sábado, 13 de abril de 2013

Momentos únicos



Pouso
No teu corpo o pensamento
Diluindo
O preceito dessa envolvência

Sem de ti
Ausentar a palavra
Em que se acalentam
Os afagos
Do nosso silêncio

Uma paz intensa
Anuncia a plenitude
Desses únicos momentos

 
António MR Martins

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Rasgos de Pele...




103 - Ana Madureira (AP Madureira)







Perco-me por entre labirintos que TE escrevem
e por entre memórias respiro-TE...

Volto-me pelo avesso
Rasgo a Pele
e Sangro todos os mares que em TI naveguei...
e sabes-me a Sal com aroma das noites quentes...

Em mim mora a lua que cálida se estende nas planícies
libertando perfumes feitos de sol
uivando alcateias onde os lobos são mansos
onde as garras não ferem
onde a dança se compassa ao som do DESEJO!

 
Ana Madureira (AP Madureira)


Retrato de Viriato

 
Imagem de Viriato da net, em: www.ofelino.blogspot.com

 
Grande alma parca em alimento
Boa compleição física e valor,
Foi sempre um autêntico tormento
Para os romanos, um exterminador.

Juntando um grupo de salteadores
E com a sua exímia liderança,
Sem recorrer a outros favores,
Dos Lusitanos mostrou a pujança.

Mas Cepião anulou um contrato
Que com Fábio Máximo estabeleceu
Provocando, então, muito desacato.

E Viriato que a tantos venceu,
Na traição se enredou no ultimato,
E num fugaz ápice tudo se perdeu.

 
António MR Martins

POEMA DA LÍNGUA / POEMA DE LA LENGUA





102 - J. T. Parreira (João Tomaz Parreira)









POEMA DA LÍNGUA

 
A língua do seu amor
sabia a rebuçado, a língua
do seu amor era um perfume
de jardim
para o enxame de abelhas
de seus dentes

A língua do seu amor
atravessava-se
no caminho
até à sua alma.

 

 
POEMA DE LA LENGUA

 
La lengua de su amor
sabía a caramelo, la lengua
de su amor era un perfume
de jardín
para el enjambre de abejas
de sus dientes

La lengua de su amor
se atravesaba
en el camino
hasta su alma.

 
J. T. Parreira (João Tomaz Parreira)

in livro “Encomenda a Stravinsky/Encomienda a Stravinsky”, páginas 58 (português) e 59 (castelhano), edições El Taller del Poeta S.L., Fernando Luis Pérez Poza, Pontevedra, Espanha, 2011.  
 
 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A António Ramos Rosa

 
António Ramos Rosa

 
“Quanto mais viva é a fantasia
Mais se entrega a substância…”,
Tal como Ramos Rosa escrevia
Na “Pátria Soberana” em relevância.

Pela reinvenção da linguagem
Se detém a sua dimensão poética,
Apelo hodierno duma imagem
Num invulgar recurso de estética.

É na contemporaneidade, dos maiores
Poetas pela língua portuguesa,
Em tudo que incendeia a cidade.

Um grande mestre nos pormenores
Numa escrita plena e acesa,
Referencial da sua identidade.

 
António MR Martins

sexta-feira, 29 de março de 2013

É vela esguia






101 - Rosa Maria Anselmo







É vela esguia
alumiando a penumbra
que envolve,
algema
o retiro a que me obrigo.

São lâminas
punhais,
é gume afiado
que mortifica o corpo
desprevenido, quase vencido
caindo desamparado
em solo de amargura!

Dou-me a mão,
ergo-me em esforço,
rejeito-te
expulso-te tão friamente,
que desapareces
no estio da alienação!

 
Rosa Maria Anselmo

in livro “ Sinais do Silêncio”, página 58, edições Papiro Editora, Porto, 2008.
 
 

Cidade vindimada

 
Lisboa, a minha eterna cidade..., by Gonçalo Lobo Pinheiro.

 
Pintam os bagos da felicidade
em cachos de renovada alegria,
nas vinhas fingidas da cidade
entre linhas onde cintila a poesia.

Aloiram-se tantas parras dispersas
num encanto porque tanto se cisma
e as gentes movem-se desconexas
ensaiando uma nova vindima.

Soam os cânticos pelo campo-chão,
as cestas se enchem do futuro vinho
nesta azáfama da compensação.

Da terra lhes descobre o caminho
e à cidade aporta a sedução…
pela noite, se dormem de mansinho.

 
António MR Martins

quinta-feira, 28 de março de 2013

A NÉVOA E EU…




100 - Francisco Valverde Arsénio









Uma leve neblina cai pungente
e penetra a minha alma,
o ar está gélido, ganho asas
e parto na procura das estrelas.

Não pertenço a ninguém
mesmo quando o meu corpo
é abraçado ou cantado.

