quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Pelo sabor da palavra


Imagem da net, em: www.sedeperfeitos.blogspot.com


Palavra tão escaldante
Submerso alimento
De teor dilacerante
Capaz sem conter provento

Pela voz encomendada
Ecoa na sala vazia
Entre bandeira hasteada
Sabor de refeição fria

Encontro sem cabimento
Na ilusão desmedida
Rastreio do pensamento
Cura de muita ferida

Eis o paladar precoce
Duma palavra sem sabor
Vínculo de qualquer tosse
Ofuscada sem ter valor

Mói cada sentir do imo
Segredada num momento
Com elas às vezes rimo
Mesmo sem consentimento

Trago-a também no peito
Bem juntinho ao coração
Se nela vejo defeito
Sustento-a por palavrão

António MR Martins

Mafalda Matos Dinis




A FANTÁSTICA AMIZADE

 
Aproveita os amigos
E a amizade que tens,
Esquece todos os males
E aproveita os teus bens!

Às vezes há zangas,
Mas não te preocupes com isso,
A amizade é assim,
Aceita esse compromisso…

Ajuda toda a gente
Como se fosse a tua vida.
Cuida dos teus amigos
Sempre alegre e divertida.

A fantástica amizade
Põe toda a gente unida,
Sem guerras ou ressentimentos,
Durante toda a vida.

Por isso amiguinhos
Ouçam bem o que vos digo.
Faça chuva ou faça Sol,
Ajudem sempre o vosso amigo.

Mafalda Matos Dinis, in “Mil palavras para quê?”, página 15, edições Temas Originais, Coimbra, 2010.

Nota: Este livro foi editado quando a autora tinha 9 anos.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O silêncio na voz do poema


Imagem da net, em: www.poesiaemvolta.blogspot.com


Prende-se-me a voz
Nas entrelinhas dos versos

Costumes antigos
Que teimam em não passar
Apesar do sofrimento
Das palavras esquecidas

Elas que nos elucidam do texto
Discernindo-o de sequências diversas

É carismático este devir
Onde desaguam tantas interrogações

A degustação do poema
Faz-se intervalada
Com verdadeiros significados
Em cada pausa
Mesmo que inventada

Eis o silêncio do poema
Que elevará a próxima palavra a ser declamada

 
António MR Martins

Vóny Ferreira




AS PALAVRAS FOGEM DE MIM

As palavras fogem de mim…
Numa fuga que me fere.
Já não as entendo!
Já não as procuro.
A minha exaustão
tem a dimensão
do mundo nelas escancarado
e que agora se fecha
num soluço amargo.
Desesperado…
Como se o irrealismo
que me mostram
fosse o mesmo…
ah, o mesmo…
que me pariu um dia!
As palavras fogem de mim…
Numa cavalgada que me assusta.
Despeço-me das suas carícias.
Agora…
Reencontro-as em açoites
Em todas as consoantes
Vogais e vírgulas,
sem ponto final.
Reencontro-as estéreis
nos risos que viraram lágrimas
Num despudor de amante infiel!
Agora…
Recuso-me a fazer amor com elas
Nesta entrega de amantes fugidios
Que se amam em becos floridos
Com sardinheiras encarnadas
e vasos de manjericos!   

Vóny Ferreira, in “Cascata de Sílabas”, página 66, edições Mosaico de Palavras, Junho de 2009.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Laranja amarga e doce


Imagem da net, em: www.imagensdanet.com


Há um poema reverso
Entre a palavra e o verso
E o sumo da doce laranja
Amarga pelo travo sofrido
Entre a esperança e a inquietação

Cortada em desiguais partes
Num meio de simbolismo
Onde se assumem uma esquerda
E uma outra direita
Na plenitude das contradições

Os gomos são as referências
De tantas indulgências
Sarcasmos de tantas vidas
Nas sementes da integração
Num porvir desintegrado

Um mundo partido ao meio
Sementes entre os dois lados
Todas elas similares
Em toda a sua diferença
Tal como os idênticos gomos
Díspares nos seus preceitos
Entre o seu divino suco
Amargo ou doce
Por entre cada entendimento

Laranjas
Sempre laranjas
Sempre diferentes ou quiçá iguais
No peso ou no tamanho
Nas sementes germinadoras
Ou nos gomos da sua essência

Mas sendo
Sempre laranjas

 
António MR Martins

João Carlos Esteves




EM BUSCA DE COMEÇO

os dias repetem-se
numa canção desgastada
que ecoa nas cores vagas de quadros desvanecidos

o espelho devolve-me imagens liquefeitas
de minutos que se escoam
e teimam em regressar

solto um grito exaurido
sem ouvidos que o acolham em regaço…

… perde-se
na inquietude das sombras que me toldam a palavra...

... e a palavra refugia-se
na capa protectora do silêncio
em busca de começo

 
João Carlos Esteves, in “Inventei-te as Manhãs”, página 25, edições Chiado Editora, Maio de 2013.

sábado, 2 de novembro de 2013

tempero poético




há quem diga
que a poesia se deve servir fria

outros acharão
que deverá ser morna
ou talvez quente
sem presunção

todavia
aquilo que conta
e que fica na memória
de todos os enredos
é o verso inesquecível
o soneto da perfeição
a palavra verosímil
o poema da inquietação

será esse
o pleno tempero
no enriquecimento
de cada escrita poética

 
António MR Martins

Fernando Saiote




MEDO

 
Medo
É saber e não dizer,
É caminho de ida sem volta,
Árvore tosca sem raízes.
São crianças de sorrisos infelizes
Homens que não gritaram a sua revolta
Escrever sem saber ler.

