quinta-feira, 20 de junho de 2013

Esqueceram os poetas


Imagem da net, em: www.imagens.us
 


Dói-me o corpo e a mente
Na ambiguidade do texto
Eis que tanta gente mente
Sob um qualquer pretexto

Tantos falam por falar
Às vezes por engano
Nada há a registar
Que caia então o pano

Ecoam sentidos funestos
Em tantas mentes espertas
Comeram todos os restos
E esqueceram os poetas

 
António MR Martins

terça-feira, 18 de junho de 2013

Palavras Apaladadas – III António Barroso Cruz





tuas asas de mariposa

 
adejam silenciosamente
as tuas asas de mariposa
no ventre da noite,
pousando em mim
o teu voo transpirado, amado

eu sou apenas um rio
de sombras inteiras
em cujas margens
o teu corpo se cala
depois do amor, em torpor

e o amanhecer é apenas
um tempo emudecido
que vigia o lugar
das palavras indecisas,
traduzidas em gemidos sussurrados,
fragmentos de uma
vontade de amar renascida,
incontida

 
António Barroso Cruz

In livro “Poemas à flor da pele”, página 44, edições Editora O Liberal, Câmara de Lobos.

Sobre o livro:

Na presença de um elegante livro, bem apresentado, bem orientado, com excelente imagem e com a implícita boa dosagem de muito boa poesia, nos sobejam motivos para o endereçar como contexto apelativo à leitura para todos quantos gostam de poesia. Escreve-nos o autor no seu “Esboço de Entrada”: Aos poetas/tudo se deve perdoar./Até os poemas”. Corroboro com essa genérica alusão poética (no caso: [na vida]) e mais a evidencio quando, como leitor, sustento o meu olhar, nesse contexto, por todas as páginas desta obra, até ao seu final. Recomendo, obviamente, a sua aquisição para a correspondente leitura, uma e outra vez e/ou quantas as vezes necessárias.

A página do autor no facebook:

 
António MR Martins

Nobre povo


Imagem da net, em: www.jn.pt



Ai povo
que te perdes
nos pântanos da insensatez

Ai povo
contestai
teu desânimo
sem medo
para que não caias
no degredo

Ai povo
que foste nobre
alguma vez
hoje ínfimo
nessa pequenez

Ai povo
arregaça tuas mangas
e cresce
outra vez

 
António MR Martins

sábado, 15 de junho de 2013

Palavras Apaladadas – II João Vasco Coelho





ENTRETANTO, É PRECISO RENOVAR UMA FOME ANTIGA

 
Onde há vida
nas coisas do tempo presente

não se pensa tanto em urzes,
na expectativa posta
em sonhos de urbanização loteada

há uma explicação para a pequena morte
que vem com o final dos dias

há um pouco mais de tempo
para acreditar que o corpo vence.

 
João Vasco Coelho

In livro “NA ORDEM DO DIA”, página 11, edições Artefacto, Lisboa 2013.

 
Sobre o livro:

A poesia de João Vasco Coelho torna-se grande com poucas palavras. A forma psicológica e filosófica com que estende seus textos e os temas do quotidiano que eles abordam, são de todo inteligentes, perspicazes e capitularmente vorazes. Toda a envolvência entre o nascer, o existir e o morrer é tratada com subtileza, por vezes, e com premência crítica, de outras, mas sempre contextualizando o apelo a um discernir que não está ao alcance de uma primeira leitura, em inúmeros momentos. “NA ORDEM DO DIA” é uma obra que não nos deixa indiferentes após assimilarmos o seu conteúdo e é, sem dúvida, um excelente trabalho poético. Constatando tudo isso este é um livro amplamente recomendável à leitura e a toda uma interiorização adjacente.
 
A página do autor no facebook:  
https://www.facebook.com/#!/joao.coelho.98?fref=ts

António MR Martins

Ciclo de vidas


Imagem da net, em: www.cabecadecuia.com


Se a vida não compensa
todo aquele que pensa
pela razão do seu viver.
Às vezes faz diferença
saúde entre a doença
para assim não mais sofrer.

Pela mais-valia não se tem
o desengano de ninguém
pela nossa vida fora.
Muitas histórias quem não tem
umas de mal outras de bem
entre ontem e agora.

Conquistas temos na vida
sem poder ter outra saída
entre trabalho e amor.
Dos estudos coisa perdida
por isso é mais sofrida
pelas etapas do labor.

Nesta vida tantos passam
e por tudo o que façam
sendo com simples verdade.
Sempre em si entrelaçam
laços que não se desfaçam
num mar de felicidade.

