quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Banco de jardim


Zona Envolvente do Nabão, em Ansião (parte recente),
foto de António MR Martins.


No isolamento da simples solidão
te encontrei só, à minha passagem,
por ti passei sem qualquer intenção,
descobrindo-te na mera paisagem.

Olhei de frente, de lado e para trás
nessa quietude que por aqui implantas,
vínculo tão forte que tanto satisfaz
quem se cansa de observar as plantas.

Aconchego pra muitas caminhadas
acolhimento de leituras dispersas
descanso de tantas pernas cansadas.

Picam-se aos topos anseios às avessas
és cenário com pessoas enamoradas
e também palco de muitas conversas.

 
António MR Martins

Vera Sousa Silva




ABISMO

Amar loucamente,
Nas ausências dos beijos
E no silêncio da alma.
Amar por amar,
Sem nada exigir
Para além do sonho.
Entregar o coração
Envolto em papel de seda
E aguardar,
Junto do abismo
Que uma mão nos ampare
Ou empurre de vez,
Mergulhando no mar da morte
Para que se viva finalmente
A ansiada felicidade
Do secreto desejo.

Vera Sousa Silva, in “ Amar-te em Silêncio”, página 25, edições Edium Editores, Fevereiro 2009.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Sim és a casa




És a árvore do meu aconchego
plena casa da minha existência,
em ti tenho a paz e o sossego
num coabitar por excelência.

Possuis a janela da descoberta
e a porta do bom acolhimento,
perante um meditar sempre alerta
a cada sonoridade do vento.

Tens vinho e pão no teu recheio
sorrisos e verdades na despensa
e de lá, das aves, se ouve o chilreio.

O mundo te torna tão intensa
que a ti regresso quando vagueio,
ao recatado lar da recompensa.

 
António MR Martins

Angelina Andrade




BRISA DE UM ENTARDECER

 
Brisa de um entardecer
delírios de uma noite
que se movimenta
no suspiro de uma folha que teima
em não se desprender

Movimento lânguido
dos dedos que me soltam os cabelos
braços que me prendem
numa dança que nos movimenta
que nos tenta
nas folhas desse livro
que queremos escrever

Cada folha lágrima caída
na cópula que se avizinha proibida
das almas que ousaram escolher
cada folha cai numa melodia
de silêncios de palavras proibidas
que ficaram por dizer

Angelina Andrade, in “Deixa-me Adivinhar-te”, página 26, edições Temas Originais, Coimbra, 2011. 

Já não se escrevem cartas, nem de amor


Imagem da net, em: www.blog.clickgratis.com.br


Uma folha de vinte e cinco linhas
a esferográfica na tua mão,
no fluir do pensamento, escrevinhas
as palavras que saltam do coração.

Entre um relevar apaixonante
enredas ternos determinativos,
então escreves o amor por diante
pelos mais generosos motivos.

Com perfume bem cheiroso salpicas
o findar da missiva de tanto valor
numa repetição que já praticas.

Colas o envelope, em jeito sedutor,
ritual intenso de que não abdicas…
já se não escrevem cartas de amor!

 
António MR Martins

Emanuel Lomelino





MIGUEL TORGA

 
Frondosas árvores de conhecimento
carregadas de fruto doce e maduro
para o espírito são saboroso alimento
que alteia a alma em são crescimento
o sumo do saber é melhorar o futuro.

Caudal de líquida e cristalina sabedoria
que corre nas veias dos ilustres poetas
é inspiração e alento sem ponta d’ironia
simples metáfora para se fazer poesia
como os vaticínios feitos pelos profetas.

Poemas são ligação do homem à terra
e as raízes das estrofes são os versos
quanto de humanidade a poesia encerra
quantos os sentires que o poeta enterra
em mil escritos pelo mundo dispersos?

 
Emanuel Lomelino, in “Poetas que Sou”, página 25 (Tributos), edições Lua de Marfim, Janeiro 2013.

sábado, 21 de setembro de 2013

poeiras existenciais


Imagem da net, em: www.oglobo.globo.com


pétala perdida, um feixe de luz,
encaixe supremo, nobre guarida,
palco da vida, o charme seduz,
imagem que temo, pele tão dorida,

chuva batente, terra sobrante,
pedra polida, silêncio pendente,
rasgo saliente, voz de cantante,
mágoa ferida, música dolente,

verso poema, conto encantado,
frase seguinte, negro sistema,
seguir o lema, caldo entornado,
homem pedinte, mudança de tema,

canção presente, cheiro de mar,
sardinha no pão, sopa bem quente,
vinha semente, o verbo amar,
abraço de irmão, adeus a doente,

aperto de mão, sorriso acabado,
nova partida, foge um ladrão,
fútil sensação, pulso cortado,
cicatriz da ferida, bate um coração,

amargo de boca, doença sem cura,
sentido trinado, rebeldia louca,
voz meio-rouca, tanto se atura,
sempre este fado, coisa tão pouca.

