segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Raiz sentida


Não quererei lapidar
os teus sorrisos.

Longe de mim
transformar os teus olhares.

Tudo em ti
assume um valor intrínseco.

Nada mais passa
de um sentir supremo,
no representar máximo
de um simples sentimento!...

O de te amar!



António MR Martins

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O amor diz-se no silêncio



Amo em silêncio,
Quando os corpos insinuam
Gestos quentes,
Revoltosos...
Como as ondas na praia deserta
Elevando os delírios.
Amo em silêncio,
Quando as sombras se escondem,
No melancólico despertar,
Assim a minha alma suspira
Nos beijos que aquecem as manhãs.
Amo em silêncio,
Quando o abraço acalma o meu peito,
E as palmas das mãos se encontram no vazio
Velando meigas e serenas
Na calma extática que afaga o meu coração.
Amo em silêncio,
Sem palavras inteiras,
Encontrando todos os lugares perdidos,
O colo é o porto de abrigo
A brisa solta-se da enseada do teu dorso
Onde velejo sem rumo.
Amo em silêncio,
Imaginando o teu rosto,
Deslizando o meu toque cerrado
Numa entrega imperial...
Adormeço assim na nascente inerente a ti
Para escutar apenas e tão só
O doce sabor da tua voz.

Luís Ferreira

in livro "O céu também tem degraus", páginas 60 e 61, edições Esfera do Caos Editores, 2011

Alto enredo



Os lábios se descolam dos seus
De uma forma tão delirante
Os dele tornam a colar aos seus
Quando já lhes diziam adeus
Perante desejo palpitante

Assim se encostam os narizes
Entre as ondas da sofreguidão
Revigorando pelas raízes
Sonho colorido de matizes
Empolgadas pelo coração

Adiante gestos de afeição
No abraçar sem quaisquer limites
Lufadas de plena imensidão
Sem se questionar por contenção
Por onde salpicam apetites

Envoltos de alegria e dor
Apetrechos da massa humana
Exultando ao máximo valor
A que damos o nome de amor
Ante rubor que dela emana

Revolvem-se os plenos sentidos
Naquele cenário de afagos
Entre os corpos tão perdidos
Não escutando outros pruridos
Senão os seus arfares tão vagos

Culmina o sensual enredo
Perante as estrelas cadentes
Que germinam de tamanho medo
Escondido no rico vinhedo
Nos resquícios adjacentes


António MR Martins

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Presença...


Na imperfeição que me rege
Quero-te
Com a clarividência dos deuses
Com a suavidade das almas
Que sobrevoam às vezes
Estas planícies do sul

O meu vício és tu
Meu aconchego na noite
Meu alimento e jejum
Só peço a deus que pernoite
Esta presença constante
E que a certeza se afoite

A ir sempre mais longe
Num desbravar paralelo
O meu vício és tu
Que seja sempre singelo
Este aspirar igualável
Aos grandes lagos do sul
Minha firmeza imutável

Quero-te
Com este crer que elege
O teu abraço apertado
O manto que protege
O meu corpo cansado.


Antónia Ruivo


sobras de (in)conformação



sobra-me
o verso do entendimento
para discernir o poema
na fonte de inspiração

as palavras se revolvem
saltitando
como bolas em tômbola
de euromilhões ou totoloto

tanto falta e tanto sobra
sem sentido e sem rigor
entre carências e abundâncias

este poema está desgastado e amorfo
o verso já não faz sentido

a palavra
a essa deixaram de lhe dar o devido valor



António MR Martins

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Bravura


De que serve a brisa suave da noite,
Ou o cante melódico dos grilos,
Quando as madrugadas
Se tornam enormes,
...
E os dias nunca mais acabam!
Mas as memórias, essas,
Começam a crescer.

É preciso coragem!
É preciso coragem para envelhecer,
Quando a Alma
Não sabe os anos que tem,
E o corpo se cansa de viver sozinho…

É preciso coragem
Para calcorrear o Caminho,
Quando constantemente,
Se travam batalhas dentro de nós,
E mil milhões de soldados
Se digladiam a sós…
Entre a Luz,
As brumas, e o destino!

É preciso coragem
Para Caminhar sozinho,
Passo a passo…
Bem devagarinho!

José Dimas

Quando as palavras envolvem



Pelos lábios do seu encanto
se aprimoram tantos clamores
que já não elevam mais espanto
entre os efeitos sonhadores

trinam-se melodias mais raras
duma beleza inconfundível
revendo-se expressões nas caras
entre o vislumbrar invisível

como entoam outros pruridos
perante olhares consentidos
por onde enreda a perfeição

mexem-se valores e sentidos
significados dos mais batidos
que empolgam qualquer coração


António MR Martins

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

poesia



nasce o poema
desabrocha a rosa
árida a terra
mas a fonte brota
nasce o poema
a chuva lava o pó
sem poesia não chove
o rio não corre
o mar mete dó
nasce o poema
ninguém está só


António Paiva

in livro "Janela do Pensamento", pág. 46, Edições Ecopy, 2007 


pela verdade e pela honra



não se tem confiança
na trapaça
e na incoerência do ser

não se vendam ilusões
nem tampouco se comprem
as vendas das mesmas.

a coesão do íntegro
é o rigor da verticalidade

assim
se devem assumir
os verdadeiros


António MR Martins

terça-feira, 31 de julho de 2012

"As palavras não nascem nos cotovelos e as uvas também não"





Posso escrever ao poeta dos meus dias,
Aquele que me ensinou que a poesia não é pó de arroz
... Nem um ímpeto de palavras a jorrar no papel.


