sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Sentires fugazes

 
Vista a partir do Monte do Colcurinho, Serra do Açor.


Há uma ave que levita seu planar, a espaços incontáveis, corolário da imensidão de tanto incessante voo, na extremidade oposta da serrania até ao infinito vislumbrar. As árvores, inquietas, agitam os ramos das suas quimeras à passagem sorrateira de um moderado fluxo de vento, que quando agreste inferniza sua regular estabilidade. As encostas, descendo as serras de todo o pranto, transmitem a grandiosidade de uma paisagem repetida, carente do afago humano, numa naturalidade que ali já não mora. Apesar de tudo, ainda o horizonte parece dar a entender que nada se alterou naquele espaço. Perante o nó limitador do futuro, que acontece a cada passo seguinte, se ventila o aperto da saudade. No sopé de tanta altura, entre leitos de imprecisão, o rio permanece na sua existência, com águas inovadoras, correndo no preceito estabelecido pela natureza e na sua incumbência estratégica. A vida continua, apesar de tanto silêncio.

António MR Martins

Lisboa




 
 
 
 
 
12 - Gonçalo Lobo Pinheiro
 
 
1

Lisboa, minha Lisboa;
De ti nasci para a vida.
Em ti vivi e vivo, constantemente,
Sonhos vários, de cores diversas;
Luzes na escuridão,
De uma noite tal, inequívoca,
Onde percorro ruas e becos
De fina e requintada loucura, e
Por momentos me perco na tua história.
Olho à volta o recorte dos telhados
E a longevidade de janelas, agora fechadas,
Perdidas no tempo e na identidade
De uma cidade de trato forte e consequente.

2

Do Castelo avisto o Tejo.
Em ondulações permanentes
Reflecte a luz de um sol, que
No dia seguinte será o mesmo sol, e
De noite, transmite a penumbra de uma
Semi-lua, rasgando o céu que me seduz.
Barcos cruzam entre si desenhos
De uma linearidade subtil, e
Onde, por breves instantes,
Uma gaivota mergulha na busca de sustento.
Como me cativa esta sequência de atitudes
Traduzida na melancolia dos mesmos passos, dia após dia,
E que agora contemplo, para entender.

3

Terra de romantismos e outros ismos;
Onde, de eléctrico, percorro os carris
De uma cultura a cada esquina,
Invadida pelo olhar do poeta adormecido,
Ao dedilhar o livro da introspecção.
Terra de Negreiros, de Pessoa, e minha também,
Por onde me perco a cada dia
Seduzido pela poesia que escuto aqui e ali, e
De onde bebo o dom de existir.
Lisboa que transmites sem sossego
Palpitar as palavras ícones
De uma geração literária influente
Nas minhas humildes preces a ti.

4

Do algeroz cai a água
Que um dia hei-de beber;
As varandas, com flores, dão cheiro
À cidade que fotografo.
Revelo o concreto da realidade abstracta, e
Aí me insiro, por paixão, por gosto próprio.
Lisboa não se dissocia de mim; eu dela nem pensar.
Conheço a todo o custo, os caminhos que
Compõem a tela citadina, e onde inconsciente,
Me perco de tantas vezes os percorrer.
Paro, por mero acaso, naquele beco recôndito;
Odor reconfortante identifica a sardinha que,
Vendida pela varina, assa no braseiro.

5

Ao oriente me chego.
Passeio por jardins onde me conformo, e
Calculo, por breves raciocínios,
O restritivo específico da tua espécie.
A tua existência, no tempo, efectiva,
Demonstra a evolução contínua
Da história que passa nas tuas ruas, e
Todos pisam sem importância.
Povo ignóbil, este, que saqueia o teu espaço
Acomodando a sua inteligência, e
Não evoluir a cultura e o fado, que
De ti faz parte,
E lhes transcende.

6

Transito para ocidente,
Onde aglutino a razão do meu ser, do meu existir,
Vislumbrando o ocaso do
Sol que amanhã continuará a ser o mesmo, e
Onde Lisboa ocupará o mesmo lugar.
Mude-se o fado ou não,
Os pregões continuarão; o ímpeto bairrista também.
Vou acreditar que a nós, alfacinhas, te confinas.
Sendo a todo o momento,
O Tejo que te refresca e
Te garante, com o passar contínuo do tempo,
A jovialidade com que encaras as gerações que
De ti usufruem e assimilam o teu crer.

 
Gonçalo Lobo Pinheiro

in livro “Etéreo”, páginas 11, 12 e 13, edições Temas Originais, Coimbra, 2010.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Encontro de amantes

 
Em Xangai (China), foto de Gonçalo Lobo Pinheiro.
 
