segunda-feira, 4 de março de 2013

salto apoteótico

 
Nélson Évora, no Campeonato Europeu de Atletismo 2007,
em Milão, by Gonçalo Lobo Pinheiro.


na senda
de novo triunfo
mais parece voar

o atleta e seu trunfo

na demonstração
do valor
salta com competência

o atleta melhor

magnífico
seu ensaio
em salto de encantar

ai atleta dum raio

a apoteose final
em rejubilo seu
sem paralelo

o atleta venceu

 
António MR Martins

domingo, 3 de março de 2013

A imortalidade





81 - David Fernandes








Artes, engenho, mera força
e no entanto a luz
emudecente
como fragmentos de livro
para um léxico incompleto.

Logo a apneia involuntária
assustadora como se aparecesses
mas efémera porque não.

Deste alívio se pressente então possível
uma validade insubmissa
como se o tempo não trespassasse tudo
a ver-se
mas tu nunca chegares.

Caminha-se com ele
mas não há desarranjo nos relógios
ou nas sirenes das fábricas
nem desânimo nas aves que migram.

E no entanto a sombra de tudo
perfeitamente como é de ser:
alfabetos vivos e mortos,
até dicionários sem serventia,
bibliotecas imensas de saber:
um universo de sombras
de perfeitas engrenagens.

 
David Fernandes


rasgado elogio

 
Imagem da net, em: www.ladodocontra.blogspot.com
 

aplauso
incessante
pela prova comprovada

sentido
dominante
na luta pela causa

rigor
estimulante
naquele registo sublime

aguarda
as palavras do avaliador

quase
as sabe de cor

parabéns
foi o melhor

 
António MR Martins

sábado, 2 de março de 2013

Dedos beijados…



80 - Carla Costeira




Pego numa caneta
Envolvo os meus dedos nela
E sinto o início…
Com fim e objectivo descrito.

Escrevo a preto
Palavras redundantes
Que se amam como amantes
Nas camas de pergaminho.

E sinto a caneta na minha pele
Astuta e indelével
Movendo-se entre os meus dedos
Com carícias e desejos.

Gera-se um texto…
Depois dum período de namoro
Com vestígios de tinta como marcas de beijo
Em folha beijada na frente e no verso.

… Dedos beijados…

… por uma caneta de aparo.


Carla Costeira


voada canção

 
Casino Lisboa (Macau), by Gonçalo Lobo Pinheiro.


solta o pelo da venta
na diastema das notas

nesse espaço
das notas soltas
sucumbe
na diacústica dos sons

levitação pela melodia
que intervém
no seu solo

musica suas palavras
no desenvolvimento
do seu interiorizado cântico solto

prossegue no seu caminho
esquecendo a amargura
do dichote

caminha pelo destino
acompanhado
da canção da própria vida

 
António MR Martins

sexta-feira, 1 de março de 2013

O MURO





79 - Maria do Rosário Leal







Preciso de tempo para pensar
num antagonismo mudo.
Por um lado há o que acho
por outro há o que sinto.

E o tempo que tudo sara
será meu amigo surdo
sorri-me naquela esquina
do outro lado do muro.

 
Maria do Rosário Leal

in livro “Entre a escada e o muro”, página 51, edições Temas Originais, Coimbra, 2011.
 
 

tua sede messalina

 
"Reclining Nude" (Jonathan Levine Gallery), by Natalia Fabia.
 

tende teu corpo
a definhar
sem provento

já não te procuram
na demora do teu tempo

teu sentido
de mulher silenciosa
já não gera proveito

jaz
o rosto da tua esperança

o teu sonho
deixou de voar

 
António MR Martins

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Pandemia


 
78 - José-Augusto de Carvalho


Não queirais ler nestes versos
os mundos que vos afligem…
P’los caminhos mais diversos,
haveis de encontrar, dispersos,
mais versos de insana origem.

Versos de amor e de dor,
de sonhos e pesadelos…
Qualquer, seja lá quem for,
mesmo até sem ser doutor,
há-de saber escrevê-los…

Já é uma pandemia
esta ânsia e versejar!...
E, distante, a Poesia,
ah, como ela se arrepia,
sozinha, no seu altar!

José-Augusto de Carvalho

in livro “O Meu Cancioneiro”, página 43, edições Temas Originais, Coimbra, 2009.
 
 


Controlada permanência

 
Tiniguibah (Filipinas), by Gonçalo Lobo Pinheiro.

 
Demoras-te onde se demoram
as raízes das árvores,
mesmo que arrancadas
do seu solo acolhedor.

