quinta-feira, 21 de março de 2013

Une-nos a poesia

 
Imagem da net: Dia Mundial da Poesia - 2013.

 
Uma palavra apertada
outra solta
liberta
uma outra condensada
assume a revolta
desperta

Um verso escondido
nas entrelinhas do texto
outro explícito
dorido
lido noutro contexto

Uma estrofe maldita
outra suave
e bendita
um refrão que irrita
é o entrave
à desdita

Uma quadra de amor
glosada com rubor
uma sextilha pendente
escrita de forma dolente

Um poema livre
nas falas
outro estático
mas poderoso
e a leitura intervalas
num sentido mais airoso

Há um poema intenso
que desbrava horizontes
outro que está propenso
a falar de rios e montes

 
António MR Martins

 
Dia Mundial da Poesia
21 de Março de 2013

quarta-feira, 20 de março de 2013

Implosão






93 - Cristóvão Siano







Talvez nunca como hoje
aos meus olhos
os prédios ruíram
onde pó virou nuvem
a nuvem virará lama
eu serei quase metade
dessa fachada que há em nós
talvez aos meus olhos
hoje como nunca.

Cristóvão Siano
 

As náuseas do novo tempo

 
Lisboa, a minha eterna cidade... (Rua do Carmo),
by Gonçalo Lobo Pinheiro.


Me fogem olhares delirantes
pelos corpos da sofreguidão,
por onde grandes navegantes
rumaram mares da permissão.

Caravelas embandeiradas
a sulcarem as novas rotas,
nessas viagens já passadas
entre pescadas e marmotas.

Todas as terras eram novas,
a quem nunca lá estivera,
escreveram-se tantas trovas
a cada raiar da primavera.

Nesta pequenez tão tacanha
bafejada de mil tormentos,
sua grandeza foi tamanha
por entre vivas e lamentos.

E foram reis e marinheiros
em ondas de tanta bravura,
nas cruzadas os pioneiros
desde o perto à lonjura.

As políticas de antanho,
defeituosas na História,
devolvem ouro e estanho
ao povo na sua memória.

Mas tudo passa num repente,
mesmo numa só liberdade,
pelo signo da nossa gente
se castiga pela verdade.

Ora tudo é bem diferente
nesta nossa realidade,
ficámos tal, tipo pingente,
perdendo… a felicidade.

 
António MR Martins

terça-feira, 19 de março de 2013

aconteces-Me





92 - Cristina Fernandes








aconteces-me
por dentro da verdade eterna
de ternos sossegos – inquietude
quieta neste anoitecer orado
oração coroada dos teus braços
em mim

aconteces-me
do outro lado da dor consentida
reconhecida e consertada
neste desconserto de amar
submergida planície que guardas
em ti

aconteces-me
quando as tuas mãos laçam as minhas
luz no Éter dum bailado azulado
e abrem laços de ternura serena
quando sobrevoamos as margens
em nós

Cristina Fernandes
 
 

Reflexos

 
Guilin (China), by Gonçalo Lobo Pinheiro.


Uma nódoa de dor
Impregna a pele de todas as maleitas

Atrevimentos são proibidos
E a luta retaliada
A todos os destemidos

Os caprichos sobressaem
E as imagens desfocadas
Se relevam em dimensões 3D

Os filtros desta plenitude
Esgotam-se em todos os meios
E a salvação é pura utopia

Adornam-se festividades
Irrelevantes
E os conceitos jorram
Designações metafóricas
A todos os níveis

Tudo roda ao arbítrio
Da classe perturbadora
Da política rude
E limitadora

O artista não inventa
O pintor não imagina
O escultor se lamenta
O músico não atina

E perante tanto traje fantasioso
Limitador
Da encorajadora audácia

Ao poeta
Faltam-lhe as palavras

 
António MR Martins

segunda-feira, 18 de março de 2013

- poema -








91 - Flavio Silver




Ando há dias para te escrever
mas só hoje aquela luz vinda do nada
me entrou no peito como um salmo
e quase desmaiei ao ver que a verdade
é tão certa como o cheiro de uma rosa
sabias que colecciono mortos?
que o meu quarto está repleto de poetas loucos
sinais de vida em cada andor
cometas que sangram e deixam rastos
pelas páginas que vou pisando
e temo Deus porque ainda sou criança
e sou daqueles que chora pelos barcos
confio o futuro aos heróis da banda desenhada.
Ando há dias para te escrever
tenho sonhado com poucas-vergonhas
porque no princípio de mim há
um anarquista de cabeleira verde
de pés enterrado na terra
à espera de sinónimos tão claros
que a Água dá um grito.

Flavio Silver



Vislumbre

 
Kuala Lumpur (Malásia), by Gonçalo Lobo Pinheiro.


