quinta-feira, 9 de maio de 2013

BIBLIOTECA DE MAFRA





116 - Raquel Naveira





Quando entrei
Naquela biblioteca
Toda de mármore,
Rosa e branca,
Estantes de madeira exótica,
Livros de couro
Gravados a ouro,
Senti um tremor,
Uma emoção,
Uma vontade de ajoelhar
Como se estivesse num templo.

Ao longe,
Uivavam lobos,
Nos corredores
Ouviam-se as notas de um órgão
Tocado por um monge
E os sinos do carrilhão
Se deslocavam no tempo.

Na biblioteca de Mafra,
Os livros eram como o vinho:
Amadurecidos,
Vindos
De remotas colheitas,
De antigas safras.

Tanta beleza,
Tantas vozes
Deixaram-me tonta
De uva e tinta.

 
Raquel Naveira

in livro “ Sangue Português”, páginas 59 e 60, Editora Arte & Ciência, S. Paulo (Brasil), 2012.
 
 

Avaliação maldita



Desespera o riso
Contido
Pela abertura maior

No passo desmedido
Se atropela o sentido
Da sua avaliação

Suprem-se as arestas
Desentendidas
E o riso valoriza-se
Numa expressividade
Intensa
E sem quaisquer limites

A vida torna a brilhar
E o riso
Sorri-lhe
Como se fora um pleno afago

Num aprumo
Quiçá
Inerente
À suspensão
Da maldita avaliação

 
António MR Martins

sábado, 4 de maio de 2013

Saudade de ti





115 - Raquel Rodrigues







Estou triste e por isso sinto
sinto esta saudade de ti…
da tua ternura
estou triste
e o dia transforma-se em noite
numa noite amorfa na solidão
não tenho ilusões
por isso sonho
o sonho é uma passagem
do sono
e este um estádio da morte
estando triste transponho
sentimentos feitos
não metáforas
sem ilusão de os sentir sentindo-os
tendo-os e querendo sinto
esta saudade dentro de mim

 
Raquel Rodrigues

in livro “Sentimentos”, página 81, Euedito,  2011.
 
 

Tantas vezes Mãe



Se escolhem palavras bonitas
Se oferecem flores tão belas
No dia que a ti dedicam Mãe

Te oferecem coisas catitas
E se esquecem das singelas
Como o teu simples sorrir Mãe

Te publicitam a rodos
Pelas compras que te dirigem
E os enfeites que te atingem Mãe

Deviam falar-te com modos
E esquecer-se da fuligem
Que a tua idade já tem Mãe

Te compram uma viagem
Uma mala ou um vestido
Sem que a ti te mereçam Mãe

Nesta esquiva passagem
Falta-te um pouco de amor
De que às vezes me esqueço Mãe

António MR Martins

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Antes e Depois








114 - Paulo Themudo




Aos suspiros…
As noites, passadas, chorando…
Aos gritos!
Saudade de tempo, de tanto!
Aos gritos, aflitos!...

Aprisionei-me consciente, glória meus dedos apontando as alturas sorridentes, trémulos, apavorados, olhar gélido petrifica a rocha tamanha do tempo.

Das tantas chuvas, lamento, presente nas lutas, minhas, dói-me navegar, apunhalado de vidas, meu mar ao altar do ser voltou, um ondular fez-me, chegar…

Acredito em tanto, em mim, fico, observando sem perceber, sem significado, como se o nada fosse tudo e tudo o meu corpo, desafiando os dias onde deambulo, logrando nas cores do meu profundo, um lugar terreno com destino…

Aos suspiros…

Dói-me, lembrança desses tempos, as luzes geladas recolhendo o corpo adormecido, as mãos de palavra, semelhantes ao ter tudo, ser, desconhecido e querido.
Lembro-me…
Grito!...
Com dor… Suplico…

Apavorado vou às cercas do meu passado, rebusco no homem desertado, vontade, crescimento, louvando céus de gente, desfrutando de um pequeno sabor, natureza magnífica de um sonho, suspiro…

Grito!...

Dói-me, voltar…

Dói-me, chegar…

Suspiro… Devagar.
Aguardo.

Paulo Themudo

in livro “Um Punhado de Sombras”, página 9, edições Temas Originais, Coimbra, 2009.
 