 

No largo se encontraram
Numa manhã de domingo
Encontro premeditado
Por entre a multidão
Que despercebida
Ali os deixou sós

Questionaram seu anseio
Por entre seus quentes corpos
Alheios à sua paixão
Que a tanto respondeu

Ruídos vaguearam
Nas pedras daquele chão
E a voz que vinha da gente
Fez silêncio para eles

Deram-se nas suas mãos
E sorriram-se loucamente
Num abraçar que tanto aperta
Enquanto o sol se despedia
À chegada da nova lua
Naquela praça já deserta

 
António MR Martins

História de Amor

 








11 - Luís Ferreira
 
 
Roubei a noite ao dia,
E namorei secretamente…
Abraçado por um lençol de estrelas.
Os minutos passaram, tornaram-se horas,
No vazio, o silêncio…
Entre murmúrios tímidos de desejo
Rasgos de cometas,
Que queimaram o céu,
Em prazeres de pecado que o tempo escondeu.
Tempo que prendeu o tempo,
Gemidos que o eco fez vibrar,
Nos laços infinitos,
De volúpia, feita de magia e sedução.
Nuvens de cetim,
Percorrem como plumas o deleite do momento,
Erguendo paixões enamoradas,
Onde o beijo preenche o fôlego da manhã,
Na sedução alienada de prazer.
Resvalam rios de suor,
Em caudais de ardores que inalam o espaço,
Nos corpos que dançam numa aliança de amor,
Nas sintaxes de uma história interminável,
Que começa e acaba em nós.
Tocam as trombetas ao despertar da alvorada,
No tactear suave do sol na minha face…
Acordei…, e sentia cama gelada, vazia,
Nada mais importa porque mais tarde voltarei…
A roubar a noite ao dia.
 
Luís Ferreira
 
in livro “Momentos…”, página 113, edições Temas Originais, Coimbra, 2009.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

margens entre nuances



o sol não habita agora aqui!...

esconde-se
entre o arvoredo da fresquidão.

as frestas do silêncio
soletram empatias
com o grito sonoro das aves,
a cada seu movimento saltitante,
entre os ramos do bem-estar.

o soalho chão
acolhe as consequências
de toda a perfeição,
engrandecendo
a naturalidade das coisas.

há um fecundo aroma
que neutraliza tristezas
e agonias,
por entre as nuvens do prazer
e o ambiente calmo que as rodeia.

existem,
por momentos,
válidas razões para o continuar
da caminhada.

será sonho,
ilusão,
utopia
ou simplesmente realidade?

 
António MR Martins

CAIXINHA DE MÚSICA

       









10 - Teresa Teixeira
   

 
A medo,
ergo,
nas costas,
a tampa que me aprisiona:
cedo,
à tentação de ser carne
e recebo
em cheio,
no peito,
um impulso que me anima,
uma música que me move…
(baixinho…)
 
e ouço,
no degredo,
a melodia que posso…
 
e danço,
em segredo,
coreografias que esboço…
 
à beira do abismo.
 
Teresa Teixeira
 
in livro “Da serena idade das coisas” (edição que serviu de prémio ao poema vencedor do I Concurso de Poesia da Associação Cultural Draca – 2011), página 18, edições Temas Originais, Coimbra, 2012.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

direito a sonhar



rastejante
simulação
num voo consumado

definição
recalcada

aqui um salto
não é um voo

e a posição
não é a propícia

todavia
todos têm
o direito a sonhar


António MR Martins

A FORMA DO AMOR

 


Uma vez mais acende-se a renúncia
como um caudal nocturno arrastando as palavras
despertos repetimos a essa luz os sons
agudos que tínhamos cantado

A noite não será igual a tantas outras
nem decerto o amor tem a forma de espada
porém tudo é idêntico ao fotograma estático
de súbito retido no correr das imagens

Parámos nesse ponto em que o choro da noite
perdeu a consistência e se desfez em mármore
o amor tem a forma que as palavras
não podem dar à hora da paragem da alma

 
Gastão Cruz

in livro “A Moeda do Tempo”, página 15, edições Assírio & Alvim (colecção poesia inédita portuguesa), Lisboa, 2006.

A carruagem das incertezas

 
Metro, Londres - Foto de Gonçalo Lobo Pinheiro.
 

