sábado, 22 de dezembro de 2012

Como no primeiro dia




  20 - Emanuel Lomelino





 
É teu este coração rasgado
Que o tempo não cicatriza.
É tua esta alma penada
Que no meu corpo se refugia.
Estão em ti os meus pensamentos
Dolorosas lembranças de nada
A tua imagem é tudo o que me resta.
Esse último sorriso
Ingénuo de tristeza
Que na despedida me enviaste
Definha ao ritmo das minhas pulsações.
Esse último olhar
Terno de amargura
Que em mim pousaste
Esvai-se como suspiros.
O teu níveo rosto
Que, tarde na vida, aprendi a amar
Esbate-se da minha memória.
Mesmo assim
Não consigo deixar de te amar
Como no primeiro dia.

Emanuel Lomelino

in livro “Aprendiz de Poeta”, página 43, edições Temas Originais, Coimbra, 2010.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Urge procurar o limite



Entre o barro de porte sereno, moldado da vermelha e húmida terra, e as mãos que o tornaram objecto, se incrementou a lágrima do esforço de tantas vidas. Entre esse modelar preciso, se desenhou o sonho criativo de cada gerador de novos projectos. É como se confluíssem, em reencontro de harmonia plena, múltiplas marés de todas as orlas marítimas, em seduções de volumosa espuma de carícias. Ou como se todos estivessem imbuídos na realização efectiva do mais belo dos sonhos, o da felicidade absoluta. Cada criação torneia os obstáculos que possam afrontar o culminar dessa concretização. A procura de nova fuga para um futuro melhor torna-se ávida e urgente para que a mesma não se torne, cada vez, mais longínqua. E é preciso que essa fuga tenha o respectivo retorno.

 
António MR Martins

na ponta do cais






19 - António Paiva



 
 
é muito mar
é tanto mar
aos olhos das palavras
é diferente o sentido das coisas

estou na ponta do cais

cala-me a boca com um beijo
acalenta-me este sonho vadio
tão pouco
faz com que tanto valha a pena

estou na ponta do cais

mar do outro lado é longe
aqui é tão perto mar
e tu mar
estás aqui e do outro lado também

estou na ponta do cais

 
António Paiva

in livro “Janela do Pensamento”, página 62, Edições Ecopy, Porto, 2007.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Ilimitadas sensações



Nessa pele, remendada de carícias amorfas, onde se enrugam as esperas consumadas. Nesse condimento revelado pelas intenções omitidas em ânsias de tanta espera. Nesse subtil corpo decorado pelo rubor de uma qualquer cereja, estendida na plenitude de toda a contemplação. Nesses poros sequiosos, onde manobram as glândulas de toda a exposta sensualidade em metamorfoses de movimentos inesperados, mas determinantes. Nesse perjúrio revoltante cintila a luz de todo o fragor, regurgitado pela adjacente exteriorização. Nesse todo clamam as fontes das águas onde prima a clarificação do teu ser. Torna-se inebriante esse expoente sem mácula e o sagaz efeito de tanto desejo. Há prazeres que as palavras não conseguem justificar, nem sequer enunciar.

António MR Martins

[o corpo faz-se]





18 - Alvaro Giesta




 
o corpo faz-se
de fragmentos em união constante

tenta o equilíbrio
a harmonia
a força

membros
boca
a língua de sal
em frémito e movimento

o que é fascínio contradiz-se
mas seduz

tenta relacionar-se sedento
por criar um espaço que desfragmenta
em desafios encontros e desencontros

 
Alvaro Giesta

in livro “Meditações sobre a palavra”, um tributo a Ramos Rosa, o poeta do presente absoluto, edições Temas Originais, Coimbra, 2012.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Faleceu João Carlos Martins

 


Faleceu hoje um grande homem da cultura, artista plástico, sobretudo aguarelista, mas também poeta, um excelente poeta, João Carlos Martins. Há algum tempo doente, mas sempre lúcido, decidiu publicar tudo aquilo que foi escrevendo no sentido de o conseguir, ainda, em vida. Não foi possível, mas a obra em livro acontecerá, tenho quase a certeza. Será algo de muito valor para quem ama a língua portuguesa e gosta de poesia, em particular.

Um poeta sintético, na sua explanação escrita, dizendo muito em poucas palavras, mas sempre com uma beleza indescritível, como poucos o conseguirão fazer.

Fica aqui a minha homenagem ao poeta, com a publicação de dois dos seus poemas, da sua obra “Abismo de Palavras”, das páginas 20, 6. e 38, 24., uma edição Temas Originais, Coimbra, 2011.  