 

Leque de Palavras



Navegam mares e percorrem florestas
Campos e searas
A céu aberto

Voam com bandos e sentem quimeras
Entre o rasgar da carne
E um abraço

Evocam corpos e almas vivas
Em choro de tanta morte

Acariciam simples palavras
Onde emolduram
Sorrisos de crianças

Exultam rios pelas suas pontes
Falam da água que vem das fontes
E até referem as estrelas

Designam sóis de tantas vidas
E luares benfazejos
Testemunhos de tantas paixões

Também versejam sobre ditaduras
E outras composturas
De tantas mentes que aleijam

Saltam entre alegria e tristeza
Dor e felicidade
Ódio e amor
E entre a mentira e a verdade

Ser poeta eis a razão
De dar um pouco de expressão
A tanta realidade

Mas também a imaginação
O sonho e a invenção
Nas palavras do poeta
Ficam para a eternidade

 
António MR Martins

quinta-feira, 2 de maio de 2013

como essa caricia...






113 - João Videira Santos





como essa carícia
tão breve e fugaz
queima a saudade,
a rotina passageira,
o abraço sem alcance…

como essa carícia
tão breve e fugaz
rompe o vazio,
o silêncio da tristeza,
a luz do olhar frio…

 
João Videira Santos
 

 

A voz dos poetas





Conta-se desde o tempo de antanho que, num lugar desconhecido, os poetas se reuniam para dissertar pela sua criação escrita. Para eles a palavra nunca foi cousa vã e sempre permitiu a apresentação de ideias, o assentar de discussões e, sobretudo, a elaboração dos dizeres do seu sentir e do povo e a concertação de inúmeras páginas de tantas vidas, inquietações, alegrias, amores e desamores.
Mas vamos ao que importa nesta história de poetas consagrados e de outros figurantes nessa cousa da palavra poética. Numa dessas reuniões compareceram seis nomes de vulto desse paradigma da criação, oral ou escrita, a poesia: Luís de Camões, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Manuel Maria Barbosa du Bocage, Natália Correia e Afonso Duarte. Costumavam aparecer muitos mais, mas nesse dia tudo foi diferente, apenas estavam estes seis referidos poetas e mais quatro elementos da nossa contemporaneidade, que amiúde escrevem poesia, eles: Manuela Fonseca, Xavier Zarco, José Ilídio Torres e António Paiva. 
Este encontro adivinhava-se bem diferente dos habituais. Que fariam ali aquelas personagens díspares e o que iriam expor naquela sessão. À chegada sentaram-se em volta da mesa oval e entreolharam-se reciprocamente, escutando apenas o silêncio. Depois de terem passado vários minutos Luís de Camões, sendo o mais idoso dos presentes, assume-se como coordenador da sessão e bota palavra.
“Já no largo oceano navegavam, / As inquietas ondas apartando; / Os ventos brandamente respiravam, / Das naus as velas côncavas inchando;…”, disse Camões, com um breve sorriso, iniciando as hostilidades, ficando alguns dos presentes boquiabertos. Perante este mar de interrogações, um dos novatos nestas lides, precisamente António Paiva, lhe respondeu: “olhar-te assim sorrindo / abre-me as portas do mundo / não há vagas nem vento norte / que me atirem ao fundo…”, perante a admiração geral e o espanto por tão subtil e rápida resposta, se instalou no grupo a euforia. Estava a tertúlia iniciada, e logo ao rubro. Afonso Duarte, bem mais comedido, não quis deixar passar mais tempo e tentou acertar as agulhas, proferindo em voz alta a sua opinião: “Onda do mar na barra… Enorme vaga / De Terra e Céu, vejo o horizonte raso: / Nas minhas mãos, em concha, o mar afaga; / E, em flor ao peito, ponho o Sol do Ocaso…”, com esta observação se desenharam muitas interrogações na cabeça dos presentes, mas Luís de Camões não quis deixar por baixo o seu papel de orientador desta conversa poética, dizendo de seguida: “Deixem dos sete Céus o regimento, / Que do poder mais alto lhe foi dado, / Alto poder, que só co’o pensamento / Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado…” e todos se deslumbraram com esta enorme perspicácia de fazer evoluir a contenda. Sem que esperassem muito começa a ouvir-se a voz de Florbela Espanca: “Cheguei a meio da vida já cansada / De tanto caminhar! Já me perdi! / dum estranho país que nunca vi / sou neste mundo imenso a exilada…”