Demoras-te no conceito
da tua razão
e permaneces
nesse translúcido sentir,
sem atitudes
arremessadoras,
para tanta inexplicável
inveja
que te pune sem mácula.

Demoras-te assim,
nesse teu
correspondente saber,
na perentória
decisão
do teu temporal permanecer.

 
António MR Martins

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

DO VENTRE ATÉ À FOZ






77 - Eufrázio Filipe






Neste chão de aceiros improváveis
movimentaram-se barcos e afectos
sementes que exultam
memórias remos e passos

Ainda hoje este espaço
de fragatas faluas e sapais
é exíguo
para tantas vozes que se erguem
como os pássaros

Neste pomar de águas correntes
ascendem perfumes de revérberos
que alumiam margens
e temporais

do ventre até à foz

 
Eufrázio Filipe

in livro “No Outro Lado do Cais”, página 30, edições Temas Originais, Coimbra, 2011.
 
 

9.

 
Busto de Luís de Camões (Macau), by Gonçalo Lobo Pinheiro.

Há um verso na revolta

E outro na sua dimensão

Onde o poeta exulta

Toda a sua inspiração

 

História se desenvolve

Nas palavras bem atentas

E a areia se dissolve

No mar de tantas tormentas


António MR Martins

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Choro o Mundo





76 - Dina Ventura








Choram as pedras
pelas coisas que não foram.
Choram os caminhos
pelo tempo que não andam.
Choram as árvores
pelo vento que não sentem.
Choram os rios
pelos peixes que morreram.
Choram as aves
pelo ar que lhes tiram.
Choro eu
Por não saber o Tudo que existe,
Por não conseguir saber porque choro,
Por não chorar.
Choro sem lágrimas visíveis.
Choro doloridamente o que perdi.
Choro o que se ausentou de mim.
Choro
sem saber se choro o que devo.

 
Dina Ventura


desespero

 
 

no dissabor
te apoquentas

quase rastejas
pedindo perdão

nada mais há
que consigas alcançar

voar era mais fácil

mas tuas asas
foram cortadas à nascença

 
António MR Martins

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Encontro




75 - Alexandra Bello Patronilho





Encontro-me no jardim da morte,
Onde passeiam as minhas emoções decapitadas…
Onde num esgar de loucura, acreditei que viver era possível.
Encontro-me onde nada existe.
E vejo ao fundo do jardim o escarnio da vida afundando todos os meus sonhos,
Nesse leito perpétuo que alguns chamam mágoa.

Encontro-me num barco naufragado.
Onde navega o que resta de mim
Preâmbulo de uma felicidade anunciada...
Onde no porão moram os restos das tuas verdades,
Onde entre o cheiro fétido das promessas, recolho o que resta de ti,
Um olhar transparente onde quis morar,
Umas mãos onde quis descortinar a minha morada,
Uma boca onde quis ressuscitar… todos os dias!

Encontro-me dentro de mim
Num impossível resto de um querer acreditar que me rasga,
Que se entranha ate as vísceras do meu interior devastado.
Não é laço da corda que ao perder-te me enforca,
Não é perder a vida que me assusta,
É encontrar a morte, acaricia-la e dizer-lhe baixinho…
“ Ainda bem que chegaste! “

 
Alexandra Bello Patronilho


Resquícios da ventura adormecida

 
Aviário de Hong Kong, by Gonçalo Lobo Pinheiro.


Soam bitolas perdidas
Nos rastos da incongruência
Bandeiras do esquecimento

Ultraje compensador
Ultimando outros lavores
Na doença assaz patente
Que invade tantos corpos
Metamorfoseados no tempo

Dissabores de alimento
Onde se secam as sílabas
Em percalços de tanta dor
Por tanto assentimento

Paladares sem outro sabor
Que não sejam amargura
Nesta gesta demais sofrida
Respirando aos soluços
Numa contenção desmedida
Intragável a cada segundo
Onde a espera então suscita
O receio de tanta demora

Jaz o sentido do grito
Num reclamar contínuo e forte
Onde dormem os pruridos
Que nos orientam o norte

Há um afago perdido
No caminhar sem sentido
Na crise que nos atormenta

A solução está escondida
Na luta que não aparece
Neste povo que adormece
Hipnotizado pela alma
E pelas vozes do mundo

E nesta acalmia madura
Rastreio de tantas mágoas
Sua ambição perdura
Sonhando com a liberdade

E esse sonho acontece
No voo da planura
Onde as aves fazem silêncio

 
António MR Martins