sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Estreitos perfilados

 
Foshan (China), by Gonçalo Lobo Pinheiro.


Num lapso ilusório
Se estabeleceu o perímetro
Da referência negada
Pelo apelo da negação
Onde medeia a cicatriz
Da ferida ora sarada

Há um mito envolvente
Relatado desde o início
Em que a coisa se processou

Nada mais resta
Neste caminhar hirto e firme
Na poeira da incoerência

Se perfilam as ideias
Se empolgam atitudes
Se experimentam casualidades

Mas tudo se mantém perfilado
No estreito da amargura
Sem solução estável
E perspectivas futuras

É o fim da realidade
Ou a certeza final

 
António MR Martins

Minha participação na 3ª Antologia "Contemporary Literary Horizon" - 2012


"UNA NUEVA ANTOLOGIA DE HLC / A NEW CLH ANTHOLOGY"

http://contemporaryhorizon.blogspot.pt/2012/12/una-nueva-antologia-de-hlc-new-clh.html

Uma relevante e agradável notícia: A minha participação na 3ª. Antologia "Contemporary Literary Horizon", uma publicação internacional, com origem na Roménia.   
 
 

QUE SABES TU DA SAUDADE

                                                                                  
                                                                                                           
36 - Angelina Andrade


Que sabes tu da saudade
dos dias que não vivi
das lanças que me rasgaram
das mãos com que me cerzi
Que sabes da montanha cinzenta
ou meu corpo mercenário
se é meu coração que sangra
nos espinhos que me enterraram.
Meu corpo, ah esse, eu sossego
impondo a mim mesma o vazio
uma noite sem estrelas
um lençol branco e frio.
Meu coração, esse sangra
na dor que em mim se deita
tulipa que abriu e morreu
nesta montanha cinzenta.
Se os pássaros desfalecem
tolhidos e sem vontade
não me peças mais palavras
nada sabes de saudade

Angelina Andrade

in livro “Nas Asas de Simorgh”, página 32, edições Temas Originais, Coimbra, 2012.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Piso inerte

 
Algures em Ansião


Calcorreado o sentido
Do firme desiderato
Nada cambiou

Apenas uma ave sorri
Com seu animado canto
Entre as folhagens da árvore

Já o desânimo se alinhou
Em pedaços de tristeza

Vêem-se as nuvens tocar o céu
Em carícias do momento
Num ensaio dos mais belos

Metamorfose da natureza
Em caprichos de outra índole
Mas valiosos em conceitos

Há um resto de nós
Em toda esta mudança

 
António MR Martins

passeando na neblina (excerto)




   35 - José Félix






8

De repente
descobrimo-nos velhos.

Olhamos para a margem do rio:
as árvores, as ervas são diferentes.

A água do rio não é igual
embora tenha a mesma transparência.

 
9

Um rosto jovem
alegra o coração da tarde.

Ele não sabe que uma ruga diz
o tempo que passou.

Só se ouve o eco dos pássaros.

 
10

Há no fim do caminho
uma árvore velha.

No galho o corvo
sossega o voo.

Um bando de pássaros
corta a neblina.

 
José Félix

in livro “Vagabundagem” (Um tributo ao poeta chinês Han Shan), página 26, 27 e 28, edições Temas Originais, Coimbra, 2011.

Han-Shan, poeta chinês que viveu provavelmente no século VII. O seu nome está associado ao budismo Chan (Zen em japonês) sendo-lhe atribuídos 311 poemas. Foi dado a conhecer no Ocidente através de poetas da Beat Generation, nos anos 50 (do livro “Vagabundagem”).


 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Salpicos de vidas

 
Imagem da net, em: noivaanasix.blogspot.com


Um olhar algo sedutor
perante palavra de mel
sorriso galanteador
urde gesto alvo cruel

Faz pedido a preceito
num simples estender de mão
logo ficou sem ter jeito
na melindre situação

Coloca anel no dedo
ao rubro de seus afagos
contando mais um segredo
como cacho de seus bagos

Num namoro de precisão
o seu mútuo conhecer
esqueceu a indecisão
para todo o seu viver

Raiar de junção futura
numa nova aliança
na vida tudo perdura
ante a raiz criança

Passagem vinda do tempo
contagem de muita vida
entre tanto contratempo
e tanta coisa perdida

Depois tudo desenrola
no avanço da idade
a vida é a escola
que traz a felicidade

Seguem aos filhos os netos
e ainda outros virão
e os segredos secretos
são agora imensidão

Eis então o fim da linha
que todos temos na sina
mas que ninguém adivinha
quando tudo termina

 
António MR Martins

5 – Revestimento








34 - Vicente Ferreira da Silva






no retiro das semibreves,
sou banhado pelos raios de luz
que serpenteiam savanas roxas.

onde o verbo inexprimível
é visão concretizada
no palpável das espirais da aura.

tudo conflui na melodia
dos sentidos cardeais
e nos interstícios das partituras vazias.

a coesão das partículas estremece
e a rapidez dos electrões adormece.

fractais e outras ondas
constituem-se renovadas.

e expurgam-se as falências humanas,
essas pequenas imanências
que estruturam o âmbito celeste.

 
Vicente Ferreira da Silva

in livro “Interlúdios da Certeza”, página 13, edições Temas Originais, Porto, 2009.  

