quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Soneto de Inês

 

Dos olhos corre a água do Mondego
os cabelos parecem os choupais
Inês! Inês! Rainha sem sossego
dum rei que por amor não pode mais.

Amor imenso que também é cego
amor que torna os homens imortais.
Inês! Inês! Distância a que não chego
morta tão cedo  por viver demais.

Os teus gestos são verdes  os teus braços
são gaivotas poisadas no regaço
dum mar azul turquesa  intemporal.

As andorinhas seguem os teus passos
e tu morrendo com os olhos baços
Inês! Inês! Inês de Portugal.

José Carlos Ary dos Santos

sonhos e magia

 
Foto do espectáculo de Abertura dos Jogos Paralímpicos, Londres 2012,
by Gonçalo Lobo Pinheiro.
 
 

oiço
o estalar da caruma
pisada pelos passos teus
à chegada da lua
na sua fase companheira

sobressai o semblante
em que assentas
teu corpo
perante deslumbrante luar
que te ilumina a fronte

na noite
a plataforma do entendimento
na mistura dos sentidos
pelo cheiro
que os provoca

sorris
pertinente e sedutora
entre a magia que vem dos céus
e na aureola que é tua
numa imagem derradeira

retenho-me caminhante
no trilho me acalentas
rastreio
de um pleno brindar
ao longínquo horizonte

em ti
poderoso elemento
para um abraço contido
e um afago matreiro
para o prazer que se evoca

a caruma se desprende
a lua nos observa
o horizonte não se entende
e o luar nos reserva

sublimam-se tantos travos
o suor nos sacia
no beijo das descobertas
que nos eleva o rubor

fantasia de um sonho
na magia de uma noite

 
António MR Martins

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Versos de Cor 1

 

(sorriso)

Frio,
está frio na estrada,
...
nos pés descalços
do menino
que sorri:
um sorriso triste,
simples,
distante...

(terá vindo com a neve?)

... mas quente!

E... já não neva!...

Joaquim do Carmo

Desacertada palavra

 
João Patrício Gomes, um Templário do nosso tempo...
 
 

Há um sentido profundo
na palavra embargada
e um apelo ao mundo
com mensagem apagada

calada a voz da razão
por não a ouvirem falar
não lhe tomam mais atenção
assim tudo vai descambar

neste secreto domínio
junta-se força medonha
onde não há vaticínio

nas amarras da peçonha
se perdeu tanto fascínio
já não cora a vergonha

 
António MR Martins

terça-feira, 4 de setembro de 2012

ama-me

 
 
 

Ama-me
Traz rosas mornas em teu peito
Deixa que se moldem à minha mão
Declama o poema a que tenho direito
Provoca em meu corpo, erupção
 
Ama-me
Sem vestes, sem destino ou razão
Com o olhar, com os lábios e a pele
Porque o amor não pede explicação
Pede sim uma paixão a dois, fiel
 
Ama-me
Entre as rochas, entre as ondas e o cais
Grita comigo os búzios à praia rasgada
Desperta em nós o chilrear dos pardais
Em pétalas abertas pela madrugada
 
Ama-me
Enfeita-me com lírios puros sem pressa
Rompe o sol no pretérito mais-que-perfeito
Onde se une o puzzle numa só peça
Rumamos ao céu do nosso íntimo jeito
 
Ama-me
Pelo fogo da noite ao ventre desperta
Pelas estrelas acocoradas ao luar
No laço qu’em teu pescoço nos aperta
E em tranças ousa o coração completar
 
Ama-me
No castelo rubro da tua fantasia
Assim mesmo, despudoradamente
Onde habita só a nossa maresia
Peço-te, ama-me simplesmente!
 