Sonho-te em cores que não conheço,
e sinto-te nas sombras
que vestem
as paredes escondidas do luar.

És misteriosa como a noite,
sabes a frutos agridoces,
tens os lábios mesclados
e embrulhas os sonhos
na maresia vinda do outro lado do mar.

O entardecer é suave
por cima das nuvens onde vagueio
e a cidade dos murmúrios
desagua entre as pedras
dos muros que a guardam.

Cai uma leve neblina
… e eu ainda voo.

 
© Francisco Valverde Arsénio


O verso de ti

 
Hebao (China), by Gonçalo Lobo Pinheiro.

 
Se espraia de ti a noite decorada
nessa nudez inquietante e desejosa,
em veios duma doçura embriagada,
empolgante e sadicamente majestosa.

Teus lábios sequiosos quase tudo comportam
e teus tímpanos acolhem o silêncio da voz,
trauteando em ritmos que não abortam
a corrida do teu ínfimo rio para a foz.

Sulcas a montanha do entendimento,
aspiras à globalidade do universo
e omites negações do esquecimento.

Ruborizas a cada gesto desconexo
no palpitar de cada sensual fragmento,
onde aguardas que de ti se escreva o verso.

 
António MR Martins

quarta-feira, 27 de março de 2013

Recebe-me inteira




99 - Daniela S. Pereira









Faz de conta, meu amor
Que o mundo parou aqui.

Neste momento,
Que em teus braços entrego
As palavras que trago
No meu olhar.

Faz de conta,
Que o mundo parou
Na aurora que acordou.

Dou-te o meu ser e o meu amor
O meu corpo e o meu ardor.

Recebe-me inteira,
Porque quebrada eu venho
E eu quero-te em mim.

Recebe-me inteira,
Num só gole, num só beijo
E ama-me...

Fecha os olhos,
E ama-me assim...

 
Daniela S. Pereira


Por onde anda o poema



Sentidos versos, onda de ternura,
escritos pela inspiração do autor,
nos relatos de tanta ventura
entre tristeza, alegria e dor.

Oportuna razão do pensamento
desmascarada de forma singela,
correndo risco de deslumbramento
dum simples olhar p’ra lá da janela.

E o poema surge docemente
pelo estio ou no rígido inverno,
genial, ágil e consequente.

Saído de entre o céu ou inferno,
áspero, doce, amargo ou prudente,
do ódio rude ao amor eterno.

 
António MR Martins

terça-feira, 26 de março de 2013

SILÊNCIO


 
98 - Ana Fonseca da Luz


Silencia-se a minha boca
no grave poente que há em mim.
De ti, nada sei
e de mim, tudo o que soube, já esqueci…
Aviva-me a memória, para que não morra, louca,
esta chama que se apaga,
assimetricamente, no meu peito.
Silencia-se a minha alma,
no caudal deste mar,
onde, eterna amante,
silenciosamente, sem ti, me deito…

Magnólia (Ana Fonseca Luz)


natural consentimento

 
 

de fronte de mim
o chão molhado
pelos salpicos de água
insistentemente chovida

na visibilidade
permitida
o céu abrange uma tonalidade
cinzenta
e desse infinito
se continua a expelir chuva
que supera todos espaços do acolhimento

a secura há muito se esfumou
nos tempos
e no remolhado
transbordando ilimitadamente
em toda a linha

nada é como se pretende
e a sujeição
neste caso
tem de ser consentida

 
António MR Martins

segunda-feira, 25 de março de 2013

FOLHAS CAÍDAS




97 - Maria José Lacerda






tronco despido de folhas
folhas soltas e perdidas
sem saberem de seu dono

folhas caídas no Outono
folhas feitas de tristezas
de vividas incertezas
de esperanças já esquecidas
pelo Outono sentidas

folhas que cobrem o corpo
folhas que abrigam em conforto
folhas disfarçando o desgosto
folhas que cobrem o rosto
folhas vinde dar guarida
aconchegar minha vida
dar alento ao meu sentir

vinde fazer-me sorrir
porque me sinto perdida

 
Maria José Lacerda

in livro “Dança de Palavras”, página 25, edições Temas Originais, Coimbra, 2011. 
 
 

No radioso brilhar de teus olhos



Na cor dos teus olhos vejo um espelho
que me traz da luz brilho e esplendor,
retrato passível do novo ou velho
ou de um mero olhar tão sedutor.

Há um castanho proeminente neles
vinculativo à verdade e razão,
na íris que nos retém perante eles
como se estivéssemos presos ao chão.

Sortilégio mágico da natureza
de que rejubilam teus doces recantos
em sintonia com a plena gentileza.

Pelos teus olhos suspiram tantos santos
na afinidade da simples certeza
onde se esmeram tamanhos encantos.

 
António MR Martins