Ninguém espera uma chegada
pela surpresa de qualquer canto
da carruagem desencontrada
entre os carris do trem espanto

por esta vida desenfreada
de mudanças e contingências
que tantas vezes é desventrada
pelos ramos das exigências

soam ecos do melhor conselho
que o seguro morreu de velho
perante tanta imaginação

a carruagem está deserta
e desenquadrada na estação
donde partirá a vez incerta

 

António MR Martins

domingo, 9 de dezembro de 2012

SONHOS

9 - Dalila Moura Baião
 
 
 
Um poema de uma obra que também apresentei. Por duas vezes.
                                                                                   


Trago mil sonhos guardados
na bagagem da ilusão
entrelaçados de Esperança
ancorados num pontão.
São espuma de maré cheia
que se desfaz sobre a praia.
São ruídos de gaivotas
pousadas junto à muralha.

Bocados de algas perdidas
dançando na maré alta
baloiçando sobre as ondas
descansando lá na areia
cansados da dança louca
dos cantares de uma sereia.

E dançam leves e soltos
os sonhos para viver.
São pedaços do meu tempo,
retalhos do meu sentir.

Borboletas esvoaçando
… pequena parte de mim!

Sonhando o sonho acontece
sem sonho seria o fim.
Esses mil sonhos guardados
nascem e morrem… assim!

 
Dalila Moura Baião

in livro “Varandas de Luar”, página 18, edições Temas Originais, Coimbra, 2009.    

sábado, 8 de dezembro de 2012

Fugaz ventania

 
Palawan (Filipinas), foto de Gonçalo Lobo Pinheiro.


A cada sopro instável do vento gemem as árvores nas suas dores. Caem folhas que se espalham na terra da conformação, mas outros sopros as transportam para diferentes solos do tempo. Às árvores se lhes abanam os ramos em ruídos que trespassam o silêncio de tanta voz calada. Os picos das irregulares rajadas intervalam a estabilidade da coesão de todo o arvoredo. Há um ramo que se quebra perante tanta ferocidade. Todavia tudo é efémero.

 
António MR Martins

CHAFARIZ DOS OLIVAIS
















8 - Xavier Zarco
 
 
 
Poema extraído de um belo livro de poesia sobre Coimbra, do qual apresentei obra e autor:
 
 
desenha o poema
o rumor da água
 
as mãos entregam-se à descoberta
das líquidas palavras
da terra
 
onde se abre a boca
e nasce a voz dos artífices
 
eis a pedra
a mãe de todas as árias
 
a ópera da vida
 
 
 
Xavier Zarco
 
in livro “Coimbra ao som da água”, página 20, Coimbra, 2009.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Prendem-me a ti

 
Natal em Macau, by Gonçalo Lobo Pinheiro.

 
Prendem-me a ti
os sorrisos que sucumbem
o empalidecer
os afagos que superam
o entristecer
a razão que fortalece o meu viver

Prendem-me a ti
as palavras
que ancoram no meu pranto
os afagos
dados com o teu simples jeito
as atitudes
que me surpreendem de espanto
os olhares
que me empolgam o peito

Prendem-me a ti
a razão do teu ser
o teu simples madrugar
num suave anoitecer
que aguardo para te amar

 
António MR Martins

ASAS DE ABUTRE












7 - Conceição Oliveira
 
 
 
Longas são as asas dos abutres
Em perpétuo movimento
Sobrevoando a presa
Moribunda
Espreitam o momento
Da queda
Na terra vermelha e árida…
Sequioso e lânguido
O grito
Fugaz e agoirento
Sob um céu rubro, interdito

África
Agrilhoada.

Na rota do seu voo
Poisam de mansinho
Como os homens pisam
Devagarinho…

A humanidade ancestral
Vai recuando… recuando…
À época Medieval
Os homens e os abutres
Vigiam…

Na espera triunfal.

Conceição Oliveira

in livro “Labirinto de Palavras”, página 70, edições Temas Originais, Coimbra, 2012.


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Secura ilimitada

 
Palawan (Filipinas), foto de Gonçalo Lobo Pinheiro.
 

Foi vertido o líquido incolor no copo da sofreguidão, onde a sequiosa razão da subsistência não envereda pelas sedes da loucura e transmite o receio de cada voz oprimida. As secas gargantas já não premeiam as audiências com o som de suas falas e o líquido consumido é insuficiente para tamanha secura. A consternação evidencia-se e é latente o sentido da prepotência descabida. As águas passam lestas por entre as muralhas do desassossego, sendo inoperante o receptivo contributo para as poder parar, na separação de toda a inquietude. Não existem mais canais de absorção e o líquido escorre paralelamente à sua necessidade, no seu resoluto percurso. A vingança fertiliza-se no estado de alma de cada ser onde impera a sequidão e vai sustentando-se, fortalecendo seus tentáculos. O polvo espreita o momento exacto para novo ataque, perante a indiferença generalizada.

 
António MR Martins