Galgam os pruridos
Que ecoam
Nas montanhas
Os manifestos não programados
São descabidos da monotonia
Numa simples visão

Esse olhar
É miragem consentida
Onde o sentido ilusório
Destabiliza
A união de todos os sentidos

Os sonhos misteriosos
São autênticos devaneios
E a urbe desintegra-se
Num paradigma de invenções
Extravagantes
E melancólicas
Entre o tudo e o nada
Nas suas extremidades

Os horizontes
São cada vez mais longínquos
E a sua visão
Ofusca-se
Sem paralelo

 
António MR Martins

domingo, 17 de março de 2013

Felicidade


 
90 - Regina Kreft


Felicidade!
Hoje me apraz dizer que a maior felicidade
É vivenciar a alegria do meu próximo.
É sentir na alma sentidos sentimentos,
Revolvendo cada cantinho do coração em solicitude
Apenas para ver um sorriso, seja lá de quem for.
Felicidade é fazer o bem sem esperar nada,
É regar jardins com gotas de orvalho de puras
Lágrimas e enxergar o sol no brilho dos teus
Olhos! As pessoas são feitas para serem entendidas
E olharmos o seu lado bom, e aquecer sua
Alma com pétalas de rosas, em forma de
Doces e singelas palavras!

Regina Kreft
 
 

Transição

 
Macau, by Gonçalo Lobo Pinheiro.


No paradoxo incongruente
Simularam habilidades
Entre veleidades a prazo
Na ramificação
De perniciosa audácia

Nada ficou incólume
Nesta sujeição ficcionada
Onde tudo apraz apregoar

Os sentidos não se provocam
E a instabilidade
É a guarida da nefasta ambição

Tudo se move em desalinho
E o céu a tudo assiste
Numa contenção
Que um dia explodirá

Disso
Ninguém terá proveito
Perante esta incomum ousadia

 
António MR Martins

sábado, 16 de março de 2013

RESSURREIÇÃO






89 - Rogério do Carmo






Pobre de mim!
Terei de acarretar meus ossos
Até ao fim
O resto dos meus dias
Minhas últimas agonias
Meus últimos destroços!

 Depois outros os acarretarão
Meus ossos deixarão
Entalados dentro do chão
E eles lá ficarão
Adubando tremoços!

 Depois o mundo me esquecerá
E meus ossos me esquecerão!
Mas meus ossos degradantes
A terra vomitará!
E tudo voltará
De novo a ser como dantes!

 Rogério do Carmo
Paris, 29/6/1990

 in livro “Vagas”, página 190, edição de autor, Mafra, Maio de 2008. 
 
 

é tempo



frouxas as intenções
do reparo
de todos os lapsos vigentes

o atenuar
não colide
com o propósito mencionado

as rédeas
do comando
disparam em todas as vertentes
que nunca as errantes

baralham-se
as mentalidades
nesta rigidez inconsequente

tudo germina
no único sentido
do domínio público

o tutano
está chupado
até à sequiosa palidez
de todas as entranhas

os paralelismos
são incomuns
e o vértice
não tem mais volta a dar

 
António MR Martins

sexta-feira, 15 de março de 2013

Eu não moro na Terra

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 12 de Março de 2009






88 - Henrique Pedro









Eu não moro na Terra
Nem no Espaço
Ou no Céu

Moro dentro de mim

Aqui sim
Nasci
Vivo
Morro
Ressuscito
Habito

Daqui parto
À descoberta do Universo
Mergulho no mar
Voo no ar
Procuro descobrir quem sou
Encontrar alguém a quem amar
E assim me encontro

Na Terra não passo de um proscrito
De um condenado à morte

Para onde vim
Destinado a sofrer
A morrer
A tentar melhor sorte

 
Henrique Pedro

in livro “Angústia, Razão e Nada”, página 43, edições Temas Originais, Coimbra, 2009.
 
 

Supremo êxtase

 
 

Ardem as mechas do prazer
Pelo sopro do vento falante
Guindado aos pontos cardiais

No ruído se acrescentam
Os gemidos de circunstância
Pelo arrepio da pele
Sentindo a virilidade presente

No aprumo da consistência
Se arredam todos os males
Ante o supremo sentir dos seres

O atear é concludente
E ao rubro se manifesta
Com toda a sua pujança
Até que todos os poros se dilatem

Depois
Resta o prazer
E o êxtase complementar dos corpos

 
António MR Martins

quarta-feira, 13 de março de 2013

MOMENTOS PRIMAVERIS





87 - Luís da Mota Filipe








Os momentos primaveris…

Ganham vida noutras cores,
Ficam vivos com mais tons,
São tempos de mil amores,
Doce suavidade de sons.

Os momentos primaveris…

Fazem florescer paixões,
Perfumando as nossas vidas,
E dando luz aos corações,
São desejadas e queridas.

Os momentos primaveris…

São de beirais enfeitados,
Com pardais e andorinhas,
E de campos salpicados,
De papoilas vermelhinhas.

Os momentos primaveris…

Enchem canteiros de rosas,
Flores de belezas apreciadas,
Presentes eleitos das moças,
E das almas apaixonadas.

Luís da Mota Filipe

in livro “geoGRAFIA do Silêncio”, edições Edium Editores, 2010.
 
 

33.

 
Sanya, Yalong Bay e Wuzhizhou Island, by Gonçalo Lobo Pinheiro.
 
Nesta Baia embalo
Nas ondas de cada maré
Pela fuga não permitida
 
Meço as palavras
Que ungem a melancolia
Do meu envolvimento
 
Anseio toda a espera
Até ao final permitido
 
Aqui morre o pranto
E renasce a esperança
A cada ondulação
Onde ancoram os meus navios
 
 
António MR Martins