sábado, 3 de novembro de 2012

Deixa-me ler-te à luz da vela

 

No deserto do tempo impune
Arranquei labaredas dos teus olhos
Sem saber se as algas
Que me salgavam o rosto
Tinham o mesmo sabor frio
Das mazelas que pintei no teu corpo

Quem me dera poder apagá-las
Num simples traço a carvão
Sucumbindo em seguida
Sob os braços da Mendiga Romana

Talvez o lamaçal d’ escuridão
Que carrego nesta pena incondicional
Partisse com o clarão de luz
Que atravessa esta cela de barro

Deixa-me ler-te à luz da vela
Quando o dia se acabar



Conceição Bernardino

finados antes de tempo

 
Bodies: The Exhibition, by Gonçalo Lobo Pinheiro.
 

fervem
inquietudes soberanas
a bombordo
do bote do desgaste evidente

entre mares
de sofrimento
e outros traumas inquietantes

fervem
os atilhos inconsequentes
pelas manobras
de um inseguro leme

entre ondas de desespero
que fervilham náuseas
na indisposição das mentes
e nos prantos das medusas

fervem
notícias de podridão
com metáteses mecânicas
secadoras de almas

entre o sonegar
das horrendas intenções
que nos trazem perdidos
perante
a procura do verdadeiro caminho

fervem-nos
sequem-nos
filtrem-nos
apertem-nos
molestem-nos
finem-nos

 
António MR Martins

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

DE FELIZ E DE LOUCO... O POETA TEM UM POUCO

 

Tão pouco me arrisquei para sentir
(Enquanto for de si simples sonhar,
Ao louco tem a lei brando julgar),
Portanto me atrevi só em sorrir...

Da arte quis a essência de ser só
Autora dos meus próprios sentimentos,
D'amar-te fiz a história dos momentos -
Embora de céus breves, ébrio pó.

Ainda assim, pupila da alegria
Serei, enquanto em versos me escrever
E d'alma me entregar à fantasia.

Ainda em mim cintila este querer
Sem lei, canto ou meças de estesia,
Só bálsamo em trégua de viver...

Teresa Teixeira

Poema ao qual foi atribuído o 1º. prémio no I Concurso de Poesia da Associação Cultural Draca, 2011, in livro "Da serena idade das coisas", página 13, edições Temas Originais, 2012 (O prémio foi a edição de um livro, este ora referido).

A árvore da vida

 


ao tronco me encosto
na sombra efémera
desguarnecida no tempo

aqui arrecado
os prantos que são da vida
encerrando-os em minhas gavetas

aqui alinhavo
dissertares e percursos vindouros
esperançosos

aqui embalo palavras
agitando-as depois
e retirando-as  de seguida
do pensamento
uma a uma

nestes ramos
se penduram sentidos
do simples descanso
do voo de tantas aves

é nesta árvore
onde o meu momentâneo lar
de memórias
acontece

António MR Martins

sábado, 20 de outubro de 2012

NA BIBLIOTECA

 
foto de Alfredo Cunha, in Jornal de Notícias online
 
O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.


Na biblioteca, em cada livro,
em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.


Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
‘E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.’



Manuel António Pina

(homenagem ao grande poeta falecido ontem, com 68 anos - 18-11-1943 a 19-10-2012)

Refrescar da alma

 


Intervalo os meus receios
onde escondo um sorriso
estabelecendo os meios
para tudo o que preciso

me inundas de fragrâncias
sensibilidade sem apelo
pelas leves ondulâncias
que enfeitam o teu cabelo

o teu aroma benfazejo
me envolve em novas rotas
entre tanto e mais desejo

se esquecem tantas derrotas
quando me dás outro beijo
e alegre me amarrotas

 

António MR Martins

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

[A vertigem das rosas que enfeitam o abraço]

 
 
A vertigem das rosas que enfeitiçam o abraço,
lembrando que o jardim se acende no peito,
em aromas de fogo e gotas de árvore,
que lançam lágrimas de desejo,
no lugar onde estremecem as folhas.

E fervem pétalas na boca das flores,
onde os rouxinóis enfeitam o voo.

Dalila Moura Baião

Rapsódias da natureza e da vida

 


Caminham as mãos dadas
num acolhimento perfeito
entre o sopro do falante vento
que lhes seca o pendente suor
e os salpicos solares
que embrenhados nas redondezas
aquecem aquele uno caminhar

a erva se entende ao redor
e o suspiros das flores
aguardam a chegada das borboletas
mas são as abelhas
que as afagam e polonizam
num ritmado e contínuo labor

e as mãos ficam esquecidas
pela inquietude da mente
soletrando carícias
por entre os corpos deitados
na erva vencida pelos movimentos
enquanto o soberbo canto das aves
apregoa mensagens de amor

 

António MR Martins

domingo, 7 de outubro de 2012

TRAJECTO

 

Chorei
lágrimas que não brotaram
nos olhos recuaram
e na alma caíram
a alma me afogaram
e aos olhos subiram...



Rogério do Carmo

Invento-te pelas palavras

 
Foto tirada na Quinta do Penedo Alto (Cernache - Coimbra).
 


São as grades do teu coração
que me aprisionam o ser
e nessa vasta imensidão
se percorre o acontecer

sem limites deito o olhar
numa infinita mensagem
pelas palavras de encantar
que entre tudo interagem

soltam as raízes dispersas
no desenvolver do alento
duma qualquer flor às avessas

sonho-te como um portento
e não te suplico por meças
nos versos em que te invento

 

António MR Martins

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O Poema Original

 
 
Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.
 

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

Ary dos Santos


se perde mais uma lágrima


desnudei-me das palavras
permitidas
sem consenso

limitei-me a este ser
e ao que ele está apenso
logo penso

que as marcas da angústia
da tristeza
da audácia
e da incerteza
têm sabor imenso

que as réstias da esperança
no labor
no viver
no amor
e no sobreviver
me deixam suspenso

que vil destino nos prepararam
de que infortúnio nos dotaram
e como nos simplificaram
continuo tenso

por fim resta-me a lágrima
sem mais querer imaginar
para a limpar
do bolso retiro o lenço

e desfraldo-o
ao vento
num adeus intenso

 
António MR Martins

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A morte

 
 

 
A morte é sossego
A morte é Paz!
Porque choramos os mortos
Se a morte é ausência de dor
para quem sofre
A morte existe para acabar
com o sofrimento
com a solidão
com o cansaço que a vida
.................. provocou!

Ana Casanova

definitivo (re)encontro

 
"Domingo", foto de Gonçalo Lobo Pinheiro
 


parto
lentamente
sem para trás olhar

oculto-me
na suja vidraça
suspensa numa velha parede

parto
sem um elaborado destino
meio intencionado
no retomar da viagem

os sons poderão diferenciar-se
e os registos confundirem-se
nesta premente fuga
ansiada por quase todos os mortais

assim parto
para um outro lugar
uma outra paragem

essa é a radical sentença

ofuscarei
de vez
todas as miragens

buscarei o reencontro
com a tua presença

para sempre

 

António MR Martins

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A Mulher Mais Bonita do Mundo

 

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luís Peixoto