terça-feira, 15 de janeiro de 2013

À LUZ DA BOCA






40 - Joaquim Monteiro







A luz insinua-se como um pássaro
Voando sobre as palavras ausentes
Juntando no voo as partículas do silêncio.

Lentamente procura o verde o corpo presente
À distância dum leve bater de asas

E a luz brilha por entre as fendas verdes
Como um sopro muito íntimo
Movimentando as ancas da mulher jovem
Como dança muito suave sobre pétalas.

O aroma do pão fresco ilumina os sentidos
Abre os poros da jovem ave pousada
No parapeito do desejo floral.

Todo o mel se derrama à luz da boca
A claridade desinibe a pele mais tímida
E a manhã começa como se o espaço
Ouvisse o rumor das abelhas no sangue.

 
Joaquim Monteiro

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Quando

 
Lituânia, by Gonçalo Lobo Pinheiro.


Quando uma flor desperta
Pelo canteiro do teu olhar
É como janela aberta
Podendo o mundo abraçar

Quando teu sorriso mina
Por entre a força do vento
Logo tudo se contamina
No brilho de tanto provento

Quando tua voz se revela
Por entre colinas e montes
Surge teu cheiro a canela
Entre todos os horizontes

Quando abraçar consiste
De um apertar consolador
Tudo pela vida resiste
Desanuviando tanta dor

Quando segredo sonega
Pela origem do seu valor
Será modelo estratega
Ou singelo gesto de amor

Quando ficamos entre nós
Pelo mais sublimado sentir
Vemos o rio indo p’ra foz
Salpicos de chegar e partir

Quando ficamos serenos
Por essa foz que nos acolhe
Muitas vezes nos entretemos
Alheios ao frio que nos tolhe

Se adormeces a meu lado
E ficas dormindo sonhando
Em noite de céu estrelado
Num sonho que dura… Quando?!...

 
António MR Martins

ANTES DA TEMPESTADE





39 - Joaquim Alves







Entrei por estes
caminhos afáveis

sílaba a sílaba
antes de haver alfabeto

ou conhecer todas
as notas musicais

entrei nos caminhos da alegria
antes de adivinhar
a tempestade

e vez mais te juro
sem jurar querer

prometi encontrar-te
no caminho

 
Joaquim Alves


domingo, 13 de janeiro de 2013

Pertinaz desígnio

 
Imagem da net, em: simeylopes.blogspot.com
"Entre espelhoe e janelas"



reparo em ti
pela fresta
da janela semiaberta

fixo-me
nessa visão
real e arrebatadora

não há palavras
que decorem teu semblante
nem a aragem descoberta

interiorizei
aquela talvez miragem
ou paisagem sonhadora

e assim te fixei
mas nunca te direi


António MR Martins

ESPERA, ESTOU-TE AMANDO!...





38 - Acácio Costa








Esse teu olhar, azul estrelado
Com que tu me fitaste, de relance,
Pareceu-me de alguém apaixonado
No mais querido e forte romance.

Meus olhos fecharam-se, por momentos,
E partiram, partiram, procurando
Por entre etéreos e cálidos sentimentos,
Vendo-te nua, sempre desejando.

Puxei do lenço branco que tinha à mão
Gritei umas palavras, gaguejando,
Sentindo queimarem no meu coração!...

Corri para ti, sempre te chamando,
Gritando bem alto e com emoção:
- Espera, amor, eu estou-te amando!...

 
© Acácio Costa

sábado, 12 de janeiro de 2013

Ao correr das águas

 
Rio Ceira, by Gonçalo Lobo Pinheiro.


Na redundância daquele açude
impera a sôfrega imprudência
entre as suas espumosas águas

As cascatas ali se espelham
em preâmbulos nostálgicos
e ânsias salivantes
num pleno contraste efémero
por onde caminham as tendências

O leito inconsolável
alberga a artimanha da corrente
num percurso flamejante

Naquele açude
se ultima tanta filtragem
onde os detritos se desconsolam
pelos conceitos da imensidão

A água
essa segue correndo

Até que possa fazê-lo

 
António MR Martins

Sonho



37 - José António Ribeiro





Estas águas azuis
Como o azul do céu imenso
Na calma e no silêncio
Águas em corpo de mulher
No sonho de quem souber
De beleza acetinada
Para sempre amada
Águas do azul do mar
Para sempre sonhar
O sonho e a fantasia
Para cantar a poesia

 
José António Ribeiro

in livro “A vida o amor e o poema”, Edições Vieira da Silva, Lisboa, 2011.

 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Estreitos perfilados

 
Foshan (China), by Gonçalo Lobo Pinheiro.


Num lapso ilusório
Se estabeleceu o perímetro
Da referência negada
Pelo apelo da negação
Onde medeia a cicatriz
Da ferida ora sarada

Há um mito envolvente
Relatado desde o início
Em que a coisa se processou

Nada mais resta
Neste caminhar hirto e firme
Na poeira da incoerência

Se perfilam as ideias
Se empolgam atitudes
Se experimentam casualidades

Mas tudo se mantém perfilado
No estreito da amargura
Sem solução estável
E perspectivas futuras

É o fim da realidade
Ou a certeza final

 
António MR Martins

Minha participação na 3ª Antologia "Contemporary Literary Horizon" - 2012


"UNA NUEVA ANTOLOGIA DE HLC / A NEW CLH ANTHOLOGY"

http://contemporaryhorizon.blogspot.pt/2012/12/una-nueva-antologia-de-hlc-new-clh.html

Uma relevante e agradável notícia: A minha participação na 3ª. Antologia "Contemporary Literary Horizon", uma publicação internacional, com origem na Roménia.   
 
