sexta-feira, 29 de março de 2013

É vela esguia






101 - Rosa Maria Anselmo







É vela esguia
alumiando a penumbra
que envolve,
algema
o retiro a que me obrigo.

São lâminas
punhais,
é gume afiado
que mortifica o corpo
desprevenido, quase vencido
caindo desamparado
em solo de amargura!

Dou-me a mão,
ergo-me em esforço,
rejeito-te
expulso-te tão friamente,
que desapareces
no estio da alienação!

 
Rosa Maria Anselmo

in livro “ Sinais do Silêncio”, página 58, edições Papiro Editora, Porto, 2008.
 
 

Cidade vindimada

 
Lisboa, a minha eterna cidade..., by Gonçalo Lobo Pinheiro.

 
Pintam os bagos da felicidade
em cachos de renovada alegria,
nas vinhas fingidas da cidade
entre linhas onde cintila a poesia.

Aloiram-se tantas parras dispersas
num encanto porque tanto se cisma
e as gentes movem-se desconexas
ensaiando uma nova vindima.

Soam os cânticos pelo campo-chão,
as cestas se enchem do futuro vinho
nesta azáfama da compensação.

Da terra lhes descobre o caminho
e à cidade aporta a sedução…
pela noite, se dormem de mansinho.

 
António MR Martins

quinta-feira, 28 de março de 2013

A NÉVOA E EU…




100 - Francisco Valverde Arsénio









Uma leve neblina cai pungente
e penetra a minha alma,
o ar está gélido, ganho asas
e parto na procura das estrelas.

Não pertenço a ninguém
mesmo quando o meu corpo
é abraçado ou cantado.

Sonho-te em cores que não conheço,
e sinto-te nas sombras
que vestem
as paredes escondidas do luar.

És misteriosa como a noite,
sabes a frutos agridoces,
tens os lábios mesclados
e embrulhas os sonhos
na maresia vinda do outro lado do mar.

O entardecer é suave
por cima das nuvens onde vagueio
e a cidade dos murmúrios
desagua entre as pedras
dos muros que a guardam.

Cai uma leve neblina
… e eu ainda voo.

 
© Francisco Valverde Arsénio


O verso de ti

 
Hebao (China), by Gonçalo Lobo Pinheiro.

 
Se espraia de ti a noite decorada
nessa nudez inquietante e desejosa,
em veios duma doçura embriagada,
empolgante e sadicamente majestosa.

Teus lábios sequiosos quase tudo comportam
e teus tímpanos acolhem o silêncio da voz,
trauteando em ritmos que não abortam
a corrida do teu ínfimo rio para a foz.

Sulcas a montanha do entendimento,
aspiras à globalidade do universo
e omites negações do esquecimento.

Ruborizas a cada gesto desconexo
no palpitar de cada sensual fragmento,
onde aguardas que de ti se escreva o verso.

 
António MR Martins

quarta-feira, 27 de março de 2013

Recebe-me inteira




99 - Daniela S. Pereira









Faz de conta, meu amor
Que o mundo parou aqui.

Neste momento,
Que em teus braços entrego
As palavras que trago
No meu olhar.

Faz de conta,
Que o mundo parou
Na aurora que acordou.

Dou-te o meu ser e o meu amor
O meu corpo e o meu ardor.

Recebe-me inteira,
Porque quebrada eu venho
E eu quero-te em mim.

Recebe-me inteira,
Num só gole, num só beijo
E ama-me...

Fecha os olhos,
E ama-me assim...

 
Daniela S. Pereira


Por onde anda o poema



Sentidos versos, onda de ternura,
escritos pela inspiração do autor,
nos relatos de tanta ventura
entre tristeza, alegria e dor.

Oportuna razão do pensamento
desmascarada de forma singela,
correndo risco de deslumbramento
dum simples olhar p’ra lá da janela.

E o poema surge docemente
pelo estio ou no rígido inverno,
genial, ágil e consequente.

Saído de entre o céu ou inferno,
áspero, doce, amargo ou prudente,
do ódio rude ao amor eterno.

 
António MR Martins

terça-feira, 26 de março de 2013

SILÊNCIO


 
98 - Ana Fonseca da Luz


Silencia-se a minha boca
no grave poente que há em mim.
De ti, nada sei
e de mim, tudo o que soube, já esqueci…
Aviva-me a memória, para que não morra, louca,
esta chama que se apaga,
assimetricamente, no meu peito.
Silencia-se a minha alma,
no caudal deste mar,
onde, eterna amante,
silenciosamente, sem ti, me deito…