 
António MR Martins

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Palavras Apaladadas – I Lília Tavares





Esta noite é líquida
nos meus olhos esvaziados
de rumores e saudade.
Fixo o farol e a luz
da vida cúmplice.

Como as gaivotas parto
e regresso
porque este areal é meu.

Nem os búzios perdidos
nas águas profundas me podem
chamar com cânticos e brilhos.

Sou ilha e barco,
tu a margem que espera.

Parto com os ventos.

 
Lília Tavares

In livro “Parto com os ventos”, página 30, edições Kreamus, 2013.

 
Sobre o livro:

Um absorvente livro de poesia que nos transfere para um intenso deleite à leitura, uma poética deslumbrante onde o acolher e o receber metafórico nos rodeia de belas imagens entre o permanecer e o partir e toda essa constante viagem, bastas vezes. Um encontro permanente, ou não, entre a lua, as aves, os rios, o mar, a areia e sobretudo os ventos, desencadeando aconchegos de múltiplos afagos. Lília Tavares faz-nos voar, mentalmente, na interiorização de cada seu poema, onde o tempo e o permanecer com esta sua obra nos eleva, sobremaneira, o ânimo. Simone Grecco tem um excelente trabalho criativo e de relevante apoio à obra, no seu “traço aramado” em 3D, pelas ilustrações que congeminou. Carlos Eduardo Leal traz-nos um prefácio magnífico. Obviamente, recomendo “Parto com os ventos” à leitura.
 
António MR Martins

Bandidos e desprotegidos



Madrugam-me os ais debilitados
entre os pretéritos desviantes;
amálgama de caldos entornados
ante o fenecer dos bracejantes

Repudiam-se conceitos vigentes
pautados de grande indiferença,
com esta crise estão coniventes
e nos ultimam a pior sentença.

Por este despejar desconfortante
onde eclodem direitos perdidos
esfumando um veio aliciante.

Os seres que são por demais sabidos
furtam-nos da forma mais elegante
que nem ouso chamar-lhes: Bandidos!!!

 
António MR Martins

terça-feira, 4 de junho de 2013

Fui premiado com uma Menção Honrosa no II Concurso Internacional de Prosa, Prémio Machado de Assis 2013, com o trabalho "O Comboio das 19 horas e 20 minutos", numa iniciativa da Confraria Cultural Brasil-Portugal.






A Confraria Cultural Brasil-Portugal, têm o prazer de anunciar os resultados do II Concurso Internacional de Poesia - Prêmio 'Fernanda de Castro 2013' e do II Concurso Internacional de Prosa - Prêmio 'Machado de Assis 2013'. Em especial agradecer a todos os participantes das duas modalidades dos concursos de Poesia e Prosa do qual eu tive o privilégio de estar à frente na coordenação. Aos brilhantes Poetas e Contistas participantes o meu agradecimento pela confiança depositada.

Agradecemos aos acadêmicos da Academia Salgadense de Artes e Letras – ASAL, em especial ao Presidente, a Secretária, Escritora e Poetisa Sirlene Quadros Rezende Cazeca, ao competente Jornalista Marcos Martins Fagundes, responsável pelo Jornal O Estrelinha, pela Ética na avaliação dos textos. Obrigada pela prontidão e competência de cada um, que lidaram com muita responsabilidade, na árdua seleção de tantos autores participantes em alto estilo.

A todos os participantes nossa sincera admiração.

Divinópolis, 31 de maio de 2013.

Maria de Fátima Batista Quadros

Presidente da Confraria Cultural Brasil-Portugal

Categoria: Poesia

1º CATURRICE

Autor: Alysson Paranhos Chaves

Belo Horizonte – Minas Gerais - Brasil

2º O CORAÇÃO DO TEMPO

Autora: Rita Dahl

Finlândia

3º PORTAL UTRA VIOLETA

Autor: Marcelo Moreira

Salvador – Bahia - Brasil

Menção Honrosa:

DESEJO - Autor: Everton Luís do R.O.F. dos Santos – Santa Maria - Rio Grande do Sul – Brasil

ALVORECER– Autora: Lurdes Breda - Liceia - Portugal

DA BAILARINA COM SUA SOMBRA – Autor: Rosalvo Accioly - Nova Friburgo – Rio de Janeiro - Brasil

Categoria: Prosa

1º O MISTÉRIO DA ESTÁTUA

Autor: João Lisboa Cotta

Ponte Nova – Minas Gerais - Brasil

2º MILAGRE NA PRAIA

Autor: Gabriel de Sousa

Lisboa – Portugal

3º A NOTÍCIA

Autora: Ana Maria Mabrouk

Coimbra - Portugal

Menção Honrosa

TEATRO

Autora: Sabrina Pereira de Queiroz – Brasileira residente na Espanha

O COMBOIO DAS 19 HORAS E 20 MINUTOS

Autor: António MR Martins - Lisboa - Portugal

O MILAGRE - RECEITA DE PÃO

Autor: Roberto Márcio Pimenta – Mineiro residente em Jacaraípe – Serra -Espirito Santo - Brasil


