quarta-feira, 11 de abril de 2012

Entre a sorte e o azar


O azar bateu à porta
sem nunca ser esperado,
como a natureza morta
se limita ao passado.

O sol tapado pela noite
esfuma sua luz suprema,
da lua leva um açoite
num duo de eterno dilema.

A sorte tem desencanto
na espera de encantar,
a cada recolha do pranto
por tanta sorte ou azar.

A lua brilha pelas noites
pelos conceitos do luar,
ó sol, nunca pernoites
se o teu plano alterar.

E nesta busca do sonho
na sorte sempre a escapar,
tem-se o azar por medonho
sem nunca se querer abraçar.

Do sol ficam luz e calor
da lua brilho e magia,
que prevaleça o amor
pela sorte tão arredia.


António MR Martins

Foto de Kok Mak (Tailândia), by Gonçalo Lobo Pinheiro

terça-feira, 10 de abril de 2012

RIO


Como um rio
as minhas lágrimas
resvalaram
pelo teu peito

nu

escorreram
por entre as tuas pernas

e

desaguaram
num
mar

de

prazer.


Fátima Guimarães

Luta inabalável


Na palidez do teu ânimo
o susto pelo teu sustento,
raiz de tanto desânimo
onde não encontras alento.

Filtras tua imensa procura
pelo registo infundado,
que te causa tanta secura
cada solicitar frustrado.

Nunca te renegas à luta,
pelo suor que já cultivas
e por tudo o que abraças.

Acham-te um filho da puta,
mas fiel nunca te esquivas
e jamais baixas os braços.


António MR Martins

Guilin, na China - Foto de Gonçalo Lobo Pinheiro

sexta-feira, 6 de abril de 2012

FRÁGIL CERTEZA DO AMANHÃ


Agarra a minha mão,
transporta-me a vontade orfã no teu peito
porque eu,
eu sinto o peso insustentável da existência
na incerteza de novos amanheceres
antes refúgios de esperanças ansiadas
agora miragens nas neblinas do presente

Agarra a minha mão,
ensina-me o caminho que desenhas
nos traços das pegadas de um passado
que dá voz aos teus desejos conquistados
porque eu,
eu grito os silêncios que me invadem
na procura da palavra que me enche
na procura da certeza que me escapa

Agarra a minha mão,
ancora em ti a réstea da ideia
que ainda pulsa
debilmente
na frágil certeza de um amanhã ...


João Carlos Esteves

Desfilar da vida



Nasce um começo encanto
num anseio de continuar,
perante todo o espanto
de uma vida a desbravar.

Cresce o corpo e a mente
pelo conhecer permitido,
não há descobrir que atente
entre tanto caso perdido.

Seguindo o trilho, em frente,
por entre rasgos envelhecer
à passagem de tanto ano.

Tendo amor sempre presente
sabendo então reconhecer
que a saudade é desengano.


António MR Martins

foto de Kaunas (Lituânia), by Gonçalo Lobo Pinheiro

quinta-feira, 5 de abril de 2012

SÚPLICA À PRIMAVERA


Abre o manto Primavera
Sobre o chão que me viu nascer
Não negues ao meu coração que espera
as flores ver crescer...
Pede ao sol seu hálito ardente
Que alivie o pensamento sombrio
da sombra que sou
Me faça esquecer o tempo fugente
Que os céus ouçam o eco do meu grito vazio.
E me dê um pouco do brilho que a vida
me tirou.

Primavera que te hospedas no meu peito
Quando a oliveira já ostenta o candeio
Nas horas solitárias já sem jeito
Quando ainda aninho o amor no seio.
Estende-me os braços
Traz-me o calor do sol que fecunda a terra
Reconforta meu coração da tristeza que encerra.
Leva aos ausentes de quem lembro meus abraços.

Primavera faz sonhar quem vive
O pouco que tenho... é pouco é nada!
Traz-me a primavera que já tive
Antes que se renda o dia e eu cansada.
Volte eu a a relembrar e a pousar a vista,
esquecendo os dias de viver já gastos.
Aos anos que passam, não há quem resista!
Não voltarão os sonhos castos
que eram como uma benção ou alento,
e já se dissipam como água que corre.
Não sei se acredito ou se invento
Mas enquanto o coração não morre
sonhar será meu doce entendimento.


Natália Canais Nuno

Correm as águas dos rios


Transcorrem alegres os rios
nas águas em movimento,
entre margens em desvarios
e solos do consentimento.

Carregam as vozes do pranto
nas suas vestes cristalinas,
resguardando seu encanto
no vale de belas colinas.

Caminham tenazes correndo
para um final destinado,
até à foz do seu acolher.

Abraçam não percebendo,
em enlace doce ou salgado,
o porquê daquele receber.