 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Morte súbita

 
Imagem: "deserto-2"
Foto da net, em: fotosbonitas.com.br


E os cálidos padrões da incongruência desvendaram a morte súbita, como se o ultimar fosse capacidade inerente ao seu desiderato. À revelia de tanta parcimónia nos alvejam os passos da resolução, tenebrosamente, coibindo-nos dos diferentes alcances. Ficam lampejos inconsequentes, sem a força e a valência para outros meios, neste constante mutilar coercível em que o codilhar ensombra cada réstia de esperança. As raízes incansáveis, e não manobráveis, assumem o apodo subsequente a tanta sangria desenfreada no consumar da farta execução inabalável. Os colatários são sempre os mesmos e o prejuízo cada vez se torna mais evidente para quem sobra destas nódoas do infortúnio. Aquém dos condimentos e além das fraquezas fica o centro das virtudes que jamais existem ou são pretexto de omissão nos devaneios intensos, e bem estruturados, dos seus mentores. Nada obsta a este desenrolar pecaminoso que afecta a maior parte dos seres. Tudo parece uma travessia no deserto, mesmo para quem nunca lá esteve, como soía dizer-se.

 
António MR Martins

17.






33 - Jorge Vicente



 

lá longe, uma cidade de barro
é apenas uma outra cidade –
cidade sem portas e janelas,
postigos de madeira que desalmam
a carícia dos homens sem corpo.
 
nada vive nos homens que não
seja escrito pelo cordão matricial
da carne – a vida é apenas o
ajuntamento dos pássaros na cidade
branca, com homens de barro a dormir
e a jurar solenemente pelo deus das
flores.
 
o teu sorriso é todo o meu alentejo
e a tua voz de barro é apenas minha
- a saliva de pele a crescer no
trabalho ancestral do oleiro.

 
Jorge Vicente

in livro “Hierofania dos Dedos”,  página 21, edições Temas Originais, Coimbra, 2009.

 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

esvoaçar perdido

 
"O infinito aqui ao lado..."
Instituto Politécnico de Macau, by Gonçalo Lobo Pinheiro


embicou
para aquele lugar

impensadamente

sentiu
a solidão
depois o perecer

tornou moribundo
seu ser

tentou mover as asas
sem sentido

um esvoaçar perdido

foi seu último gesto

 
António MR Martins

CLARIM DE GUERRA





32 - Filipe Antunes dos Santos


 
 





Se os desgostos que a vida nos amarga
são gostos na mesa de um coitado;
se a miséria com euros só se alarga
na reforma do pão esmigalhado,…
eu serei, nesta praia lusitana,
o senhor do meu dia, programado,
revoltado sete dias por semana.

Cada pobre que ainda é ao sol-posto,
siga a tempo o rufar dos tambores;
cada pobre, por o ser não perca o gosto
do que vai para a mesa dos senhores;
cada pobre que come em Agosto
a lampreia-sardinha – dois sabores,
escute a tempo o bélico clarim;

Um dia,…
Eu sei que há sempre um dia!
Se quiseres,
hoje é o teu dia!

 
Filipe Antunes dos Santos

in livro “Respiração Poética pelo Natal”, página 28, edições Temas Originais, Coimbra, 2011.

 

domingo, 6 de janeiro de 2013

Grãos de conformação

 
Templo de A-Má, em Macau.
Foto de Gonçalo Lobo Pinheiro.


Na surdez inventada, pelo enraizar de conceitos exasperantes, se toldou a consistência de um silêncio amargo, sem pejo de qualquer condição análoga à intermitência. O ruído não se conforma pelo esquecimento a que foi consignado, nos parâmetros da incoerência e no estreito da inoperância. Eis que se sentem os rasgos dos pruridos aleatórios no culminar das questões pendentes. Tudo se envolve numa batalha entre a palavra e a branca, como escorreito discernir provocador de cada desenlace. Tudo o que ali sobra não terá, jamais, a relevância de outrora. Ficam os palpites de circunstância.

 
António MR Martins

HÁ UM POEMA...





31 - José Luís Outono







Há um poema na minha memória
Nas cruzadas de parágrafos sem estória
Onde fantasmas doces, atrevidos e soltos
Amigam o leito casulo em desejo envoltos!

Há um poema na minha fiel obediência
Feito de mares e falésias em decadência
Nos olhares que procuro e não entendo
Nas voltas das voltas que tombam… sendo.

Resta-me o desabafo nestes trilhos de papel
Fragrância amiga, por vezes amarga razão
Sono perdido nos luares de lutas de ébrio corcel

Dicionário sem significados de procura em vão
Cafeínas repetidas em chávenas carentes de mel
E o amor…esse amar que nunca passou do portão!

 
José Luís Outono

in livro “Da janela do meu (a)Mar”, página 42, edições vieira da silva, Lisboa, 2011.

 

sábado, 5 de janeiro de 2013

Acolhimento


Kaiping (China), by Gonçalo Lobo Pinheiro.


No seio
Onde se fecunda
A recepção
Os braços abertos
Da casa
 
Na porta a entrada
Onde se acolhe
A virtude
De todos os sentidos

A saída
Será uma escolha
Somente

António MR Martins

(queria) um poema eterno





30 - Jessica Neves





 
 
Queria-te comigo num poema eterno
Bronzeado ao sol
Em que a praia da ilha
Se desabotoasse sem pressa
E as conchas de fogo
Testemunhassem o beijo (a) nu
Naufragando o desejo em alto mar
 
 
Queria-te comigo num poema
Sem tempo
Abraçado sem metáforas
Sem chuva nem vento
(Só) um poema
Eterno
Contigo!...

 
Jessica Neves

in livro “(Sem) Papel e Caneta, (Com) Alma e Coração”, página 54, edições Chiado Editora, 2012.