Magnólia (Ana Fonseca Luz)


natural consentimento

 
 

de fronte de mim
o chão molhado
pelos salpicos de água
insistentemente chovida

na visibilidade
permitida
o céu abrange uma tonalidade
cinzenta
e desse infinito
se continua a expelir chuva
que supera todos espaços do acolhimento

a secura há muito se esfumou
nos tempos
e no remolhado
transbordando ilimitadamente
em toda a linha

nada é como se pretende
e a sujeição
neste caso
tem de ser consentida

 
António MR Martins

segunda-feira, 25 de março de 2013

FOLHAS CAÍDAS




97 - Maria José Lacerda






tronco despido de folhas
folhas soltas e perdidas
sem saberem de seu dono

folhas caídas no Outono
folhas feitas de tristezas
de vividas incertezas
de esperanças já esquecidas
pelo Outono sentidas

folhas que cobrem o corpo
folhas que abrigam em conforto
folhas disfarçando o desgosto
folhas que cobrem o rosto
folhas vinde dar guarida
aconchegar minha vida
dar alento ao meu sentir

vinde fazer-me sorrir
porque me sinto perdida

 
Maria José Lacerda

in livro “Dança de Palavras”, página 25, edições Temas Originais, Coimbra, 2011. 
 
 

No radioso brilhar de teus olhos



Na cor dos teus olhos vejo um espelho
que me traz da luz brilho e esplendor,
retrato passível do novo ou velho
ou de um mero olhar tão sedutor.

Há um castanho proeminente neles
vinculativo à verdade e razão,
na íris que nos retém perante eles
como se estivéssemos presos ao chão.

Sortilégio mágico da natureza
de que rejubilam teus doces recantos
em sintonia com a plena gentileza.

Pelos teus olhos suspiram tantos santos
na afinidade da simples certeza
onde se esmeram tamanhos encantos.

 
António MR Martins

domingo, 24 de março de 2013

[A hora chegou em que o tempo não é tempo]






96 - Lília Tavares







A hora chegou em que o tempo não é tempo, pois é longo
e breve o perfume doce das searas maduras.
Idade dos voos e da fertilidade das abelhas.
No ocre da terra que não é terra, pois é demorado
e curto o tempo que é tempo no teu colo
na espera das tardes esvaziadas de saudade.


 
Lília Tavares

in “PARTO COM OS VENTOS” (a publicar em 2013).
 
 

a más allá de eso que se mueve en un futuro que no suceda



entre los palacios perdidos
si se habían olvidado que las voces
y los pasos extinguidos

siguen siendo las paredes exhibidas
y las ventanas mitad-abiertas

entre la acera descubrieron
si el silencio omite todos
y los enganches de las promesas batidas

siguen siendo las rocas ásperas pasan
y el polvo de tantas estaciones

entre las armaduras guerreras
si están tenidos perdidos tantos cascos
y las espadas del inconformismo

siguen los museos de la nostalgia
y los mensajes de las oficinas de correos

entre los barcos de vela de los recipientes y las fragatas
si los navegadores habían perdido
y el mar de todos los descubrimientos

sigue siendo aguas profundas
y los naufragios abandonados

entre los versos hechos en historia
si las inspiraciones si diluyen
y los papiros del alegría

siguen siendo poemas de los macabros
y la vida sin fieltro

 
António MR Martins

Um dos meus poemas lidos na Rádio Madrid (Espanha), a 23 de Setembro de 2011.

sábado, 23 de março de 2013

SILÊNCIO DE NÓS





95 - Dolores Marques








Um rio quente de lágrimas
Que escorrem no meu corpo
E o céu pincelado das cores
Que o sol deixou
Volta-se para nós

 E os teus olhos clamam por nada

 Um nada que é tudo
Onde existe o mar
Deitado na areia quente
De uma praia deserta
Onde sou eu e és tu

 Em completo silêncio de nós

 Dolores Marques

 in livro “Subtilezas da Alma”, página 33, edições Edium Editores, S. Mamede de Infesta, 2009.

Há um grito por gritar



Gritem as vozes esquecidas do povo
perante tanta contenção e miséria,
para que assim surja algo de novo
além deste governo de tanta léria.

Que se cante Grândola vila morena
ou outra cantiga tão libertadora,
porque a razão do povo ordena:
- Suma a política enganadora.

Não são as gentes do povo culpadas
da enorme dívida nacional,
pelos dinheiros usados nas estradas.

Como este aperto não há igual
e as famílias estão desventradas…
Gritem bem alto: - Levanta-te Portugal!

 
António MR Martins

quinta-feira, 21 de março de 2013

Faço de ti “poesia”





94 - Liliana Jardim







Faço de ti “poesia”, o meu sustento
a minha crença do dia a dia
a minha arma, o meu lamento
o meu gemido, a minha fantasia

Faço de ti, o leito do meu sossego
o vento da minha tempestade
a seiva do meu carinho
no teu corpo versado

Faço de ti a taça de bom vinho
bebido no acto da embriaguez,
nas curvas do meu caminho,
no meu eterno destino

E lá, onde arde a desdita
faço de ti a minha guitarra,
a canção do meu bailado
o traje da minha memória
o meu destemido fado

Faço de ti “poesia” a minha saudade
a minha querença, a minha infinidade

 
Liliana Jardim