quarta-feira, 29 de maio de 2013

Incerteza das palavras





122 - Conceição Bernardino






A luz da sapiência cega-me,
quero ver para além da filantropia,
dos vocábulos que se rabiscam
sobre ervas daninhas do alfabeto,
da incerteza das palavras,
da prepotência que se aglomera
em magotes, em lascas
de um pinheiro qualquer avelhentado.

As estirpes profanam o espelho…

Quero ver-me em todo o lado,
na miragem, que passou a ser arcaica,
dos reflexos que projectam a ignóbil
imagem cega de um olhar ímpar.

 
Conceição Bernardino

in livro “Linhas Incertas”, página 46, edições Mosaico das Palavras, Porto, 2009.
 
 

Toquem tambores

 
Imagem da net, em: www.mmaximo.musicblog.com.br


A reboque
de quem te ludibria
tantos outros vão

É constante
este aperto
quase final
desígnio rude e traumático

Toquem os tambores
mensageiros de tantas vitórias

Nos caminhos da liberdade

 
António MR Martins

terça-feira, 28 de maio de 2013

Poupa Outro


 
121 - Ângelo Alves


Ó Morte poupa outro que sou inútil
Leva-me agora os descalcificados ossos
Meu corpo fragmenta-se de tão frágil
Está na hora do sopro dos destroços

Não posso viver a ver-me indúctil
O vento oeste abre nos ossos fossos
O suspiro do homem é pus hostil
Ó Morte leva-me nos leves braços

Belo o cálix de fel do Sol, das vísceras,
Das fontes vis, sou lixo a vida amarga
Como ervas a bílis é fonte de fogueiras

Só amo o amargo que me não larga,
Bebo longos tragos, vomito asneiras
E omito minha frágil e fraca carga

 
Ângelo Alves

in livro “Doidivino”, página 117, edições Temas Originais, Coimbra, 2012.
 
 

Tenho-te em mim

 
Lisboa, vista parcial.

Renovo
as lembranças esquecidas
de um tempo esfumado
desde que te tenho

Em ti nasci
como remessa numérica
restolho do que não presta
entre tanta máfia escondida

Foste
certeza ou descoberta
aliança premeditada
berço do meu sentido
agasalho do meu primeiro choro

Não sei se te reconheça
ou te esqueça para sempre
mas sei que algo me resta
tenho-te em mim

 
António MR Martins

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Hoje olho-te





120 - Helena Pinto







Hoje olho-te com a indiferença de um passado distante,
Já não sinto aquele aperto imenso dentro do peito,
Já não sinto o coração a bater descompassadamente,
Já não baixo o olhar, limito-me a seguir adiante,
Já não sinto mágoa, nem dor nem sequer despeito,
Já não sinto tristeza nem choro como antigamente.

Hoje olho-te à distância de um amor imenso
Que foi sem nunca ter sido mais que uma ilusão.

Hoje olho-te à distância e com um sorriso penso
Que és de todas a minha mais doce recordação.

Hoje olho-te à distância e não consigo evitar a saudade
Que a tua simples presença traz à minha memória.

Hoje olho-te à distância e sinto em mim essa verdade
Que me diz que és sem ter sido a minha melhor história!

 
Helena Pinto

Primeiro prémio do Concurso de poesia “Poesia em Rede”, 2007.
 
 

Neste mar

 
Oceano Atlântico, na Ericeira.

Há um mar
que nos aconchega
com aromas de embriagar

Tantos marinheiros
te acariciaram
com almejada esperança
na rota de te descobrir

Agora neste lugar
que somos
em que nos sujeitamos
a estar
há apenas o céu acima de nós
tão distante

E este mar
vulgo oceano
ao nosso lado

Tão perto

 
António MR Martins

domingo, 26 de maio de 2013

SAUDADE (de ti)






119 - Fátima Guimarães







É sentir teus braços distantes
é lembrar-te e não ver o teu olhar
é sentir tuas mãos ausentes
é não saborear teus lábios
teus beijos ardentes
é sentir que me deixaste em suspenso
num vazio imenso
é não te trazer
dentro de mim
é não poder dedilhar
cada pormenor do teu corpo marfim
é morrer um pedacinho
a cada segundo
que te penso em mim.

 
Fátima Guimarães


Sabor a mar (entre o mel e o fel)


Lisboa a minha eterna cidade..., by Gonçalo Lobo Pinheiro.
 

