terça-feira, 8 de janeiro de 2013

17.






33 - Jorge Vicente



 

lá longe, uma cidade de barro
é apenas uma outra cidade –
cidade sem portas e janelas,
postigos de madeira que desalmam
a carícia dos homens sem corpo.
 
nada vive nos homens que não
seja escrito pelo cordão matricial
da carne – a vida é apenas o
ajuntamento dos pássaros na cidade
branca, com homens de barro a dormir
e a jurar solenemente pelo deus das
flores.
 
o teu sorriso é todo o meu alentejo
e a tua voz de barro é apenas minha
- a saliva de pele a crescer no
trabalho ancestral do oleiro.

 
Jorge Vicente

in livro “Hierofania dos Dedos”,  página 21, edições Temas Originais, Coimbra, 2009.

 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

esvoaçar perdido

 
"O infinito aqui ao lado..."
Instituto Politécnico de Macau, by Gonçalo Lobo Pinheiro


embicou
para aquele lugar

impensadamente

sentiu
a solidão
depois o perecer

tornou moribundo
seu ser

tentou mover as asas
sem sentido

um esvoaçar perdido

foi seu último gesto

 
António MR Martins

CLARIM DE GUERRA





32 - Filipe Antunes dos Santos


 
 





Se os desgostos que a vida nos amarga
são gostos na mesa de um coitado;
se a miséria com euros só se alarga
na reforma do pão esmigalhado,…
eu serei, nesta praia lusitana,
o senhor do meu dia, programado,
revoltado sete dias por semana.

Cada pobre que ainda é ao sol-posto,
siga a tempo o rufar dos tambores;
cada pobre, por o ser não perca o gosto
do que vai para a mesa dos senhores;
cada pobre que come em Agosto
a lampreia-sardinha – dois sabores,
escute a tempo o bélico clarim;

Um dia,…
Eu sei que há sempre um dia!
Se quiseres,
hoje é o teu dia!

 
Filipe Antunes dos Santos

in livro “Respiração Poética pelo Natal”, página 28, edições Temas Originais, Coimbra, 2011.

 

domingo, 6 de janeiro de 2013

Grãos de conformação

 
Templo de A-Má, em Macau.
Foto de Gonçalo Lobo Pinheiro.


Na surdez inventada, pelo enraizar de conceitos exasperantes, se toldou a consistência de um silêncio amargo, sem pejo de qualquer condição análoga à intermitência. O ruído não se conforma pelo esquecimento a que foi consignado, nos parâmetros da incoerência e no estreito da inoperância. Eis que se sentem os rasgos dos pruridos aleatórios no culminar das questões pendentes. Tudo se envolve numa batalha entre a palavra e a branca, como escorreito discernir provocador de cada desenlace. Tudo o que ali sobra não terá, jamais, a relevância de outrora. Ficam os palpites de circunstância.

 
António MR Martins

HÁ UM POEMA...





31 - José Luís Outono







Há um poema na minha memória
Nas cruzadas de parágrafos sem estória
Onde fantasmas doces, atrevidos e soltos
Amigam o leito casulo em desejo envoltos!

Há um poema na minha fiel obediência
Feito de mares e falésias em decadência
Nos olhares que procuro e não entendo
Nas voltas das voltas que tombam… sendo.

Resta-me o desabafo nestes trilhos de papel
Fragrância amiga, por vezes amarga razão
Sono perdido nos luares de lutas de ébrio corcel

Dicionário sem significados de procura em vão
Cafeínas repetidas em chávenas carentes de mel
E o amor…esse amar que nunca passou do portão!

 
José Luís Outono

in livro “Da janela do meu (a)Mar”, página 42, edições vieira da silva, Lisboa, 2011.

 

sábado, 5 de janeiro de 2013

Acolhimento


Kaiping (China), by Gonçalo Lobo Pinheiro.


No seio
Onde se fecunda
A recepção
Os braços abertos
Da casa
 
Na porta a entrada
Onde se acolhe
A virtude
De todos os sentidos

A saída
Será uma escolha
Somente

António MR Martins

(queria) um poema eterno





30 - Jessica Neves





 
 
Queria-te comigo num poema eterno
Bronzeado ao sol
Em que a praia da ilha
Se desabotoasse sem pressa
E as conchas de fogo
Testemunhassem o beijo (a) nu
Naufragando o desejo em alto mar
 
 
Queria-te comigo num poema
Sem tempo
Abraçado sem metáforas
Sem chuva nem vento
(Só) um poema
Eterno
Contigo!...

 
Jessica Neves

in livro “(Sem) Papel e Caneta, (Com) Alma e Coração”, página 54, edições Chiado Editora, 2012.  
 
 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Apropriação de devaneio

 
O Céu visto de Ansião.


Nas nuvens do desejo
Um cálice de estrelas
Brindou
Ao prazer

Sublimando
As entranhas
De um corpo em submissão

Intensamente

 
António MR Martins

Perfume










29 - Ana Lopes



Não tenho forma de te escrever o quanto me sinto louca,
prefiro não pensar nos lábios daquelas que tentam a tua boca!
São os teus cabelos brilhantes que eu quero sentir,
o meu toque de midas que não te deixa fugir!