 


quarta-feira, 29 de maio de 2013

Incerteza das palavras





122 - Conceição Bernardino






A luz da sapiência cega-me,
quero ver para além da filantropia,
dos vocábulos que se rabiscam
sobre ervas daninhas do alfabeto,
da incerteza das palavras,
da prepotência que se aglomera
em magotes, em lascas
de um pinheiro qualquer avelhentado.

As estirpes profanam o espelho…

Quero ver-me em todo o lado,
na miragem, que passou a ser arcaica,
dos reflexos que projectam a ignóbil
imagem cega de um olhar ímpar.

 
Conceição Bernardino

in livro “Linhas Incertas”, página 46, edições Mosaico das Palavras, Porto, 2009.
 
 

Toquem tambores

 
Imagem da net, em: www.mmaximo.musicblog.com.br


A reboque
de quem te ludibria
tantos outros vão

É constante
este aperto
quase final
desígnio rude e traumático

Toquem os tambores
mensageiros de tantas vitórias

Nos caminhos da liberdade

 
António MR Martins

terça-feira, 28 de maio de 2013

Poupa Outro


 
121 - Ângelo Alves


Ó Morte poupa outro que sou inútil
Leva-me agora os descalcificados ossos
Meu corpo fragmenta-se de tão frágil
Está na hora do sopro dos destroços

Não posso viver a ver-me indúctil
O vento oeste abre nos ossos fossos
O suspiro do homem é pus hostil
Ó Morte leva-me nos leves braços

Belo o cálix de fel do Sol, das vísceras,
Das fontes vis, sou lixo a vida amarga
Como ervas a bílis é fonte de fogueiras

Só amo o amargo que me não larga,
Bebo longos tragos, vomito asneiras
E omito minha frágil e fraca carga

 
Ângelo Alves

in livro “Doidivino”, página 117, edições Temas Originais, Coimbra, 2012.
 
 

Tenho-te em mim

 
Lisboa, vista parcial.

Renovo
as lembranças esquecidas
de um tempo esfumado
desde que te tenho

Em ti nasci
como remessa numérica
restolho do que não presta
entre tanta máfia escondida

Foste
certeza ou descoberta
aliança premeditada
berço do meu sentido
agasalho do meu primeiro choro

Não sei se te reconheça
ou te esqueça para sempre
mas sei que algo me resta
tenho-te em mim

 
António MR Martins

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Hoje olho-te





120 - Helena Pinto







Hoje olho-te com a indiferença de um passado distante,
Já não sinto aquele aperto imenso dentro do peito,
Já não sinto o coração a bater descompassadamente,
Já não baixo o olhar, limito-me a seguir adiante,
Já não sinto mágoa, nem dor nem sequer despeito,
Já não sinto tristeza nem choro como antigamente.

Hoje olho-te à distância de um amor imenso
Que foi sem nunca ter sido mais que uma ilusão.

Hoje olho-te à distância e com um sorriso penso
Que és de todas a minha mais doce recordação.

Hoje olho-te à distância e não consigo evitar a saudade
Que a tua simples presença traz à minha memória.

Hoje olho-te à distância e sinto em mim essa verdade
Que me diz que és sem ter sido a minha melhor história!

 
Helena Pinto

Primeiro prémio do Concurso de poesia “Poesia em Rede”, 2007.
 
 

Neste mar

 
Oceano Atlântico, na Ericeira.

Há um mar
que nos aconchega
com aromas de embriagar

Tantos marinheiros
te acariciaram
com almejada esperança
na rota de te descobrir

Agora neste lugar
que somos
em que nos sujeitamos
a estar
há apenas o céu acima de nós
tão distante

E este mar
vulgo oceano
ao nosso lado

Tão perto

 
António MR Martins

domingo, 26 de maio de 2013

SAUDADE (de ti)






119 - Fátima Guimarães







É sentir teus braços distantes
é lembrar-te e não ver o teu olhar
é sentir tuas mãos ausentes
é não saborear teus lábios
teus beijos ardentes
é sentir que me deixaste em suspenso
num vazio imenso
é não te trazer
dentro de mim
é não poder dedilhar
cada pormenor do teu corpo marfim
é morrer um pedacinho
a cada segundo
que te penso em mim.

 
Fátima Guimarães