. Caída
na batalha
contra o nervo vital do Estado; banhada
em sangue
e quase sem sentidos,
Rosa,
frágil camarada,
pediu aos caçadores seus assassinos
agulha e linha. E, silenciosamente,
com uma pistola apontada à têmpora,
coseu a bainha da saia que se encontrava
descosida. Pouco depois
o cadáver
foi lançado à água.


Casimiro de Brito

Pólo da irreverência

No degrau do esquecimento
pairam os passos que estão sós,
oriundos do consentimento
e comandados ao som da voz.

Sem recurso à sua demanda
ou à revolta do madrugar,
em suspenso não se desanda
pelo seu único ultimar.

Perdidos entre tanta frente
pelo retrocesso contido
em episódios esquecidos.

Enfrentando neste presente
resolvem tanto permitido,
nunca se dando por vencidos.


António MR Martins

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Torniquete


A tômbola anda depressa,
Nem sei quando irá parar ---
Aonde, pouco me importa;
O importante é que pare...
--- A minha vida não cessa
De ser sempre a mesma porta
Eternamente a abanar...

Abriu-se agora o salão
Onde há gente a conversar.
Entrei sem hesitação ---
Somente o que se vai dar?
A meio da reunião,
Pela certa disparato,
Volvo a mim a todo o pano:

Às cambalhotas desato,
E salto sobre o piano...
--- Vai ser bonita a função!
Esfrangalho as partituras,
Quebro toda a caqueirada,
Arrebento à gargalhada,
E fujo pelo saguão...

Meses depois, as gazetas
Darão críticas completas,
Indecentes e patetas,
Da minha última obra...
E eu --- prà cama outra vez,
Curtindo febre e revés,
Tocado de Estrela e Cobra...


Mário de Sá-Carneiro

“Já não há pombas da paz”


Soltam-se as pombas bravias
com penas de múltiplas cores,
que estão da paz arredias
e propensas aos desamores.

Multiplicam-se entre jardins
e pelos espaços do mundo,
são criadas para outros fins
neste planeta moribundo.

Desencadeiam guerrilhas
e rumores sem mais sentido,
num declínio em que tudo jaz.

Lembram-nos algumas matilhas
onde nada é mais ouvido…
“Já não há mais pombas da paz!”


António MR Martins

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terça-feira, 25 de outubro de 2011

O destino do poema

É nas noites que me calo
e as palavras se sonham,
no passar do intervalo
da espera que as acolham.

É nos dias que mais escrevo
registos então sonhados,
com ternura as descrevo
em versos bem perfumados.

É no inspirar que medeia
os sons imaginários,
pelo sonhar acordado.

E nos termos trago ideia,
para os destinatários
ter poema determinado.


António MR Martins

domingo, 23 de outubro de 2011

Arte do pensamento - Poema premiado com uma Menção Honrosa no I Concurso de Poesia da Associação Cultural DRACA (Palmela) - 2011



Bramem sentidos figurados
entre a gesta de um pintor,
que pincelando alarmados
lhes restabelece fulgor.

Moldam trâmites contornos
imbuídos de coisa bela,
na argila e seus adornos
e no barro da janela.

As paisagens deslumbrantes
incendeiam inspirações,
nas retinas dos amantes
e na tela das seduções.

Tanta pedra trabalhada
com robustez e carinho,
na criação suportada
entre um trago de vinho.

Desenhado nos contextos
da mente imaginativa;
se concebem os pretextos
que fazem fluir à deriva.

Num disparo condizente
se regista um pólo raro,
deixando tudo pendente
de um próximo disparo.

Um sorriso se regista
em tanto enquadramento;
a alegria salta à vista
na conclusão do elemento.

Esculpem obras tamanhas
entre vários artefactos,
no imaginar emprenhas
o condensar desses factos.

Esmeram imensas virtudes
em dons de tantas vertentes,
ofícios de plenitudes
que às artes são referentes.

Anseiam novos objectos
em eufóricos debates,
que transformam os dejectos
em sublime elo das artes.

Outros fazem pela escrita
a arte de muito criar,
alterando a desdita
à doçura de cada olhar.

Numa festa sem limites
se empolga toda a Arte,
omitindo os arrebites
e inspirando-se em Marte.

A cultura é benfazeja
na evolução humana;
a Arte, bem vinda seja
com o que dela emana.

A melodia mais sonora
ou uma peça de teatro,
entre cinema enamora
a ópera de cada retrato.

Num poema se transcreve
o sentir e tanta magia,
que pelo que se escreve
se acerca a ventania.

Na tela de cada vida
se regista tanto quadro,
entre a escultura saída
e colocada num adro.

Há quem pinte sua sorte
ou um nu inquietante;
mas até no tema morte
a pintura é deslumbrante.

A Arte e seus valores
tanto têm de se preservar;
assim como os amores
para sempre se devem amar.

E nesta tristeza da crise
a Arte tem a alegria
e entre qualquer reprise
nos quebra a monotonia.


António MR Martins

Obtive um Prémio Literário

Obtive uma Menção Honrosa no I Concurso de Poesia da Associação Cultural Draca (Palmela) - 2011.

Uma boa notícia para alegrar, um pouco, o ânimo.

Nesta momentânea felicidade, cabe-me agradecer a quem julgou, à DRACA pela iniciativa, desejando que muitas mais possam haver e a todos os participantes em geral que fizeram elevar o valor deste prémio.

A todos os outros premiados os meus sinceros parabéns.

O meu abraço fraterno. Viva a poesia!