 

QUE SABES TU DA SAUDADE

                                                                                  
                                                                                                           
36 - Angelina Andrade


Que sabes tu da saudade
dos dias que não vivi
das lanças que me rasgaram
das mãos com que me cerzi
Que sabes da montanha cinzenta
ou meu corpo mercenário
se é meu coração que sangra
nos espinhos que me enterraram.
Meu corpo, ah esse, eu sossego
impondo a mim mesma o vazio
uma noite sem estrelas
um lençol branco e frio.
Meu coração, esse sangra
na dor que em mim se deita
tulipa que abriu e morreu
nesta montanha cinzenta.
Se os pássaros desfalecem
tolhidos e sem vontade
não me peças mais palavras
nada sabes de saudade

Angelina Andrade

in livro “Nas Asas de Simorgh”, página 32, edições Temas Originais, Coimbra, 2012.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Piso inerte

 
Algures em Ansião


Calcorreado o sentido
Do firme desiderato
Nada cambiou

Apenas uma ave sorri
Com seu animado canto
Entre as folhagens da árvore

Já o desânimo se alinhou
Em pedaços de tristeza

Vêem-se as nuvens tocar o céu
Em carícias do momento
Num ensaio dos mais belos

Metamorfose da natureza
Em caprichos de outra índole
Mas valiosos em conceitos

Há um resto de nós
Em toda esta mudança

 
António MR Martins

passeando na neblina (excerto)




   35 - José Félix






8

De repente
descobrimo-nos velhos.

Olhamos para a margem do rio:
as árvores, as ervas são diferentes.

A água do rio não é igual
embora tenha a mesma transparência.

 
9

Um rosto jovem
alegra o coração da tarde.

Ele não sabe que uma ruga diz
o tempo que passou.

Só se ouve o eco dos pássaros.

 
10

Há no fim do caminho
uma árvore velha.

No galho o corvo
sossega o voo.

Um bando de pássaros
corta a neblina.

 
José Félix

in livro “Vagabundagem” (Um tributo ao poeta chinês Han Shan), página 26, 27 e 28, edições Temas Originais, Coimbra, 2011.

Han-Shan, poeta chinês que viveu provavelmente no século VII. O seu nome está associado ao budismo Chan (Zen em japonês) sendo-lhe atribuídos 311 poemas. Foi dado a conhecer no Ocidente através de poetas da Beat Generation, nos anos 50 (do livro “Vagabundagem”).


 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Salpicos de vidas

 
Imagem da net, em: noivaanasix.blogspot.com


Um olhar algo sedutor
perante palavra de mel
sorriso galanteador
urde gesto alvo cruel

Faz pedido a preceito
num simples estender de mão
logo ficou sem ter jeito
na melindre situação

Coloca anel no dedo
ao rubro de seus afagos
contando mais um segredo
como cacho de seus bagos

Num namoro de precisão
o seu mútuo conhecer
esqueceu a indecisão
para todo o seu viver

Raiar de junção futura
numa nova aliança
na vida tudo perdura
ante a raiz criança

Passagem vinda do tempo
contagem de muita vida
entre tanto contratempo
e tanta coisa perdida

Depois tudo desenrola
no avanço da idade
a vida é a escola
que traz a felicidade

Seguem aos filhos os netos
e ainda outros virão
e os segredos secretos
são agora imensidão

Eis então o fim da linha
que todos temos na sina
mas que ninguém adivinha
quando tudo termina

 
António MR Martins

5 – Revestimento








34 - Vicente Ferreira da Silva






no retiro das semibreves,
sou banhado pelos raios de luz
que serpenteiam savanas roxas.

onde o verbo inexprimível
é visão concretizada
no palpável das espirais da aura.

tudo conflui na melodia
dos sentidos cardeais
e nos interstícios das partituras vazias.

a coesão das partículas estremece
e a rapidez dos electrões adormece.

fractais e outras ondas
constituem-se renovadas.

e expurgam-se as falências humanas,
essas pequenas imanências
que estruturam o âmbito celeste.

 
Vicente Ferreira da Silva

in livro “Interlúdios da Certeza”, página 13, edições Temas Originais, Porto, 2009.  

 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Morte súbita

 
Imagem: "deserto-2"
Foto da net, em: fotosbonitas.com.br


E os cálidos padrões da incongruência desvendaram a morte súbita, como se o ultimar fosse capacidade inerente ao seu desiderato. À revelia de tanta parcimónia nos alvejam os passos da resolução, tenebrosamente, coibindo-nos dos diferentes alcances. Ficam lampejos inconsequentes, sem a força e a valência para outros meios, neste constante mutilar coercível em que o codilhar ensombra cada réstia de esperança. As raízes incansáveis, e não manobráveis, assumem o apodo subsequente a tanta sangria desenfreada no consumar da farta execução inabalável. Os colatários são sempre os mesmos e o prejuízo cada vez se torna mais evidente para quem sobra destas nódoas do infortúnio. Aquém dos condimentos e além das fraquezas fica o centro das virtudes que jamais existem ou são pretexto de omissão nos devaneios intensos, e bem estruturados, dos seus mentores. Nada obsta a este desenrolar pecaminoso que afecta a maior parte dos seres. Tudo parece uma travessia no deserto, mesmo para quem nunca lá esteve, como soía dizer-se.

 
António MR Martins