António MR Martins

foto Rio Ceira, Góis, by Gonçalo Lobo Pinheiro

quarta-feira, 4 de abril de 2012

(ÉS O MEU) LIVRO ABERTO


Desfolho-te como seda
Coberta de lantejoulas
Afasto a cortina lentamente
Pedaço a pedaço
Que bom é ler-te
Entre o jardim banhado em mel
E a cascata desnudada
No horizonte da tua sombra
Aragem perfumada de canela
Com pitada de pimenta
Ler-te é cegamente
Aquilo que me alimenta
Nas entranhas do meu ser.

Jessica Neves

O último poema

há um campo
amanhado em mim
entre o silêncio
de cada palavra

terra seca
de queixumes
ora lamacenta
pelas vertidas lágrimas

há uma raiz
sobrevivente
a cada verso
criado e escrito

pelas frases
sortilégio de vidas
e pelas outras
que cantam versos novos

há uma semente
em cada chão
onde
renasce cada palavra

furor
da contenção
ou do apogeu
da liberdade

há um fruto
nascimento vida
na luz
que ilumina o caminho

num tempo
por onde permaneço
e vou registando
cada último poema

António MR Martins

terça-feira, 3 de abril de 2012

UM AMOR QUE SE FOI


Ouço o vento lá fora
A chuva teima em cair
E sozinha no meu quarto
Só me apetece dormir.
Foram dias de desespero
Noites muito mal passadas
Foram dias, foram meses
E muitas lágrimas derramadas.
Sinto falta dos teus beijos
E muito mais dos teus abraços
Sinto falta do teu cheiro
E do teu corpo molhado.
No dia em que partiste
Nunca mais voltei a amar
As janelas estão fechadas
E nunca mais vi o mar.
Se um dia voltares
Estarei aqui para te receber
Com os braços bem abertos
Para deixar de sofrer .


Carla Granja

Troquem-se às voltas ao mundo




Em cerrar de dentes
se enformam
as lutas do dia-a-dia
com a força de cada um
e a lágrima que nos sustenta
perante tanta ironia

Contra ventanias
secas e outros pruridos
metaforizados noutras receitas
dotadas de vis intenções
que nos ferem os corpos sofridos
e o pensamento aturdido
perante o surgir de tantas maleitas

E pela força persistente
discernida de qualquer jeito
batalhando vamos em frente
num sentido assaz profundo
mesmo que de forma dolente
se faça veloz a preceito
este caminhar pelo mundo
alterando o cenário vigente


António MR Martins

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A antecipação do inverno


Pressinto-te
num céu descolorido
de neblinas inquieto

pássaro perdido
sem aconchego de galho

folha amachucada
em tarde arrefecida

lábios de beijos apartados

pressinto-te
no limiar do verão
onde o frio já se demora
e a luz adormece de cansaço

dizes que é tarde
cresces para a sombra
como se fosse inverno.


Clara Maria Barata

Pela verdade

A verdade
não é são sentir…
tornando-se banal no seu teor.

O pranto
floresce negritudes inflamadas,
em vazios
sem paralelo,
de plena inquietação.

O rosto,
desencontrado da sua alma…
esquartejada,
regela os condimentos
da sobrevivência sentida.

E a verdade
jamais assentará,
como deveria,
numa textura de perfeição.


António MR Martins

sábado, 31 de março de 2012

Apresentação dos livros "Máscara da Luz", de António MR Martins e "Memória das Cidades", de Vítor Cintra, na Biblioteca Municipal de Anadia, no âmbito do I Encontro de Poesia de Anadia, em 31 de Março de 2012


Na mesa de honra:
Da esquerda para a direita: A escritora Lurdes Breda, que apresentou obra e autor de
"Memória das Cidades", o poeta Vítor Cintra, autor da obra, o Prof. Litério Augusto Marques, Presidente da Câmara Municipal de Anadia, que presidiu e apresentou a sessão,
o poeta António MR Martins, autor da obra "Máscara da Luz" e a escritora
Vanda Paz, que apresentou esta obra e seu autor. Em pé, dando início aos trabalhos,
a Drª. Sónia Almeida, directora da Biblioteca Municipal de Anadia (que acolheu esta sessão e o I Encontro de Poesia de Anadia).


Uma perspectiva da sala.


O Prof. Litério Augusto Marques, Presidente da Câmara Municipal, no uso da palavra,
apresentando a sessão.


Um dos vários momentos musicais da tarde.


A escritora Vanda Paz apresentando obra e autor de "Máscara da Luz".


Alunas de escolas locais apresentam, teatralizam e lêem dois poemas
do livro "Máscara da Luz".


A vez do autor António MR Martins falar sobre o seu livro.


A escritora Lurdes Breda apresenta obra e autor de "Memória das Cidades".


O momento em que o autor Vítor Cintra se exprime sobre o seu livro.


Mais um momento musical.


O poema "Coimbra" do livro "Memória das Cidades" é lido
e representado por alunas de escolas locais.







sexta-feira, 30 de março de 2012

Grito Negro


Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.

Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.

Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.

Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.

Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.


José Craveirinha