sábado, 16 de fevereiro de 2013

SACERDOTE



66 - Álvaro Alves de Faria







Quando eu pensei em ser padre,
Deus não precisava ser temido por ninguém.

Depois desisti,
sem saber exatamente porquê.

A freira que ia casar-se comigo se matou
numa sexta-feira da Semana Santa.

Joguei então minha batina no fogo
que também me consumiu.

Então virei santo,
mas ainda não fiz nenhum milagre,
tenho muito a aprender.

 
Álvaro Alves de Faria

in livro “Três Sentimentos em Idanha e Outros Poemas Portugueses”, página 47, edições Temas Originais, Coimbra, 2011.
 
 

marginalidades

 
Templo de A-Má (Macau), by Gonçalo Lobo Pinheiro.

a cada pausa
da contemplação
a mente filtra ideias

nada termina
por este lado
pelo outro
tudo é incógnita

na pausa
da contemplação
quase tudo se discerne
pelos caminhos
em que a mente ousa

há um limite
para permanecer
na ilimitada
conjugação
de uma eternidade sonhada

 
António MR Martins

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Participação na iniciativa do grupo "Jardim de Poesia", sobre o Dia de S. Valentim, no facebook

 
Capa do Caderno "Festival de Poesias de Amor",
do Jardim de Poesia, no facebook
relativo a uma iniciativa da administração do grupo
referente ao Dia de S- Valentim, 14 de Fevereiro de 2013.

Participei nesta iniciativa com o poema "Salpicos de ti", que ficou em 6º lugar, e fui convidado pela administração do grupo "Jardim de Poesia", para elaborar o prefácio deste caderno de 60 páginas, cujo conteúdo integra todos os poemas participantes. O poema vencedor foi da autoria de Clara Almeida (poema 7).
 
O caderno pode ser consultado, na sua totalidade, no seguinte endereço:
 
De seguida, o poema com que participei:
 
 
12 - Salpicos de ti
 
Sinto o teu cheiro perfume
penetrando o meu semblante
desafio por novo lume
neste caminhar por diante
 
em êxtase que se modela
entre sentidos sonhadores
como quem está à janela
a descobrir os seus amores
 
um sorriso que desemboca
num afago em gentileza
por um beijo em tua boca
é o melhor da natureza
 
saúdo-te a qualquer hora
neste tempo que é o nosso
tudo de ti me enamora
fragrância cheiro colosso
 
a tua tez tão carinhosa
nos olhares por entre sinais
tua simpatia generosa
assim não há outras iguais
 
alto rubor ou cabisbaixo
perante olhar mais sedutor
em ti todo eu me encaixo
meu sentido e grande amor
 
António MR Martins
 
E o prefácio que escrevi:
Prefácio
 
O amor foi, é e será sempre um tema inspirador e interminável na sua abordagem, seja em que contexto for.
Tal, repercutiu-se na iniciativa, ora finda, da administração do grupo “Jardim de Poesia”, com residência no facebook, relativamente ao concurso de poemas de amor alusivos ao Dia de S. Valentim, mais conhecido por dia dos namorados, denominado por “Festival de Poesia de Amor”. 
Foram alguns, ou algumas, que responderam nesse propósito, as tais “flores” deste jardim intenso, aromático e colorido, onde todos os dias interagem inúmeros autores e suas palavras poéticas, numa singular partilha, sem qualquer interesse que não seja esse mesmo: partilhar os seus textos.
Não há dúvidas que, de certo modo, esta aposta acicatou vários membros deste grupo que se predispuseram a concorrer e a dar azo à sua inspiração romântica. Depois, terminado o prazo de envio dos poemas, cada um dos participantes votou em três dos trabalhos inscritos, fazendo-o pela ordem do seu próprio gosto, ou seja do 1º para o 3º lugar, terminando esse período de escolha no dia 10 de Fevereiro. Dos quarenta e poucos poemas tidos como devidamente inscritos pelo exercício de escolha dos seus autores, em relação ao possível vencedor, chegou-se à conclusão que o trabalho vencedor é o da autoria da “flor” Clara Almeida, que ganhou a oportunidade de usufruir de um jantar romântico no restaurante “Mário 100 Espinhas”, patrocinador desta iniciativa.
É sempre difícil que as decisões finais agradem a todos, como é óbvio, até pelo modo como tudo se processa. Só que quem organiza tem de decidir e quem participa, tem-se isso por princípio, é porque concorda com as inerentes regras do jogo.
Neste eclodir de mais um prémio da administração do “Jardim de Poesia”, que se vem mantendo deveras criativa, temos de apresentar as nossas felicitações por mais este passatempo que fez despoletar o interesse de vários dos seus membros, aguardando que outras situações semelhantes possam surgir no futuro.  
Quanto à Clara Almeida, os meus parabéns por este êxito, penso que os mesmos serão generalizados, relativamente a todos os membros do grupo. Julgo, com efeito, que foi feita a devida justiça.
Agradeço o convite que me foi remetido para dirigir algumas palavras sobre este singelo, mas significativo, concurso, com um abraço de admiração e amizade para com a administração deste belo jardim.
 