 
António MR Martins

Sara Timóteo




A ESPERA

As avelãs caem
no regaço da minha espera.
Permaneço.

Os ventos vivem
de mil percursos de seda e tálamo
e não dizem novas do teu paradeiro.

Sob os meus olhos estancados
à beira do tempo,
as flores de avelaneira
murcham no meu peito
e, amigo, esmoreço.

 
Sara Timóteo, in “Deixai-me Cantar a Floresta”, página 16, edições Papiro, Janeiro 2011. 

 

6.



Aqui me quedo sentado e a palavra surge-me no caminho do pensamento
e escrevo, aquilo que filtro, deixando tanta coisa por dizer.

Quero inventar o poema quando tudo já se inventou. E a palavra,
que também não é minha, quero trazê-la para aqui.

Será que conseguirei mudar o mundo?!...

 
António MR Martins 

Teresa Brinco de Oliveira




O último dia

 
era o último dia frente ao mar
essa imensidão que me deixara a alma
em devaneios.
por ele sereias e marinheiros
se haviam fundido
em universos de Amor
salvando o corpo, naufragando a alma.

era o último dia…
esse dia transformara o mar em cinza
e até as gaivotas haviam partido
rumo a outros mares
procurando novas marés.

só ao longe, fina linha longitudinal
onde outrora eu vira sonhos
existia, agora, a brancura
liquefeita dos meus
sortilégios.

 
Teresa Brinco Oliveira, in “ O Riso Rasgado do Tempo”, página 74, edições Edita-Me, Maio 2011. 

Sou o que sou e nada mais


Imagem da net, em: www.pensaforadacaixa.com


Sou um poeta mudo entre os sinais
onde as palavras não imitem sons,
angústia de muitos e outros que tais
escrevendo seus sentires maus e bons.

Sou a chegada que inventa partidas
no rumo dos versos e do poema,
margem limite das vidas esquecidas
e arremesso para qualquer sistema.

Sou balão de ensaio e sopro de velas
e tão verdadeiro como fingidor…
tal como o mar acolhe caravelas.

Sou mero defeito, até no esplendor
e observo a partir das janelas
que me inspirem a escrever o amor.

 
António MR Martins

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Lita Lisboa




GAIVOTAS…

 
Grasnam no céu, as gaivotas,
pairando sobre o oceano…
Fogem da Terra, assustadas
com a visão dum país amordaçado,
onde os ecos da voz se perdem
num canto à sombra do nada.

Grasnam as gaivotas,
chorando a dor
das extintas primaveras,
de aromas fenecidos.

Em mim, persistem seus lamentos
e consumida pelos sons,
que me arrebatam os sonhos
do nascer dum mágico elixir,
a alma quebra-se, orvalhada
e vou perdendo a vida aos poucos,
sem ainda ter morrido.

 
Lita Lisboa, in “Crepúsculo”, página 21, edições Temas Originais, Coimbra, 2012.

Levei o meu mundo


Imagem da net, em: www.redballoon1.com.br


Levei o sol no bolso da camisa
e a lua na capa presa às costas,
nuvens no cinto de forma precisa
água num cantil para as respostas.

Levei as estrelas como lanternas
e o ar em balões de muitas cores,
o vento seguiu-me junto às pernas
num saco cheiro de todas as flores.

Levei também a noite e o dia
e a madrugada e a tarde quente,
juntinhas à manhã da ousadia.

Levei sementes do verde ausente
e os paladares duma frutaria
com a natureza da minha gente.

 
António MR Martins

Raquel Rodrigues




Manhã Outonal

 
Sentada no banco do jardim
sinto o vento fresco da manhã
beijar o meu rosto…
fecho os olhos com emoção
e voo como águia livre
no pensamento sonhado
mergulhando no presente…
abro os braços e num amplexo os fecho
na razão de viver no mundo da paixão sentida
no enternecimento do viver intenso do amor…
caminho contra o vento
por entre as folhas secas que ele fez cair no chão
ouço o seu estalar por baixo dos meus pequenos pés…
percorro o espaço que dá até à praia…
sinto a areia nos pés descalços
ao mesmo tempo que o sol
penetra no meu corpo
ansioso pelo teu
subjugado à sua ausência…
Inspiro o ar já quente do fim da manhã
e sinto o cheiro da maresia
que me imobiliza neste viver impetuoso e intenso do amor

 
Raquel Rodrigues, in “Sentimentos”, página 14, edições Euedito, 2011.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Envolventes sentidos


Imagem da net, em: www.artistlevel.org


Fitei de relance teu movimento
nessa fragilidade espontânea,
como folha movida pelo vento
de forma natural e consentânea.

Suspirei fragrâncias sedutoras
emanadas do ar que expelias,
esfriei as imagens sonhadoras
incentivo a tantas ousadias.

Burilei meus gestos sem percalços
em intenções por nunca desmedidas
sequência de estarmos descalços.

Porém inventei algumas partidas
peneiradas dos conceitos mais falsos
como uma ilusão de tantas vidas.

 
António MR Martins