segunda-feira, 4 de novembro de 2013

João Carlos Esteves




EM BUSCA DE COMEÇO

os dias repetem-se
numa canção desgastada
que ecoa nas cores vagas de quadros desvanecidos

o espelho devolve-me imagens liquefeitas
de minutos que se escoam
e teimam em regressar

solto um grito exaurido
sem ouvidos que o acolham em regaço…

… perde-se
na inquietude das sombras que me toldam a palavra...

... e a palavra refugia-se
na capa protectora do silêncio
em busca de começo

 
João Carlos Esteves, in “Inventei-te as Manhãs”, página 25, edições Chiado Editora, Maio de 2013.

sábado, 2 de novembro de 2013

tempero poético




há quem diga
que a poesia se deve servir fria

outros acharão
que deverá ser morna
ou talvez quente
sem presunção

todavia
aquilo que conta
e que fica na memória
de todos os enredos
é o verso inesquecível
o soneto da perfeição
a palavra verosímil
o poema da inquietação

será esse
o pleno tempero
no enriquecimento
de cada escrita poética

 
António MR Martins

Fernando Saiote




MEDO

 
Medo
É saber e não dizer,
É caminho de ida sem volta,
Árvore tosca sem raízes.
São crianças de sorrisos infelizes
Homens que não gritaram a sua revolta
Escrever sem saber ler.

Medo
É ter um dia conhecido a coragem,
Amar porque uma vez se odiou,
Fechar os olhos à realidade.
É dizer sim quando é não de verdade
Calar uma palavra que se roubou,
Dizer que o amanhã é miragem.

Medo
É estar vivo,
Morrer um pouco aqui, outro ali
Olhar em redor e ver… nada.
É sentir esta vida parada
Esquecer de me lembrar de ti,
É não saber para que sirvo.

Fernando Saiote, in “Pedras Soltas”, página 10, edições Edium Editores, Novembro de 2008.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Menção Honrosa nos XXI Jogos Florais do Outono - 2013, Monforte


 
 
Obtive uma Menção Honrosa nos XXI Jogos Florais do Outono - 2013, do Município de Monforte, na categoria de "Poesia Obrigada a Mote", com o meu poema "Terras Sofridas".

Mais uma das raras notícias agradáveis.

 


Degustação da palavra através do poema


Imagem da net, em: www.cachacaexpress.com.br


Juntam-se todas as sílabas com jeito
algumas vírgulas e pontos finais,
colocam-se as palavras a preceito
o resultado terá os seus ideais.

Apimentam-se com paixão q.b.
mexendo-se o molho à condição,
sustentáculo propício para quem lê
rodeando os versos com emoção.

Cortam-se os sentidos subjacentes
acrescidos de mais alegria ou dor
entre teorias das mais correntes.

Elevam-se os conceitos de valor
disserta-se de forma convincente
e mistura-se o ódio com o amor.

 
António MR Martins

Conceição Bernardino





Hei-de arrancar as palavras com os dentes

 

Hei-de arrancar as palavras com os dentes
espremê-las, uma a uma com a saliva que me
resta
hei-de suportá-las mesmo que me cortem a língua
e a sirvam aos cães pródigos da benevolência, a
ira

Saberei à mesma escrevê-las
nas flores de Maio, em pleno inverno,
antes do romper da frígida madrugada
em punhos feitos de mármore escarlate

Hei-de desenhar nos escarros desta liberdade
os nomes a carvão, onde Auschwitz calou os seus

Hei-de levantar a voz, engolir a palavra em seco
e vomitá-la onde a surdez a cala, corrupta

 
Conceição Bernardino, in “identidades”, página 10, edições Lavra… Boletim de Poesia, 2013.    

sábado, 26 de outubro de 2013

A palavra prometida


Imagem da net, em: www.vimeo.com


A palavra soltava-se
Dos paladares mais amorfos
E os versos
Não tinham contemplações
Nem receios
De cada raiz do medo
Que fecundasse o âmago da sujeição

A palavra era a razão
A verdade
Em condimentos de sabedoria
E inquietação

A cada nova lua
Que ilustrava o pleno céu
A palavra vertia significados
Às vezes de sabor amargo
Outras
Deliciosamente doce

E em cada poema
Que o poeta escrevia
Um novo sabor
Ambientava
Os semblantes de todos os leitores
Em busca da ementa da perfeição

Aí o poeta
Elevava a voz digestiva
No anseio de descobrir
Novos paladares
Outra plenitude
Para futuras degustações
Da palavra prometida

António MR Martins

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Raquel Naveira




Barcos

 
No outro mundo
Precisarei de barcos,
Muitos barcos modelares:
De junco,
Largas velas,
Remos fortes,
Que subam e desçam,
Levados pela brisa
Aos celestes lares.

No outro mundo,
Precisarei de barcos,
Para navegar pelo céu
Como o rei-sol
E iluminar o além.

Sou hábil marinheiro,
Viver não será mais preciso,
Navegar será preciso.