Viva a poesia!!!
 
António MR Martins
 

O Homem da Rua








65 - Betha M. Costa







O homem que caminha na rua
Tem na pele dobraduras de rugas
Queimaduras que o tempo lhe deixou…

No corpo enfraquecido e encurvado
O peso dos anos sobre a coluna
Também carrega a vontade de viver...

Seus olhos experientes e altivos e vivazes
Ainda fechados enxergam mais longe
Que lhe permitem o azul das cataratas...

Arrasta-se com passos curtos e lentos
Por que nessa vida já correu demais
E agora já não adianta ter pressa...

O homem que caminha na rua
É hoje chamado velho caduco
Por que caducou a paciência dos jovens.

Betha M. Costa
 
 

sonhos e magia

 
Imagem da net, em: www.euviali.com
 

oiço
o estalar da caruma
pisada pelos passos teus
à chegada da lua
na sua fase companheira

sobressai o semblante
em que assentas
teu corpo
perante deslumbrante luar
que te ilumina a fronte

na noite
a plataforma do entendimento
na mistura dos sentidos
pelo cheiro
que os provoca

sorris
pertinente e sedutora
entre a magia que vem dos céus
e na aureola que é tua
numa imagem derradeira
retenho-me caminhante
no trilho me acalentas
rastreio
de um pleno brindar
ao longínquo horizonte

em ti
poderoso elemento
para um abraço contido
e um afago matreiro
para o prazer que se evoca
 
a caruma se desprende
a lua nos observa
o horizonte não se entende
e o luar nos reserva

sublimam-se tantos travos
o suor nos sacia
no beijo das descobertas
que nos eleva o rubor

fantasia de um sonho
na magia de uma noite

 
António MR Martins

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O nosso mar





64 - mariam








Murmúrios ondas
No prazer do sentir
Se espraiam
Por todos os cantos de mim
Quando em silêncio
Te olho assim
A rebentar de vida
Líquido e puro
Sublime
É a forma de te dares
Enleio
É o jeito de te receber
Amor
Nostrum mare aeternum

mariam

in livro “Poetar Contemporâneo”, volume II, página 117, edições vieira da silva, Lisboa, Maio de 2012.
 
 

A irrealidade de um grito plural

 
Imagem da net, em: www.edsonsombra.com.br


a dois tempos
mil vozes
em sentido único

a outros dois tempos
outras mil virão

na adição
dos tempos
milhares serão

multiplicando
tempos e tempos
elas serão milhões

até que
num tempo só
todas as vozes
se ouvirão em uníssono
num enorme grito
uno e pleno

 
António MR Martins

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O poema é filho da puta




63 - José Alberto Valente (Jaber)







O poema não tem morada,
nas ruas onde pernoita
as sombras esperam a luz que lhes falta,
respiram o luar e soletram às estrelas.
O poema é filho da palavra,
mulher feita e oferecida
de faca na liga e palavrão fácil,
anda de eira em beira,
orgulha-se do flanco sinuoso
que oferece impudica
ao gume de um ventre entumecido.
O poema existe desde sempre
na tragédia do ovo
que despenca do frágil ninho.
Na criança parida nas ruinas de uma bomba.
Na gargalhada da puta de esquina,
no gorjeio infantil das letras
soletradas pela primeira vez.
O poema é sarcástico,
mau até
no trinar fogoso de uma metralha
que leva a morte e a dor,
vadio na voz do fadista
e dançarino nas voltas de um tango.
O poema é a flor que te ofereço,
a voz que te canta,
nasce nos lábios que te beijam
e esmorece feliz na boca quente que me inspira.
O poema és tu, mulher.