Aquele que me disse
Que é preciso deixar a palavra a fermentar na essência
Que leveda dentro do peito que espreita a vida.

Dizer-lhe,
Que hoje comecei a bordar o meu primeiro poema
A ponto grilhão
E que não é fácil desenredar as linhas
E lavrar no pano os enfeites que todos gostam…

A charrua que sulca a palavra, também a amordaça e fere
Quando a terra se enruga e se tenta beber o mar com os olhos,
Quando todos os barcos parecem desembocar no mesmo apeadeiro
Como se a visão de deus se soltasse das estrelas
Em versalhada de luz.

Dizer-lhe:
Agora começo a ter tempo
Para perceber que entre a chuva e o vento,
Há um equinócio a desbastar.

Tinhas razão – a omeleta não sabia a espargos –
E eu teimava que os tinha apanhado no campo,
Quando era apenas erva vulgar que me escorria dos dedos.

Obrigada! Vou esperar que as uvas amadureçam na videira
E cada bago que colher, terá o sabor da espera…
O bordado, vai levar tempo até ser colocado sobre a mesa!
Depois, cairá nele o vinho, a invadir as linhas do ponto grilhão!

Dalila Moura Baião

súbitas mudanças


Kaiping (China), by Gonçalo Lobo Pinheiro


já o largo se esvaziara
do sonho da descoberta
e da partilha das sensações

todas as imagens
permaneciam acesas
e ainda não se sentia a transformação

quando
a um dado tempo
nos situamos em nós
e sós
então descortinámos

há um vaso comunicante
entre o pleno e o vazio

António MR Martins

segunda-feira, 23 de julho de 2012

CAMINHOS VEDADOS




Repouso nesse encontro da tua inóspita fantasia
Vejo apenas sinais proibidos de caminhos vedados
Uma navegação intensa que recusa o desencalhe
Forças ditas cansaço meros ruídos agridoces.

Debruço-me no olhar exausto do sol imaginário
Nem os sons marcantes das tuas vestes pressinto
... E os diálogos são fissuras e mares inglórios
Vulcões ditadores de estados incomuns de sítio.

Nem os aparos enrouquecem na escrita d'ontem
Nem as colmeias seduzem o mel dos corpos
Nem os campos amotinam as urbes de prazer.

Exercito simples rascunhos nos confins revolvidos
Bebo a seiva das árvores na tentativa de frutar
E o poema sobe ao palco completamente desnudo.

in MOMENTOS - José Luís Outono -2012


o sopro das labaredas


Incêndio na Serra de Sintra 2007, faz parte integrante de uma reportagem que ganhou Menção Honrosa no 8º Prémio Fotojornalismo VisãoBES, by Gonçalo Lobo Pinheiro.


a árvore desfalece
pelas chamas do infortúnio
impregnadas de incontidos sopros
que o vento  lhes incute

um fervilhar constante
eclode
por entre insondáveis matas
tornando-as mais limpas
em tristes tonalidades acinzentadas
simplesmente a eito

os soldados da paz
seguram nas mangueiras
desesperadamente
expelindo delas o sagrado incolor líquido
que atenua
por momentos
tal remessa maléfica
e incontrolável

a imprudência lançou
as chamas ao campo
e o campo descompôs-se
sem apelo nem agravo


António MR Martins

domingo, 22 de julho de 2012

Maravilhado ando eu com o Amor


Maravilhado
ando eu
com o Amor

Mais do que com o Sol ou a Lua
as estrelas
o Céu
a Terra
o mar
o trovão
as aves e os aviões
que voam nos ares
e atolam a Razão

O Amor
esse
transborda o coração
e extravasa a mente

É mais do que a gente sente

A mais generosa dádiva do Criador

O prodígio maior da Criação


Henrique Pedro


Resquícios da ventura adormecida





Soam bitolas perdidas
Nos rastos da incongruência
Bandeiras do esquecimento

Ultraje compensador
Ultimando outros lavores
Na doença assaz patente
Que invade tantos corpos
Metamorfoseados no tempo

Dissabores de alimento
Onde se secam as sílabas
Em percalços de tanta dor
Por tanto assentimento

Paladares sem outro sabor
Que não sejam amargura
Nesta gesta demais sofrida
Respirando aos soluços
Numa contenção desmedida
Intragável a cada segundo
Onde a espera então suscita
O receio de tanta demora


António MR Martins

Imagem: 1º de Maio, em Macau, by Gonçalo Lobo Pinheiro.