 
Jessica Neves

in livro "(Sem) Papel e Caneta, (Com) Alma e Coração", páginas 52 e 53, Chiado Editora, 2012

entre vida e morte

 
A minha jovem laranjeira com a sua primeira flor e a antevisão do seu primeiro fruto... "...minha laranja, amarga e doce, meu poema..." (excerto de um belo poema de Ary dos Santos, musicado por Fernando Tordo. Umas das mais belas canções que participaram em Festivais RTP da Canção. (minha foto).
 
 

abre-se a terra
a cada passagem
das árvores quietas

destilam as poeiras
que incendeiam
as serenas chamas da secura

a terra devolve
a semente
de todos os hálitos
no conforto desalinhado
de cada chão

os movimentos
se empolgam
regurgitando novos perfumes

o cenário
restabelece as previsões
e define os desígnios
em brevíssimas precisões

de nós
a devolução à terra
que um dia
nos fez florescer

 
António MR Martins

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A SÍNTESE

 
 
 

Ando a fazer outra alma.
Refazê-la? Nem pensar!
São tantas as noites de breu,
que pouco fica de luar!

Ando a fazer-me contigo,
tu e eu mundo plural.
Alma nova?
Outra verdade?
Tu em tese?
Minha a antítese?
Os dois na síntese
a que chamam novidade,
e a que eu chamo mudança.

Perco a alma se for o não,
mas do sim sou a atitude.
Quero a alma em sonho na mão
para fazer a nova idade
da minha construção.

Filipe Antunes dos Santos

in livro "Respiração poética pelo Natal", página 32, edições Temas Originais, 2011

Apocalipse ou o mundo a quem manda

 
Foto de Gonçalo Lobo Pinheiro - Jogos Paralímpicos, Londres 2012.
 
 
Perdoem-me este sarcasmo
que espevita a celeuma
fuga a um simples marasmo
evitando um velho tema
 
desculpem-me por este sentir
envolto em nuvens escuras
filtrado de um novo partir
para além das amarguras
 
sujeitem-me pelo subjugar
entre os itens das condições
resfriando um novo olhar
além das rudes opiniões
 
agitem-me esta memória
que se agrava e declina
neste presente sem história
onde ninguém mais imagina
 
sacudam-me estas poeiras
que nos abatem na milonga
pelo corrupio de asneiras
e tantas vendas da candonga
 
balancem-me equilibrado
pela entrega especial
dum produto adulterado
com certificado mundial
 
António MR Martins


domingo, 26 de agosto de 2012

Amor da minha vida...

 
 
 
Ontem subi ao topo do mundo.
Subi e tirei uma fotografia aos outros pequenos arranha-céus que por ali abundam e também às luzinhas do chão.

Não consegui ficar lá… nela… porque isto de subir ao topo, tem destas coisas.


Mas parei, parei e sentei-me no chão, a tentar ver o caminho que me trouxe até cá…

E lembrei-me, lembrei-me que nunca te esqueço, que te vejo em todas as pequenas coisitas que olho,
Lembrei-me dos meses seguidos que dormiste ao meu colo,
Das nossas brincadeiras malucas,
Das nossas viagens,
Das nossas Disneys, óperas e bailados,
Dos nossos fins-de-semana a ver filmes e a comer pizzas…

Lembrei-me do teu sorriso aberto e fácil,
Das tuas gargalhadas apaixonantes, irresistíveis…
Das tuas outras gargalhadas, só nossas, quando te como a barriga pelas manhãs…

Lembrei-me dos teus passos enquanto danças pelo ar,
Dos raios de felicidade, oriundos do teu olhar, sorriso e alma,
E que nos atingem como dardos certeiros…

Lembrei-me dos nossos chapinares horas a fio na água salgada…
Lembrei-me do teu amor infinito, sem fronteiras…

Como eu era feliz... como eu o era sem saber caramba…

Obrigado.
Obrigado por teres feito de mim uma pessoa melhor.
Obrigado por fazeres com que eu tente ser uma pessoa melhor.