José Alberto Valente  (Jaber)



Sinceridade

 
Imagem da net.
 

sincero o momento
da verdade

sincero o silêncio
da resposta

sincera a feição
da discórdia

sincera a palavra
do verso

sincero o abraço
da amizade

sincero o beijo
do amor

sincero sou
quando me tens
aqui

 
António MR Martins

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

DE MIM ME PERDI







62 - Paxiano Pacheco








Fui sabendo de mim
no mais simples gesto do meu ser
Na mais forte ondulação da enchente
No suave flamejar duma fogueira
E nos elos fortes desta corrente

Se me perdi se me encontrei
Se de mim me esqueci
E vivi apenas para sonhar
Foi para me sentir presente
No espectro da tua mente
Ou na fímbria do meu olhar

Porém, de mim fui encontrando
Restos dum verso sem rima
Sons, sílabas e fonemas
E o saibo que se desprende
Do rasto das minhas penas

Nunca um verso se perdeu
No longo olhar de quem o viveu

 
Paxiano Pacheco
 
 

Poema utopicamente simples

 
Zona envolvente do Rio Nabão, Ansião.
 


Da minha janela
vislumbro
uma paisagem deslumbrante

Vejo flores amarelas
brancas e vermelhas

Vejo borboletas
poisarem nelas
entre diversas abelhas

Vejo tantos pássaros
cantando quase de cor
melodias de encantar

Vejo as árvores
um horizonte sedutor
numa beleza de espantar

Vejo o sorriso que é teu
transferido ao vidro seu

Vejo o mundo
coberto num véu
quando da minha janela
olho para o céu

 
António MR Martins

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

MODINHA DE CRISTIANE





61 - Julio Saraiva







enquanto nane dorme
minha canção enlouquece
no colo do meu poema
onde a minha poesia padece
cansada de ser poesia
e sem querer acontece

no colo de uma meia-noite
num ai sem muito estremido
veio ao mundo cris - cristiane
e por mais que a tristeza me acoite
não vou rimar esta noite
com a palavra açoite

me dêem por deus uma rima
pra que eu bem mais me engane
minha poesia começa onde termina
em cris flor - cristiane
que é toda a minha poesia

 
Julio Saraiva


12.

 
Xangai (China), by Gonçalo Lobo Pinheiro.



Eis a apoteose da contemplação

Onde a plácida paisagem
É luxúria da alma observadora
Pela vista que se deslumbra
No longínquo firmamento

Aquela é uma imagem
Que a mente fixará
Para cada eternidade vivida

António MR Martins

domingo, 10 de fevereiro de 2013

CORAGEM




60 - Joel Lira






Se fores capaz, se tiveres coragem, então faz:
Diz-me quanto apreço, quanta alegria me sentes,
quando me lês e me ouves falar de paz,
embora estejamos presentes, mas ausentes!?

Se não estiveres amordaça, di-lo, então,
Expressa aqui o sentimento de quem te chama.
Fá-lo, escreve o que te vai no coração
sem rodeios. Não te cai a nódoa na lama!

Não há papel que te impeça de mo dizer,
Nem a lei que nós sabemos nos incrimina.
O medo, é fruto do corte de uma lamina…

Mas a coragem é filha do verbo querer.
Por isso espalho a prata, ouro da minha mina,
Já que é na vida que se aprende e se ensina!

 
Joel Lira


A nossa canção


Caetano Veloso, by Gonçalo Lobo Pinheiro - 2004.


Quando a guitarra trina
Pelo preceito do tocador
A música nos ilumina
Num binómio tão encantador

Se a palavra lhe assenta
Naquela melodia cantada
Ouvindo-a logo se tenta
Interiorizar trauteada

Fomenta-se pela sedução
Em emocionados contextos
Ouvindo-se a qualquer hora

Numa radiosa comunhão
Entre vozes, pautas e textos
Que nos fica p’ra vida fora

 
António MR Martins