Medo
É ter um dia conhecido a coragem,
Amar porque uma vez se odiou,
Fechar os olhos à realidade.
É dizer sim quando é não de verdade
Calar uma palavra que se roubou,
Dizer que o amanhã é miragem.

Medo
É estar vivo,
Morrer um pouco aqui, outro ali
Olhar em redor e ver… nada.
É sentir esta vida parada
Esquecer de me lembrar de ti,
É não saber para que sirvo.

Fernando Saiote, in “Pedras Soltas”, página 10, edições Edium Editores, Novembro de 2008.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Menção Honrosa nos XXI Jogos Florais do Outono - 2013, Monforte


 
 
Obtive uma Menção Honrosa nos XXI Jogos Florais do Outono - 2013, do Município de Monforte, na categoria de "Poesia Obrigada a Mote", com o meu poema "Terras Sofridas".

Mais uma das raras notícias agradáveis.

 


Degustação da palavra através do poema


Imagem da net, em: www.cachacaexpress.com.br


Juntam-se todas as sílabas com jeito
algumas vírgulas e pontos finais,
colocam-se as palavras a preceito
o resultado terá os seus ideais.

Apimentam-se com paixão q.b.
mexendo-se o molho à condição,
sustentáculo propício para quem lê
rodeando os versos com emoção.

Cortam-se os sentidos subjacentes
acrescidos de mais alegria ou dor
entre teorias das mais correntes.

Elevam-se os conceitos de valor
disserta-se de forma convincente
e mistura-se o ódio com o amor.

 
António MR Martins

Conceição Bernardino





Hei-de arrancar as palavras com os dentes

 

Hei-de arrancar as palavras com os dentes
espremê-las, uma a uma com a saliva que me
resta
hei-de suportá-las mesmo que me cortem a língua
e a sirvam aos cães pródigos da benevolência, a
ira

Saberei à mesma escrevê-las
nas flores de Maio, em pleno inverno,
antes do romper da frígida madrugada
em punhos feitos de mármore escarlate

Hei-de desenhar nos escarros desta liberdade
os nomes a carvão, onde Auschwitz calou os seus

Hei-de levantar a voz, engolir a palavra em seco
e vomitá-la onde a surdez a cala, corrupta

 
Conceição Bernardino, in “identidades”, página 10, edições Lavra… Boletim de Poesia, 2013.    

sábado, 26 de outubro de 2013

A palavra prometida


Imagem da net, em: www.vimeo.com


A palavra soltava-se
Dos paladares mais amorfos
E os versos
Não tinham contemplações
Nem receios
De cada raiz do medo
Que fecundasse o âmago da sujeição

A palavra era a razão
A verdade
Em condimentos de sabedoria
E inquietação

A cada nova lua
Que ilustrava o pleno céu
A palavra vertia significados
Às vezes de sabor amargo
Outras
Deliciosamente doce

E em cada poema
Que o poeta escrevia
Um novo sabor
Ambientava
Os semblantes de todos os leitores
Em busca da ementa da perfeição

Aí o poeta
Elevava a voz digestiva
No anseio de descobrir
Novos paladares
Outra plenitude
Para futuras degustações
Da palavra prometida

António MR Martins

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Raquel Naveira




Barcos

 
No outro mundo
Precisarei de barcos,
Muitos barcos modelares:
De junco,
Largas velas,
Remos fortes,
Que subam e desçam,
Levados pela brisa
Aos celestes lares.

No outro mundo,
Precisarei de barcos,
Para navegar pelo céu
Como o rei-sol
E iluminar o além.

Sou hábil marinheiro,
Viver não será mais preciso,
Navegar será preciso.

Raquel Naveira, in “Senhora”, página 35, capítulo “Senhora do Nilo”, edições Temas Originais, 2010.

sábado, 19 de outubro de 2013

dizem-me


Imagem da net, em: www.tudonanecessaire.com


dizem-me
das falácias descompostas
e doutras prosápias inexpostas
para além do amargo pólen
que se espalha nas palavras

dizem-me
da omissão desgastada
do paradeiro das apostas
do medo desconsolado
que nos afasta da contenda

dizem-me
dos contrastes desfigurados
do sentido aleatório
do arrepio da fala
que nos prende a voz guerreira

dizem-me
do mais que aqui não digo
de tantas e tantas outras coisas
da mancha dum alastrar crescente
que deste morrer cúmplice nos suspeita

 
António MR Martins

Gabriela Pais





AS PEDRAS DA MINHA RUA

 
Gosto de ver as pedras da minha rua,
Pelo passar do tempo enegrecidas
Batidas na noite pela luz da lua,
Nas manhãs, pelo sol são aquecidas.
Pisadas por montes de pés, sem conta
Uns enfiados em finos sapatos,
Outros em alparcatas, pouca monta,
Gastam-te, fazendo cair os incautos.
Não soltam ais, as pedras da minha rua,
Ao passarem, são libertos por quem vai
Atarantadas e tolas cabeças na lua.
Pedras antigas, nos enxergaram nascer,
Eram estas as ruas da velha Lisboa
Não posso esquecer que nos viram crescer.

 
Gabriela Pais, in “Matiz do Mundo”, página 16, edições Temas Originas, 2011.