6.

Alguém deixou à noite
luzes e vestígios
de quem terei sido:

Talvez os derradeiros
a depositar em mim
a dor e o prazer.

Por um instante assim
a tua voz abriu
um sulco no meu ser.

 
24.

Chego hoje à serra
para ser senhor e rei
de todo este granito.

Desde o início das coisas
só levo do que não sei
carrego do que não sinto.

Levo mais água
no meu cansaço
do que cabe de silêncio
em cada grito.

João Carlos Martins

Alvorecer de virtudes

 
Alhandra, o Tejo, o Bando e o Horizonte, by António MR Martins.


Pela calada se esfuma o silêncio de cada noite e o deserto de palavras que não surgem a preceito. Uma mordaça incorpora todo o isolamento e as mãos não refrescam esse sentido. Nada se expele por entre as amarras da desolação onde o auge se esquece, alheio a todas as conformações. Nesse destempero sereno não permanece o sorriso e a contraposição não assiste a qualquer necessidade. Os ouvidos sentem o ecoar desse silêncio sem as barras de uma prisão consentida. Passa o tempo da madrugada, onde os latidos de alguns seres caninos, em reclamação contínua, resfriam a solidão rarefeita. Mais adiante, a claridade da nova manhã traz consigo o renascer da esperança.

António MR Martins


17 - Diogo Godinho

As minhas noites são iguais aos
meus dias.
Agarro-me à insónia, fiel companheira
de madrugadas em que me relembro
da tua dor, da dor da tua ausência,
da dor do meu pensamento, da dor
enferma, mesquinha, atroz.
A dor que a noite me trouxe entranhada
nas veias.
Deambulo por entre fileiras de copos;
mantos brancos, rostos brancos, pós brancos.
A cabeça estala, esfumam-se cinzas
em que te vejo partir, em que me
vejo partir.
A noite é vida, a vida é noite,
e o dia é nada.
Cumpro horas preventivas
pelo delito da nascença.
A dor agarrou-me
no seu estado indecifrável.
O amanhã é somente agora
e o hoje arrasta-se em ampulhetas
paradas.
Não há luz ao fim do túnel.
A madrugada amputou-me a dor
da razão.
A esperança apanhou a carruagem
da frente
deixou-me apeado na convulsa
nostalgia do presente e
só me esqueci de ti, quando a
tua dor se apartou da minha dor
e os meus olhos se fecharam
nas lágrimas dos teus.
Perdi-me.
Perdoa-me.

 
Diogo Godinho

in livro “Estação Terminal”, páginas 60 e 61, edições Temas Originais, Coimbra, 2011.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Longínquo estabelecer



um pranto se esconde
nas margens do prazer,

há um sentir ileso
de toda a humilhação,

aí outro se consome
nas frestas da inquietude,

o balanço é o corolário
de todas as consequências
e o desnorte intensifica
a efervescência em ebulição,

por tanto tardar a acalmia.

 

António MR Martins

Árvore seca


16 - Carlos Teixeira Luís
 
Sou uma árvore seca.
Seca de poeira e sol.
Ardente de pedra.
Sou uma árvore seca
Jazendo no caminho dos
Caminhantes.

Onde a minha sombra arde.
Aqueço-me
Com o respirar dos cactos
Castanhos,
Com o olho atroz
Do lagarto fugitivo.

Cobra de sonho de gelo,
Vinde à toca curvilínea
Alimentai-vos por meses.
Debaixo da árvore seca.
Seco é o sol
Dos passos de quem aqui morre.

 
Carlos Teixeira Luís

in livro “ HISTÓRIAS DO DESERTO”, página 18, edições Atelier Produção Editorial, Vila Nova de Famalicão, 2009.

Este é um pedaço de um extraordinário livro de palavras maiores, de poesia e prosa (pensantes), e de uma relevante interpretação da escrita. Eu o apresentei, mais a minha amiga escritora Vera Sousa Silva numa sessão de enorme partilha. Este livro é um autêntico tesouro literário.
 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Esse teu traço

 
Imagem da net.

Ai, menino esse teu traço
terminado entre uma flor,
representa terno abraço
envolvido em tanto amor.

Misto de magia, encanto,
nesse olhar tão carinhoso,
mesmo débil, és um espanto,
um ser assaz delicioso.

Te encaram pelas tristezas
que da vida são mesmo tantas,
perante muitas incertezas
lindas emoções nelas plantas.

Muito atento e lutador
aprendendo por esta vida,
ternurento e demais valor
realças poesia relida.