Tenho sede de te beijar com olhar apaixonado!
Tenho vontade de sentir esse corpo perfumado!
Vai correr pelo meu corpo aquele frio de te perder,
indesejado sentimento que tolda todo esse meu lado fraco de mulher!

Ama-me até ao fugir da aurora,
ama-me, como se eu quase fosse morrer agora.
Deixa-me só os teus beijos de amor...
Perfuma-me com odores de saudade,
Seduz-me com sorrisos cheios de vontade!
Deixa-me só os teus abraços apertados de amor...

 
Ana Lopes

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

De olhos bem abertos

 
Kok Mak (Tailândia), by Gonçalo Lobo Pinheiro.


Uma fresta salienta o vácuo da sentença premeditada. O aperto é mais ténue embora a intransigência tenha o seu limite assegurado. Determinadas atitudes continuam a ser reprovadas, sem o recurso a quaisquer explicações. Nesse âmbito os resultados prosseguem na sua inconsequência, verificando-se um autêntico menosprezo pela singela criação, apesar de ser considerada arte. Por entre a esfera da conservação existem opiniões contrárias, mas sem a força necessária para que se possam desactivar todos estes considerandos e se permita seguir uma nova linha de orientação. Estreitam as possibilidades de um acordo apelativo ao progresso não esquecendo a integridade e os valores que lhe são inerentes. Propositadamente, fazem-se circular boatos, repletos de conteúdos maquiavélicos, com o fim de ofuscar todas as válidas e coerentes ideias. Nada consegue interferir neste desalinhar contínuo e a paciência vai chegando ao seu limite. Talvez seja a hora de todos acordarem.

 
António MR Martins

Já de ti meus olhos partem



28 - Natália Canais Nuno








Na hora de acordar não estás comigo
Sombrios meus olhos coalham de tristeza
Vive meu coração ao acaso sem abrigo
Emparedada minha alma, em teu lugar incerteza.

Triste desígnio, que provoca em mim fronteira
Me faz ameaças me põe algemas nos braços
Perturba minha caminhada, só há canseira
E a tua ausência Amor? A dádiva dos abraços…

Que ninguém mais, olhe meus olhos feitos rio.
Nem meu rosto onde o sorriso ficou embaciado
A dor gasta, faz moer, trago a vida por um fio.

Quisera que sentisses o sabor do abandono
Agudos espinhos e solidão no peito desolado,
Das rajadas geladas… da partida do Outono.

 
Natália Canais Nuno

in livro “Pesa-me a Alma”, página 64, edições Lua de Marfim, Póvoa de Santa Iria, 2011.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

eternos tormentos

 
Imagem da net, em: kantoximpi.blogspot.com
 

varrem as queixas
constantes
com as vassouras do medo
recicláveis
sem demora

limpam reclamações
desalinhadas
com trapos de nódoas
inflamáveis
pela vida fora

lavam os gritos
com a água das lágrimas
e os panos do desalento
desdobráveis
até mais não

aqui e agora

 
António MR Martins

FENDER HORIZONTES



27 - Lurdes Breda









O Sol desce no horizonte longínquo,
tingindo de escarlate a paisagem vaga,
como fogo-fátuo que ilumina
a realidade do meu sonho…
Refugio-me no terraço.
Observo o movimento apressado
de asas longas e o voo suave,
cortando o ar perfumado de rosmaninho e alecrim.
Sigo ao acaso e deleito-me na frescura da relva viçosa
que me acaricia os pés descalços e frágeis.
Sinto-me capaz de conquistar o Mundo e de lutar
contra todos os inimigos… De vencer todas as batalhas!
No entanto, reconheço-me tão pequenina e frágil
perante tanta beleza e tamanha paz!

 
Lurdes Breda

in livro “Asas de vento e sal”, página 63, edições Mar da Palavra, Coimbra, 2005.    

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Epiderme de uma partida

 
"Subúrbio", de João Moreira, 30*45, óleo s/tela, 1997.
- Colecção Particular -
 

Intervenho no sentir
Que me interioriza a pele
Na sua ínfima morada

Estabeleço coordenadas
De perspectivas diversas
Para discernir sozinho

Não consigo mais fugir
De tudo o que me repele
Por tanta fuga esgotada

Pelas vias engalanadas
De ramificações dispersas
Com efeitos em desalinho

Uma vez mais vou partir
Muno-me do fatídico gel
Para tratar a ferida sarada

Esqueço as horas passadas
E deixo de pedir meças
À derme do meu caminho

António MR Martins

No afago do vento






26 - Clara Maria Barata




 
 
 
 
A luz agita-se
reflecte-se nas asas das gaivotas
que sonham novos horizontes
no topo das falésias

o mar veste-se de verde
para celebrar o dia
e os teus olhos
onde a madrugada acorda
e a manhã se deslumbra

esperar-te
reconhecer-te
amar-te
é tudo o que me resta
e isso basta

quando os teus olhos
se alongarem na distância
com eles seguirei
no afago do vento.

 
Clara Maria Barata

in livro “O sol disse-me que amanhã acorda cedo”, página 51, edições Temas Originais, Coimbra, 2012.