E agora vou continuar por aí,
Por esse mundo imenso,
“vergado”por esse teu amor que carrego,
Por esse amor puro que me ensinaste e ofereces a cada micro-segundo que sou…

Vou continuar porque
Ainda temos um mundo por descobrir… e um milhão de aventuras por colorir…
(por um "Desconhecido" que não quer ser conhecido...
para a filha que traz no coração)

e que eu como mãe resolvi partilhar porque sei o que é amar assim incondicionalmente... porque também o meu é o amor da minha vida... porque ele também faz de mim uma pessoa melhor...
dedico-o a todos os pais... todos os filhos... todos os que amam incondicionalmente.


Isabel Reis

Alcofa de tantas virtudes



Acolhe-me no teu regaço
sustento da minha energia
reserva-me o teu espaço
preâmbulo de fantasia

rosário de lindas flores
de fragrâncias celestiais
cesteiro de múltiplas cores
que jamais se verão iguais

magia simples então nasceu
num humilde berço divinal
onde foi eleito o plebeu

foram condimentos dalgum sal
onde um prato enriqueceu
um amor singelo e real

 

António MR Martins

Assim Nasce Um Poema

 
 
 
No sangue
entranha-se um poema
Percorre as veias do sentimento
Solta plaquetas de amor
partilhadas no coração sofredor
Pequenas moléculas elevam-se
no cérebro já esquecido
no tempo perdido
da vida que passou

Mas,
nesse sangue que corre
e percorre
o corpo já findo
As palavras já fracas
fluem
soltam-se
E,
nasce um poema!


Maria Antonieta Oliveira

Evidente tristeza

 
Aviário de Hong Kong, by Gonçalo Lobo Pinheiro.
 
Contrastando com o poema uma imagem da perfeita regulamentação da natureza, num belo episódio.
 
 

Entornado
O desencanto
No aprumo
Do movimento

Desse mantimento
Não janto
Por maior que seja
O sofrimento

Rastejam
As maldições
Na réstia da gula
Sofrida em volta da mesa

Dificultando
As digestões
Do alimento
Da firmeza

Não há volta a dar

Os próximos tempos são de tristeza

 

António MR Martins

sábado, 25 de agosto de 2012

Regresso

 
 
 
Deslizo nos caminhos de então
e vejo os mesmos céus tremendos
minha alma plena de remendos
cabe inteira na tua solidão

De tanto andar me torno terra
De tanto me perder me reinvento
arma e pedra
pó e tormento

De tanto te amar me guardo nos teus olhos
prata e luz em que se espelham
cinzentos
os dias desta mágoa em que me afundo

Edgardo Xavier

Terras perdidas no tempo

 
Carvalhal-Miúdo, freguesia e concelho de Góis. Uma aldeia perdida no tempo, vazia do calor humano e dos consequentes campos amanhados. Um lugar especial para quem usufruiu da sua observação, do calcorrear dos seus trilhos e da profundeza da paisagem que a rodeia e alinha. Um pedaço de sentimentos que não tem medida. O gostar-se tanto que chega a parecer tão pouco. O querer permanecer e, simultaneamente, fugir. Um gostar que dói, demais!...
 
 
Lugar de fetos e silvados
Estes saudosos campos
Onde descansa
O clamor de tanta vivência
 
Terra outrora abraçada
Pelo anseio
De se receber o epílogo
Das sementes em si lançadas
 
Nestes campos                                                
Num tempo remoto
Verdejantes
Onde nas horas perdidas
Subsistiu tanta esperança
 
Imagem esquecida
No contraste dum tempo
De uma beleza sentida
Ante o esfumar
De tanta bravura
 
António MR Martins

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

ANTI-MANIFESTO

 
 
 
Quando tudo parece no fim
e alguém se levanta

mesmo que seja
num simples gesto

a dizer não
a dizer basta

cortam-lhe as mãos
cortam-lhe a garganta
 
 
Joaquim Alves