O ambiente começava a aquecer. E alguns dos presentes exasperavam pela chegada da sua deixa, no sentido de poderem esgrimir com o grupo os seus dotes poéticos. Eis que se ouve a voz contemporânea de Xavier Zarco: “Era longa, / a noite. / Manta tecida e estendida / pelos campos / que desconhecidas mãos / regiam / ao ritmo das estações.” Um coçar de cabeça surgiu como generalizado. A situação havia sido alterada e as dúvidas não se dissiparam, aliás aumentaram em grande força. Qual seria a resposta adequada para tal alusão? Alguns minutos (e não foram poucos) de silêncio se fizeram ao redor daquela mesa de virtudes. E eis que Camões decide apaziguar a questão, dizendo: “Prometido lhe está do Fado eterno, / Cuja alta Lei não pode ser quebrada, / Que tenham longos tempos o governo / Do mar, que vê do Sol a roxa entrada.” Logo as coisas se desanuviaram, por um lado, mas a pertinência de referências tão peculiares veio fazer entrelaçar as ideias de todos e talvez equalizar os modos e preceitos da continuidade da sessão. Que mais se seguiria?!... Nesse sentido, entra nas lides mais um dos novatos destas epopeias, José Ilídio Torres, restando deles a doce Manuela Fonseca, e energicamente afirma “Os poemas não se servem frios” e, num repente, todos levantavam as cabeças, restando Bocage, num dos topos da mesa, que apresentou um ar pensativo, sorrindo, levemente, de seguida. José Ilídio não deu hipótese de resposta e disparou logo após: “Acordei morto e nada tinha mudado / Fazia-se a guerra a meus pés/ Ninguém sabia quem me tinha matado…”, perante alguns momentos de respiração sustida, continua: “Morto vivo noutro alojado em mim / Amanhã não acordarei, já decidi / E um eu verdadeiro nascerá por fim”. Todos ensaiaram alguns segundos de meditação.
Fernando Pessoa que, desde o começo da reunião, se vinha mantendo impávido e sereno, decidiu dar continuação aos “trabalhos”, acrescentando o seguinte: “Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal! / Por te cruzarmos, quantas mães choraram, / Quantos filhos em vão rezaram! / Quantas noivas ficaram por casar / Para que fosses nosso, ó mar!” Camões não via necessidade de intervir e até se via satisfeito com o decurso da sessão. A parada havia subido. Nisto a doce Manuela Fonseca, com seu lindo sorriso, abriu a boca e aventurou-se a exprimir suas palavras: “Sonhei sete pães / Sete sementes / Sete águas / Sete camas / Sete escolas / Sete esperanças / Sonhei / Sete crianças / Sete sorrisos / Acordei / Com sete lágrimas”. O grupo alterou, na generalidade, o semblante quedando-se cabisbaixo. Nesse desígnio Camões tenta revitalizar as forças presentes: “Eis que aparecem logo em companhia / Uns pequenos batéis, que vêm daquela / Que mais chegada à terra parecia, / Cortando o longo mar com larga vela.” Sem fazer esperar alguém, num ápice, Bocage desenvolve sua intervenção: “Meus olhos, atentai no meu jazigo, / Que o momento da morte está chegado; / Lá soa o corvo, intérprete do fado; / Bem o entendo, bem sei, fala comigo.”
Palavras ditas, logo outras se ouvem. Desta feita vindas da voz de Natália Correia, que assim ultima a intervenção de todos os presentes: “Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz. / Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira, / Com o teu esconjuro da bomba e do algoz, / Abre as portas da História, deixa passar a Vida”. Ouve um clamor que incendiou o rubor na sala, naquela mesa todos a aplaudem em uníssono. A sessão tinha sido deveras profícua. Luís de Camões a deu por terminada e todos regressaram às suas inexistências e existências. E eu, será que sonhei?!...
 
António MR Martins
 
 
 
 
 
 


quarta-feira, 1 de maio de 2013

SEGREDO


Faleceu Nuno Guimarães…
 
Vítima de ataque cardíaco faleceu, ontem, em Vilnius, na Lituânia. Desapareceu o homem fica para sempre o poeta e a sua obra. Aqui fica a minha singela homenagem (numa antecipação à publicação da sua escrita no tópico “Poemas de Amigos”), pelas suas grandiosas palavras…


 
112 - Nuno Guimarães


hoje morreu o meu segredo
quando sem querer descobri
quem pode enfim encontrar
aquilo que um dia perdi

parti, fugi, enlouqueci
por não saber lidar com a sorte
não sei se quero o que vi
se quero simplesmente a morte

talvez aquilo que me dás
seja uma teia que teces
seja o amor que não mereces
quando preciso de ti

um dia vou ser feliz!
voando talvez noutro céu
talvez pisando outro chão
chorando talvez noutro véu

mas quando isso acontecer
por certo não estarás por perto
serás talvez gota de água
sem importância, no deserto

Nuno Guimarães

in livro “ rio que corre indiferente”, página 33, edições Temas Originais, Coimbra, 2009.  
 
