quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Secura ilimitada

 
Palawan (Filipinas), foto de Gonçalo Lobo Pinheiro.
 

Foi vertido o líquido incolor no copo da sofreguidão, onde a sequiosa razão da subsistência não envereda pelas sedes da loucura e transmite o receio de cada voz oprimida. As secas gargantas já não premeiam as audiências com o som de suas falas e o líquido consumido é insuficiente para tamanha secura. A consternação evidencia-se e é latente o sentido da prepotência descabida. As águas passam lestas por entre as muralhas do desassossego, sendo inoperante o receptivo contributo para as poder parar, na separação de toda a inquietude. Não existem mais canais de absorção e o líquido escorre paralelamente à sua necessidade, no seu resoluto percurso. A vingança fertiliza-se no estado de alma de cada ser onde impera a sequidão e vai sustentando-se, fortalecendo seus tentáculos. O polvo espreita o momento exacto para novo ataque, perante a indiferença generalizada.

 
António MR Martins

Confissões de uma vítima de violência doméstica

 
6 - Vera Sousa Silva
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Sou um corpo que deambula ao acaso,
que vive com medo todo o dia.
Amostra de ser mal amado
sem conhecer felicidade e alegria.
 
Uma mulher constantemente criticada
que chora apenas escondida
consciente que não vale nada
e a imagem totalmente denegrida.
 
Escondo os hematomas como sei.
Habituei-me há muito a mentir…
Vivo uma vida como nunca pensei
com a maior parte do tempo a fingir.
 
Esta mão, assim queimada, e a doer,
é porque sou tão distraída…
Meti-a numa panela a ferver
e fiquei tão arrependida.
 
Tapo as nódoas negras com roupa
de Inverno, mesmo no Verão.
Apenas porque sou meia louca
passo a vida a cair no chão.
 
A boca, assim cortada,
foi apenas porque sorri…
Não sei estar calada!
Apanhei porque mereci.
 
Quando parti o braço direito
foi porque me maquilhei nesse dia.
Mas afinal, foi bem feito,
porque parecia uma vadia.
 
O meu corpo está tão cansado
não aprendo a me comportar
para viver bem com o meu amado,
que tudo faz por me amar.
 
Farta dos meus erros e maldade
subo até ao vigésimo andar!
Salto, enfim, para a liberdade,
e já sou feliz… a voar!
 
Vera Sousa Silva
 
in livro “Bipolaridades”, páginas 13 e 14, edições Lua de Marfim, Póvoa de Santa Iria, 2012.
                                                   

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Há um poeta na morgue da incompreensão

 
"Script", a imagem de capa do meu primeiro livro "Ser Poeta",
by Gonçalo Lobo Pinheiro.
 

Jaz o poeta pelo difamar da sua sujeição. Tanta palavra rude rodeou o seu extenso caminhar, sem que pudesse apresentar uma simples desculpa ou uma singela explicação. As palavras que foram suas começaram a não ter a força de um passado recente e outro mais longínquo. Quase se sentiu amordaçado por uma censura que lhe espetou a estocada final. Ele que definiu aquele movimento depauperante e ardiloso, como armadilha da ultimação, e jamais buscou outras palavras para a demanda. Deixou de se alimentar dos seus poemas e de beber na fonte de seus versos. Deixou passar o tempo sem rejeitar tal desígnio, mal sentindo o ultraje do fervor que o foi aprisionando em todos os sentidos. Começou por cambalear e depois perdeu a audição. Sua visão começou por se turvar e o raquitismo de seu físico emoldurou o espaço de todos os comentários. Nunca mais se leu e ouviu uma palavra sua e apenas restaram as que tinha inventado até ao início desta contenda, mas omitidas pela vil opressão. Nunca mais se sentiu o mesmo, até ao fim que foi o seu. Acabou um dia ali, em abrupta queda, sem que ninguém por tal desse. Findou-se. Todavia, alguém comentou, ainda: - Há um poeta esquecido na morgue da incompreensão.

 

António MR Martins

NA TUA MEIGUICE

5 - Manuela Fonseca
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Empenhei-me na tua meiguice
Desembarquei-me do amor
E construí o teu sorriso
Num movimento calado
De te afagar o cabelo
 

Da algibeira do peito
Tiraste um anel
Em forma de Castor
 

Lembro-me que te olhei
Negando baixinho
O teu sofrimento
 

Desfiz o gesto de te afagar
E ouvi a minha voz
Como se de neve me pintasse
 

A minha amizade
Era mais forte que a tua verdade.
 