Tu que te banhaste
nas ondas do inferno
com tuas naus e caravelas
no enredo das descobertas
entre tanta angústia
e martírio

Tu que recitaste poemas
e trovas no vento que passa
enaltecendo tuas gestas
homens de tanto valor
ou pedaços de circunstância

Fica o sentido da história
no caminho de tantos mares
e oceanos
de memórias grandiosas
ou nem por isso

Tanto de ti fenece
até que um novo sol
possa iluminar teu interior

 
António MR Martins

sábado, 25 de maio de 2013

Silêncio





119 - Ricardo Bragança Silveira






É no silêncio que te encontro
E te vejo a mendigar
É um momento que guardo,
Como um doce acordar
Daquilo que vemos passar.
 
O silêncio tem o dom
De encarar o futuro,
Seja mau ou seja bom,
Com tudo o que temos seguro
É um momento para nos encontrarmos
Sempre além desse muro.
 
No silêncio nascemos
E no silêncio morremos
No meio apenas crescemos
Com a vontade de querer
Sempre sem sofrer
E acreditar no que cremos.
 
O silêncio é assim,
Está connosco toda a vida.
Ainda assim é claro
Que toda a vida escondida,
É um momento raro,
De vida vivida.
 
 
Ricardo Bragança Silveira


Margens

 
Leprosaria de Ká-Hó, Coloane (Macau), by Gonçalo Lobo Pinheiro.
 
 

Soltam-se palavras abruptas
numa ligeireza infinda
em estratégia irrealista

A memória se esfumou
e de tanto pouco ficou
nestes pedaços de nada

Entre a esquerda e a direita
fica o centro contido
restando alguns à espreita
do registo
de um outro prurido

Clamores ou dissabores
razões para tamanho perigo
entre tantos desamores
surge mais um sem-abrigo

 
António MR Martins

quinta-feira, 23 de maio de 2013

A morte






117 - Ana Casanova







A morte é sossego
A morte é Paz!
Porque choramos os mortos
Se a morte é ausência de dor
para quem sofre
A morte existe para acabar
com o sofrimento
com a solidão
com o cansaço que a vida
.................. provocou!

 
Ana Casanova


Imprudências



Foram proferidas palavras ocas…
vãs no conteúdo e significado,
esquecendo o toque de suas bocas
e a paixão pelo verso soletrado.

Balançou um repúdio nas respostas
ante um tenso olhar angustiante,
omitindo tantas mesas já postas
no subir dum palco desinteressante.

Desvalorizaram suor e perfume,
réstias de um amor escondido,
perante acesas chamas sem lume.

Seguiram a tangente do proibido…
daquele chão saltou odor a estrume
que sentenciou este caso perdido.

 
António MR Martins

quinta-feira, 9 de maio de 2013

BIBLIOTECA DE MAFRA





116 - Raquel Naveira





Quando entrei
Naquela biblioteca
Toda de mármore,
Rosa e branca,
Estantes de madeira exótica,
Livros de couro
Gravados a ouro,
Senti um tremor,
Uma emoção,
Uma vontade de ajoelhar
Como se estivesse num templo.

Ao longe,
Uivavam lobos,
Nos corredores
Ouviam-se as notas de um órgão
Tocado por um monge
E os sinos do carrilhão
Se deslocavam no tempo.

Na biblioteca de Mafra,
Os livros eram como o vinho:
Amadurecidos,
Vindos
De remotas colheitas,
De antigas safras.

Tanta beleza,
Tantas vozes
Deixaram-me tonta
De uva e tinta.

 
Raquel Naveira

in livro “ Sangue Português”, páginas 59 e 60, Editora Arte & Ciência, S. Paulo (Brasil), 2012.
 
 

Avaliação maldita



Desespera o riso
Contido
Pela abertura maior

No passo desmedido
Se atropela o sentido
Da sua avaliação

Suprem-se as arestas
Desentendidas
E o riso valoriza-se
Numa expressividade
Intensa
E sem quaisquer limites

A vida torna a brilhar
E o riso
Sorri-lhe
Como se fora um pleno afago

Num aprumo
Quiçá
Inerente
À suspensão
Da maldita avaliação

 
António MR Martins

sábado, 4 de maio de 2013

Saudade de ti





115 - Raquel Rodrigues







Estou triste e por isso sinto
sinto esta saudade de ti…
da tua ternura
estou triste
e o dia transforma-se em noite
numa noite amorfa na solidão
não tenho ilusões
por isso sonho
o sonho é uma passagem
do sono
e este um estádio da morte
estando triste transponho
sentimentos feitos
não metáforas
sem ilusão de os sentir sentindo-os
tendo-os e querendo sinto
esta saudade dentro de mim

 
Raquel Rodrigues

in livro “Sentimentos”, página 81, Euedito,  2011.