Não te sobram outros defeitos
pelas qualidades que tu tens
e teus dogmas estão sujeitos
à maldade que somos reféns.

Há que ter regular atenção
pelos teus enigmas humanos,
falando-te com o coração
com pureza e sem enganos.

Que teus pais sempre te adorem
entre teu semblante e teu ser,
que muito amor te aflorem
pois deles vieste a nascer.

Por vezes um simples sorriso
eleva a nossa presença,
um mero olhar indeciso
pode fazer a diferença.


António MR Martins

Apolo



15 - Edgardo Xavier
 

Vens do fundo desta noite
Como uma aurora vibrante
Trazes-me o sol e o tempo

Doces
Como mel a escorrer
Da memória

Vens do fundo desta noite
E do centro da glória
Lavar-me o olhar
De silêncios e deserto
Desperto
Sou a tua seara em flor
O teu azul do mar
O teu céu
Sou o Apolo que viaja
Nos teus olhos

 
Edgardo Xavier

in livro “Corpo de Abrigo”, página 44, edições Temas Originais, Coimbra, 2011.
 

domingo, 16 de dezembro de 2012

“Atlanticidade”

 
Funchal - Ilha da Madeira
Imagem in 1001imagens.blogs.sapo.pt
 

I

Há um oceano
Que separa as margens do silêncio
Em cada descoberta emergente
Onde os cascos das caravelas
Solidificaram um espaço
Hoje fora de todo o tempo

II

Há um navegar precioso
Ultraje de tantas contendas
Na interferência de tantos ideais
Numa junção incompleta
Jamais aceite pelo mundo
Aos olhos das cruéis tormentas

III

Há um encontro de esperança
Ateado pela insegurança
E pelos prémios da revolta
O sentido único é a baía
No albergue de tantos navios
Portadores da mensagem

IV

Há esse mar tão profundo
Que Camões tanto exultou
Na palavra da envolvência
Ai grandioso Portugal
Que te ultimas no desencanto
Em que abandonas tuas ilhas

V

Há um caminho marítimo
Nas preces dos marinheiros
Que se perderam no tempo
Olvidado por tantas gestas
Na troca vil da ganância
Que as levou para outros mares

VI

Há um Atlântico perdido
Em tanta imensidão
Onde a história já pernoita
Águas de tantos segredos
Vitórias de muitos contrastes
Que a memória dissipou

VII

Há o mar da coragem
Mensageiro da ribalta
Num apogeu de um abraço
Que nas falésias embate
O pulsar de suas ondas
Com tanta sofreguidão

VIII

Há a separação nesse mar
Onde se une toda esperança
No encanto de cada chegada
A partida noutro instante
Torna a dividir no vazio
Cada culminar da união

IX

Há um preceito na origem
No âmbito de cada destino
Como mito da descoberta
De João e de Tristão
Imbuídos pelo esplendor
De ver terra no Atlântico

X

Há uma pérola oceânica
Num Atlântico de virtudes
Onde a ponte é espontânea
Tal como o Continente anseia
Pelo caminho mais fraterno
Rumo à Ilha da Madeira

 
António MR Martins

Nota: - Este trabalho foi elaborado a partir de um convite, que me foi feito, e entregue aos CEHA – Centro de Estudos de História do Atlântico, a fim de fazer parte do conteúdo de uma obra a ser publicada no final de 2011, sobre o Atlântico e a Ilha da Madeira, no seu interagir com o Continente, mediante determinados conceitos e pressupostos que, antecipadamente, me foram apresentados. Por dificuldades financeiras não chegou a ser editada, como tal, e com a devida autorização, aqui estou a publicá-la, na íntegra, divulgando-a.

Não te despeças






14 - Isabel Rosete
 
 
 
 
 
 
Na ternura do teu olhar,
Amoleço.
Pelas tuas mãos carinhosas,
Adormeço.

Ó meu Amor, não te despeças!

Carrega-me, leve e fresca,
Em todo o teu peregrinar,
Não como um fardo,
Mas como pedaço de ti,
Do qual não te podes mais apartar.

 
Isabel Rosete

in livro “ENTRE-CORPOS”, página 131, Edições Ecopy, Paranhos (Porto), 2011.


sábado, 15 de dezembro de 2012

Tremores (in)consequentes

 
Torre de Belém, Lisboa - Foto de Gonçalo Lobo Pinheiro.


Na pálida
Segurança da pele
O desvio
Do consentimento

Nada
De inovador
Acontece
Nos prelúdios
Da insensatez
Governante

E há
Um anseio
Pelos destinos
Inalcançáveis

 
António MR Martins