Manuela Fonseca

in livro “Poesia sem remetente”,  página 87 (IV – Nostalgia de Amor), edições Temas Originais, 2010.
         

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

As lágrimas de muitas mães

 
"Mãe Negra", in jornalistadeopiniao.blogspot.com
 

Choram as mães o suceder de tanta desgraça no choro de cada esperança. Choram pelos filhos que partem em busca da sobrevivência. Choram os matrimónios dos nados de si com a lágrima da saudade e do orgulho. Choram o tempo que passa sem a noção efectiva da sua existência. Choram a saúde nas pautas valorizadas por cada corpo que a tanto instante clama pelo seu nome. Choram a angústia pelo passado na aflição de cada presente. Choram os filhos que morrem no tempo que deveria ser o seu. Choram os pedaços cortantes de cada dor por elas sofrida. Choram as nuances de carinho que gostariam de dar e receber eternamente. Choram os retalhos da vida por tudo o que de bom e mau contêm. Choram também o sorriso por onde salpica o puro amor. Choram a sua superior força que lhes permite resistir até à próxima alegria. Choram finalmente a grandeza de serem simplesmente mulheres.

 

António MR Martins



GUIMARÃES

                
 
 
 
 
 
 
 
 
4 - Vítor Cintra
 
 
Ecoam, pelas pedras da muralha
As vozes, quer de nobres quer da plebe,
Que entraram, lado a lado, na batalha
Travada, com arrojo, em São Mamede.
 
Ecoam os apelos à coragem,
À luta, muito embora desigual,
Que, ousando pôr um fim à vassalagem,
Fundou um novo reino em Portugal.
 
Ecoam nos lamentos, mais profundos,
De dor, as orações p’los moribundos
E mortos, que tombaram no combate.
 
Ecoa, ainda, o grito de “Vitória!”
Daqueles cuja voz, como memória,
As pedras são o eco e o resgate.
 
Vítor Cintra
 
in livro “Memória das Cidades”, página 52 (Monarquia Constitucional), edições Temas Originais, Coimbra, 2011.

Alvorecer de virtudes

 
Xangai (China), foto de Gonçalo Lobo Pinheiro.
 

Pela calada se esfuma o silêncio de cada noite e o deserto de palavras que não surgem a preceito. Uma mordaça incorpora todo o isolamento e as mãos não refrescam esse sentido. Nada se expele por entre as amarras da desolação onde o auge se esquece, alheio a todas as conformações. Nesse destempero sereno não permanece o sorriso e a contraposição não assiste a qualquer necessidade. Os ouvidos sentem o ecoar desse silêncio sem as barras de uma prisão consentida. Passa o tempo da madrugada, onde os latidos de alguns seres caninos, em reclamação contínua, resfriam a solidão rarefeita. Mais adiante, a claridade da nova manhã traz consigo o renascer da esperança.

António MR Martins

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Sonho de Natal

 

Que este sonho de Natal
No seu sentido integral
Traga uma esperança contida
De amor e fraternidade
E recíproca amizade
P'ra ter mais sentido a vida.

Que termine o sofrimento
Daqueles cujo tormento
É de dor e opressão
Aos tristes dê alegria
E volte a dar companhia
A quem vive em solidão.

Do que o Natal nos traz
Que traga sem falta a paz
De que o mundo bem carece
P'ra que não permita a guerra
Nem haja fome na terra
E um Novo Mundo comece.

Que o Menino da bondade
Permita a realidade
De todos sermos iguais
Em sentimentos unidos
Faça que os dias vividos
Possam ser todos Natais!...