Raquel Naveira, in “Senhora”, página 35, capítulo “Senhora do Nilo”, edições Temas Originais, 2010.

sábado, 19 de outubro de 2013

dizem-me


Imagem da net, em: www.tudonanecessaire.com


dizem-me
das falácias descompostas
e doutras prosápias inexpostas
para além do amargo pólen
que se espalha nas palavras

dizem-me
da omissão desgastada
do paradeiro das apostas
do medo desconsolado
que nos afasta da contenda

dizem-me
dos contrastes desfigurados
do sentido aleatório
do arrepio da fala
que nos prende a voz guerreira

dizem-me
do mais que aqui não digo
de tantas e tantas outras coisas
da mancha dum alastrar crescente
que deste morrer cúmplice nos suspeita

 
António MR Martins

Gabriela Pais





AS PEDRAS DA MINHA RUA

 
Gosto de ver as pedras da minha rua,
Pelo passar do tempo enegrecidas
Batidas na noite pela luz da lua,
Nas manhãs, pelo sol são aquecidas.
Pisadas por montes de pés, sem conta
Uns enfiados em finos sapatos,
Outros em alparcatas, pouca monta,
Gastam-te, fazendo cair os incautos.
Não soltam ais, as pedras da minha rua,
Ao passarem, são libertos por quem vai
Atarantadas e tolas cabeças na lua.
Pedras antigas, nos enxergaram nascer,
Eram estas as ruas da velha Lisboa
Não posso esquecer que nos viram crescer.

 
Gabriela Pais, in “Matiz do Mundo”, página 16, edições Temas Originas, 2011.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Quando a amizade se despede





À Madalena Boavida,
Uma grande mulher, uma enorme amiga.
Até um dia!...

 

 
As veias já não têm o afago das correntes
E a mente estagna todas as memórias
De forma límpida
Surdamente mordaz

Tudo se consome na tarde
Na partida do esquecimento
E na chegada dorida a outro palanque
Onde retornarão todas as recordações

A amizade flutua
Tal como o fazem as aves
No seu voo brando
Sentido ao de leve na frescura de cada horizonte
Como matizes vinculadas a todo o pensamento

A colisão agita todos os sentires
E expurga a bílis ardente
E amarga como fel
Fazendo-nos meditar sobre
A existência e seus devaneios
Numa razão desnatural
Embora verdadeira
Que consolida todos os desígnios

E nós acreditamos

A malignidade das coisas
As reais e as adjacentes
Ficou cortada de vez
E o sofrimento adormeceu para sempre
Regressando todo o encanto da paz

Mas custam tanto interiorizar
Estes pressupostos
Que filtram
Cada existência terrena

Talvez um dia
Nos voltaremos a entender

 
António MR Martins

sábado, 12 de outubro de 2013

Impulsionadora dança


Imagem da net, em: www.senado.gov.br


Bailam os dançadores aprumados
ao som da música que não enjeitam,
aceleram movimentos compassados
numa sintonia que nunca rejeitam.

Dois passos à esquerda, três à direita,
entre duas passagens pelo centro,
a dança infinita logo se estreita
empertigando quem está por dentro.

Flui harmonioso tal desvario
na avidez de muito mais rebuscar
por aquele emocionante desafio.

Animam as vistas por tão nobre saltar,
num ritmo que aquece um pleno frio,
relevando magia num sublime dançar.

 
António MR Martins

Cristina Pinheiro Moita




Jardim das Rosas

 
Guarda bem este poema
se eu morrer não vale nada
o que vale são as penas
e as penas voam por nada.

De tudo o que vale a pena
foi o que encontrei demarcada
quando eu morrer fecho os olhos
e a pena pára deitada.

Não quero precipício de nada
só o fogo e a alvorada
e a minha cinza espalhada.

De barco
nas águas.

No jardim das rosas.

No rio Tejo.

- Onde eu amei!

Sem pedir nada.

 
Cristina Pinheiro Moita, in “Falua da Saudade”, página 40, edições Lua de Marfim, Agosto de 2011.  

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Caixote do lixo




Passo o simples estado inocente
nesse escolhido lugar que é o teu,
o papel rasgado do lixo pendente
em ti não deposito, vê o que me deu.

Ficas mais vazio das maledicências
pelo que te submetem no condimento,
por vezes te enchem as saliências
e nem desferem um agradecimento.

Noutros momentos o teu cheiro não presta
tendo em conta o que deixam para ti…
enredo pra que o mosquedo faz festa.

Tanta gente por ti passa e sorri
que nem sequer teu valor então atesta
mas eu folgo em poder ver-te, por aqui.

 
António MR Martins

Joaquim do Carmo




MEIGO AMOR

 
Que bom sorrir, com doçura
Cada aurora, ao sol nascente,
Sentindo a tua ternura
Viva, a meu lado, presente!

Cantar toda a formosura
De teu ser resplandecente
De teu sorriso a candura
Amar, feliz e contente!

Sentir batendo no peito,
Abrindo as asas, ao vento,
Meu coração pequenino:

Dela tomar, meigo, o jeito
E fazer-me, num momento,
Em teu regaço, menino!

 
Joaquim do Carmo, in “Amanhecer pelo fim da tarde”, página 18, edições Lua de Marfim, Abril de 2013.