sexta-feira, 20 de abril de 2012

Terra Condenada

É um choro sem lágrimas
É um Sol que brilha
É um calor que não aquece
É uma Lua que inspira
É um amor que não se vê

É uma filha sem mãe
Nesta Terra condenada

 

Maria do Rosário Loures

Te dou este meu canto


Sinto os teus olhos sorrir
como se fora tua boca,
parece quererem pedir
um beijo nela em troca.

Sinto rubor no teu olhar
como se fora na face,
que me faz enamorar
sem conseguir um disfarce.

Sinto cantigas singelas
trovas de muito encanto
com letras tidas por belas.

Sinto que te quero tanto
amando sem mais balelas
que te dou este meu canto.


António MR Martins

Kok Mak (Tailândia), by Gonçalo Lobo Pinheiro

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Rosa Negra


Vestiu-se de negro a rosa
No velório da paixão
Lonjura de miragem
Que não pode alcançar.

As encostas desertas…áridas
De negrume esculpidas
Sem perfume pétalas enrugadas
Lágrimas derramadas
Nos espinhos viçosos do caule.

No dorso aguilhão cravado
Sedução sem pudor
Dança a marcha fúnebre
Há muito sem melodia ficou

Um canteiro sem terra ou água
Em dor e desamor
Desilusão sem morada
Na ilusão só por si procurada.

De véu caído no abismo
No altar da iniquidade
Assim findou
No nu da alma
De negro pintada…


Ana Coelho

Vozes silenciadas



Esgravatam os ânimos rebeldes
Indispostos pela tolerância
E para tantos outros afagos

Os fogos se desvanecem
Os pruridos se elevam
As mentes enlouquecem
E as verdades não se relevam

As melodias são confusas
E a ilusão incorporam
Entre tantas palavras difusas

Os aceiros já não dividem
As pedras esmorecem
As árvores não se agitam
As vozes não têm comando
E as vidas não têm conserto
Pelo desespero que assentam

Há um cântico amordaçado
Em tanta voz do silêncio

António MR Martins

Foto: Kaiping (China), by Gonçalo Lobo Pinheiro.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Voz Interior


(A João de Deus)

Embebido n'um sonho doloroso,
Que atravessam fantásticos clarões,
Tropeçando n'um povo de visões,
Se agita meu pensar tumultuoso...

Com um bramir de mar tempestuoso
Que até aos céus arroja os seus cachões,
Através d'uma luz de exalações,
Rodeia-me o Universo monstruoso...

Um ai sem termo, um trágico gemido
Ecoa sem cessar ao meu ouvido,
Com horrível, monótono vaivém...

Só no meu coração, que sondo e meço,
Não sei que voz, que eu mesmo desconheço,
Em segredo protesta e afirma o Bem!

Antero de Quental

Pelo 170º aniversário do seu nascimento.

Piso inerte

Calcorreado o sentido
Do firme desiderato
Nada cambiou

Apenas uma ave sorri
Com seu animado canto
Entre as folhagens da árvore

Já o desânimo se alinhou
Em pedaços de tristeza

Vêem-se as nuvens tocar o céu
Em carícias do momento
Num ensaio dos mais belos

Metamorfose da natureza
Em caprichos de outra índole
Mas valiosos em conceitos

Há um resto de nós
Em toda esta mudança


António MR Martins

terça-feira, 17 de abril de 2012

Piano enigmático


Deitas-me sobre
teu piano enigmático,
cobres-me de olhares silenciosos
sussurras-me pautas penetrantes.

Delicio o teu sabor letal
entre as notas que escoro
na rebeldia das cores
que se curvam ao fastígio
da minha avidez lasciva.

O teu olhar predador
persiste em seguir-me
e eu não resisto
desejo ser a tua presa
a mais indomável.

Desejo ardentemente
ser possuída,
algemar a minha demência à tua...

Conceição Bernardino

Ficando parti


Réstia
De um caminho
Que me esqueci de encontrar

Palco
De um tempo
Que não soube acompanhar

Asfalto
Rudimentar
Que não consigo valorizar

Terraço
De uma vida
Que parou de germinar

Paleio
De múltiplas vozes
Que não me permitem concentrar

Centro
De um inexistente mundo
Que não paro de imaginar

Olho à minha volta
Nada por descobrir
Uma voz se solta
Não a quero ouvir
Amargo a revolta
No sentido de partir


António MR Martins

Foto: Cavalos Puro Sangue Lusitano, by Gonçalo Lobo Pinheiro

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Menina das tranças loiras


Menina das tranças loiras
Que caminhas
À beira da estrada
Levando sonhos embrulhados
Em tule azul celeste
Não vês como é grande e estranha
A saudade
Que paira sobre a tua cabeça

Ora descobre o Sol…
Ora cai a Chuva…

E tu, menina das tranças loiras
Desdobras a saudade
Ao Sol
Enquanto caminhas ansiosa
Na direcção do Cais
Apesar de saberes que lá
A Chuva cai
E os sonhos não voltam

Sentada à beira do Cais
Vês o atracar de navios
Abarrotados de gente
Que vai para o lado de lá
De ti

Subitamente, o mar revolta-se
Com a audácia dos teus sonhos!