Euclides Cavaco

Natal quando se queira

 


Num sorriso se enamora
A paixão duma criança
Em detalhes sem importância
Um suspiro naquela hora
Ao rubro pela aliança
Tem outra substância
E o tempo se demora
No meio de tanta andança
Em factos sem relevância

Se abraça um outro irmão
Que não o sendo na essência
É-o na sua condição
Um apelo com o sermão
Em época natalícia
Chama logo ao coração
E se estende tanta mão
De variada procedência
Com a mesma intenção

Passam os dias por aí fora
Em fugaz desenrolar
E sem pausas para meditar
Surge a vida sonhadora
De tantas coisas a festejar
E se esquece o verbo amar
O perdido ser tanto implora
Para alguém o abraçar
E todos o querem ignorar

O tempo continua a passar
Num corrido desenfrear
E chega um outro Natal
O homem quase a finar
Numa vida a querer escapar
No meio de tanto igual
Vê agora um quente abraçar
Pelo resto do seu findar
Neste contexto universal

António MR Martins
ATENÇÃO:

JÁ NÃO VÃO HAVER SESSÕES DE APRESENTAÇÃO E LANÇAMENTO NO PRÓXIMO DIA 9 de DEZEMBRO, O MOTIVO PODE SER CONSULTADO NOS SEGUINTES ENDEREÇOS:

http://www.facebook.com/groups/128920687827/?fref=ts

http://www.facebook.com/xavierzarco1?fref=ts

A TODOS OS MEUS SINCEROS AGRADECIMENTOS:

ABRAÇO

ROSA DOS VENTOS



3 - Lita Lisboa



























Num tempo de fogo,
quantas pelejas
teremos de hastear?
 
Com a alma febril do desespero
se espera a hora do milagre,
redentor dos pesadelos.
 
Até lá, morre-se no crepúsculo.
 
As essências aromáticas,
dissipam-se nas cinzas voláteis
e sem rota.
 
O sol derrete-se!
As estrelas choram
reinos de sombras…
 
E a rosa dos ventos,
perde-se nas entrelinhas
dos poemas que não escrevo,
porque as memórias mágicas
adormeceram!
 
 
Lita Lisboa
 
in livro “Crepúsculo”, página 44, edições Temas Originais, Coimbra, 2012.

3.

 
Casino Lisboa, em Macau - Foto de Gonçalo Lobo Pinheiro.
 
 

No jogo a sorte da vida
Ou o azar de tanta miséria
No colorido de cada fonte

A luz permanece resplandecente
Com um brilho jubilar e contínuo

Todo o resto passa adiante
 
 
António MR Martins

domingo, 2 de dezembro de 2012

Vindimei-me

2 - Vanda Paz











Hoje colhi-me.
Desengacei a alma
retirando-lhe
o verde esperança.
Prensei o coração
e recolhi
o sangue de lágrima
que ainda me restava.
Deixei-o fermentar
alcoolizando
os sentimentos.
Controlei a temperatura
de cada ilusão,
de cada desilusão
da vida...
E no final
deixei-me estar
a repousar num futuro.
Num sonho de estágio empolgante.
Numa garrafeira que me receba
com carinho.
Trasfeguei-me
de recordação em recordação
e retive o que de bom tinham
deixando para trás
tudo o que já não importa.
Engarrafei-me
no teu coração
esperando este Outono
ter um estágio calmo,
fresco... inesquecível.
Para quando estiver no ponto
e me degustares
sentires que sou a colheita
da tua vida.


Vanda Paz

in livro "Brisas do Mar", prefaciado por António Paiva, páginas 90 e 91, edições Edium Editores, 2008, S. Mamede de Infesta.

4.

 
Foshan, foto de Gonçalo Lobo Pinheiro.


A ansiedade é renitente
No ríspido espaço rudimentar

Há uma redoma que hostiliza
Os movimentos
E os desejos prementes

Na pele a dor consome
A réstia dos largos passos
Onde a memória passou

Os feitos eminentes
Diluem todas as conquistas


António MR Martins

sábado, 1 de dezembro de 2012

se quiseres não haverá amanhã




1 - José Ilídio Torres

 
 
se quiseres não haverá amanhã
nem depois
se quiseres partimos o tempo em dois

ofereço-te o amor servido aos gomos
quase xarope em colher
panaceia para aquilo que já fomos
quando éramos amantes e tu mulher

se quiseres não haverá amanhã
nem depois
do que amanhã não houver
seremos só dois dê por onde der

ofereço-te a minha alma como sinal
firmamos o trato com saliva
serei eu o poeta não me leves a mal
tu serás a Diva

e se achares tudo isto Camoniano
assaz melado ou harmonioso
lembra-te sempre que te amo
por isso me chamam de vaidoso

se quiseres não haverá amanhã
nem depois
nem depois


José Ilídio Torres

in livro “O amor é um tema batido”, página 35, edições Temas Originais, 2011, Coimbra.