 

A palavra pereceu (pura ficção)


Me entonteceu o declinar da palavra
sem a plausível justificação para tal;
senti no sabor a boca bem amarga,
num paladar tão diverso e desigual.

Revolveram a falta do valor imenso,
que representa a escrita num papel;
omisso num contexto não propenso
e tão sentido como tela sem o pincel.

Esqueceram as metáforas e as vogais,
consoantes, sílabas e as preposições,
adjectivos e as conjugações verbais.

Não foram permitidas mais ilações,
nunca mais legendaram os vitrais
e deixaram de emitir as certidões.

 
António MR Martins

terça-feira, 30 de abril de 2013

37




111 - Gleidston César







O que eu tenho é muito
O que quero é pouco
Sobrevivo entre abraços e
Afagos, entre a multidão e
A solidão, mas estou feliz
Com o que sou.
Sou sorriso entre alegria
Sou lágrimas entre o desprezo
Mas acima de tudo sou um ser humano
Em evolução.
Sou capaz porque tenho amigos
Que jamais me abandonarão.

Sobrevivente entre leigos e cultos
Desta vida devastada.

Gleidston César

in livro “ Os sentimentos por detrás das palavras”, página 46, edições Temas Originais, Coimbra, 2009.
 
 



Eis que surge o poema

 
Imagem da net, em: www.malambas.blogspot.com

 
Agem os poetas sentidos
em palavras divididos
na negrura que os rodeia.
Elevando os seus textos
entre todos os pretextos
que a mente incendeia.

Uns escrevem pelo amor
em vocábulo sedutor
por entre o sol e a lua.
Outros problemas sociais
e mais amarguras que tais
na verdade crua e nua.

Há quem escreva a guerra
como se molda a terra
no doce canto das aves.
Outros trazem as estrelas
inspirando-se ao vê-las
entre muitas outras chaves.

A palavra procurada
nem sempre é a achada
na busca de cada tema.
Mas no final do caminho
escrevendo com carinho
eis que surge o poema.

 
António MR Martins

segunda-feira, 29 de abril de 2013

NATUREZA EM FÚRIA




110 - Carlos Fragata







 
E quando ruge e sopra a Natureza,
Calam suas bravuras os valentes,
Ouve-se o som do vento e batem dentes
Não de frio... Mais forte é a fraqueza!

Passeio pelas ruas adjacentes
À casa que foi minha fortaleza
E que deixei, levado p’la proeza
De provar pertencer aos resistentes.

Mas o vento, ofendido, furioso,
Investiu, quis mostrar o seu poder,
Rodopiou feroz, aparatoso!

Regressei ao castelo, receoso,
Pois em fúria não há como vencer
Tal gigante, mil vezes poderoso!

 
Carlos Fragata


Entre o mar e a lua


Imagem da net.


Abafam-se as ondas deste mar
e os ruídos da noite escura,
brilhando nas águas o luar
por entre sedutora brandura.

Sonham-se enredos de magia
entre as palavras e os gestos,
suprem-se máculas na nostalgia
e esquecem-se tantos protestos.

Sintonizam-se pelos semblantes
num olhar de mútuo consenso,
vislumbrando doce harmonia.

Brade o mar os sons latejantes
em aromas de puro incenso
e com a lua leva a noite fria.

 
António MR Martins

sábado, 27 de abril de 2013

Chuvas





109 - Fernando Saiote







A chuva longa que hoje caiu
Lavou-me de todas as cores,
As minhas que em mim tinhas
Frases presas sem sabores,
Sem o olhar que te sentiu.

Fez-te minha e eu teu
Sedentos de viva carne, calor,
Suores cansados, lentos, frios,
Saboreados em beijos de amor,
Sexo bom que nenhum mereceu.

Essa chuva que ontem caía
Deu completa volta ao mundo,
Gritou a todos, secou-se,
Adormeceu num ermo imundo
E morreu enquanto dormia.

A rebelde inundou olhos e casarios,
Escreveu seus livros e canções,
Plantou flores, pintou quadros...
Mas esqueceu que tantas emoções
Acabavam sempre nas margens dos rios.

 
Fernando Saiote