E a Chuva cessa…

Olhas para trás
E desejas correr
Em busca do momento perdido
Mas é tarde…

Ficas à beira do Cais
Olhando para os navios
Estáticos e vazios
Abres as mãos
E deixas deslizar
Por entre os dedos
A saudade inútil
Que outrora desdobraste ao Sol
Como sendo destroços
De um naufrágio
Lançados à praia…

Manuela Fonseca

Vidas a eito estragadas

Balança enfim a corrente
que orienta os sentidos,
trajando de outra vertente
e nos toma por foragidos.

Surgem múltiplas contradições
subtilezas noutros capítulos,
restando sempre as condições
para sorridentes títulos.

Sorteiam taxas sem nexo
e juros sem tempo de mora
numa cabala sem medida.

Baixam proventos em anexo
sobem impostos a toda a hora
e estragam-nos assim a vida.


António MR Martins

sexta-feira, 13 de abril de 2012

MINHA POESIA


minha poesia não foi educada
na escola de bilac
e nunca será convidada para o chá
dos imortais da academia brasileira de letras

minha poesia caminha descalça pelas ruas
do centro velho de são paulo
nenhum tradutor francês perderá seu tempo
debruçado sobre ela
não será lembrada nos saraus familiares
nem nas escolas nos dias de festas cívicas depois que a
bandeira nacional onde se lê Ordem e Progresso
for hasteada por uma menina loira

minha sai de casa
todos os dias muito cedo - da favela heliópolis
pega o ônibus lotado
desce pela porta da frente sem pagar a passagem
e vai vender balas no cruzamento da brasil com a rebouças

minha poesia é uma puta depravada
que dá por qualquer dinheiro
mas se bobear assalta e é capaz até de matar
minha poesia se alimenta do lixo das palavras
podres proibidas que não cabem na boca
das pessoas de bem e por isso deve ser execrada
de todas as antologias e condenada a trinta anos de silêncio


Júlio Saraiva

terra sofrida


terra movida
a mãos ambas
com o suor do lavrador

isso era no tempo de antanho
agora é com outro engenho
com o auxílio dum tractor

terra manhã
na destilada poeira
sobrada do amor

isso era noutros tempos
onde existiam alentos
dinamizadores de tanto fragor

terra dorida
manhã sorridente
refúgio restaurador

isso era outrora
ao romper da aurora
quando se ultimava tanta dor

terra provento
terra alimento
terra sustento

isso é desalento
ou consentimento
e muito sofrimento


António MR Martins

Pelo Casal de S. Brás, Amadora, by Ricardo Sobral.

Nas tuas Mãos


Nas tuas Mãos
corre um rio arqueado em delta maior
onde crepitam mil margens angulares
na lareira intensa dos nossos olhares

Nas tuas Mãos
cresce um tempo soletrado no silêncio
de luares profanados por esta paixão
na terra ancorada dessa tua razão

Nas tuas Mãos
soltam-se asas de anjos flutuantes
envolvidos nas voltas da madrugada
e a lua amanhece cheia de luz salgada

Nas tuas Mãos
desaguam sonhos como nascentes
fontes sedentas no ventre dos cristais
respirações etéreas como vendavais

Nas tuas Mãos
reconheço a profecia confessada
na voz do mar ao chegar
à foz do verbo aMar...


Cristina Fernandes

Foto da autora, por Vasco Ribeiro (2011).

Miragens e passagens




Vejo o exterior
da desabitada casa
onde dantes a vida permaneceu

Nas cores esbatidas
de suas paredes envelhecidas
se ramificam as tenazes do desmoronamento

Tanto tempo passou
desde a última visita a este lugar
e as memórias são as mesmas

Nada mais de sólido resta
nesta surdez que tudo envolve
perante o ruído do vento que passa

Tantas gerações
aqui depositaram seus alicerces
e inundaram este espaço de alegrias e tristezas

Vejo neste exterior mutilado
o sentido de que nada mais vale
que a coerência connosco e com os outros

E a verdade
é simplesmente o sentido de cada vida
mesmo que a mentira caminhe em paralelo

Restam as imagens
que ocupam a retina
de cada um dos seus passageiros


António MR Martins

Foto de "Lisboa, minha eterna cidade...", by Gonçalo Lobo Pinheiro

quinta-feira, 12 de abril de 2012

a um amor-maior


nada... absolutamente nada
existe para além de ti.
nem mesmo o silêncio das palavras
por dizer.

as janelas da alma fecharam-se
sem hesitar
às ânsias de incertezas permanentes.

Nas frestas das portas ainda abertas
à luz,
desenha-se o olhar da ausência.
nas arestas vivas do meu corpo
o teu doce odor colado a mim.

no fundo do sonho...
no fundo de cada sonho,
o aquático mar do teu beijo
num presságio de fúria de viver.


Alvaro Giesta