terça-feira, 31 de dezembro de 2013

variações temporais


Imagem da net, em: www.r7universal.blogspot.com



fecham-se as portas
lentamente
de um dia
de um mês
de um ano
onde as paisagens
foram secas e húmidas
a destempo

fecham-se as portas
na dor
que nos tormenta o íntimo desflorido
na inquietude dos sobressaltos
em correntes de desespero
nos episódios da vida…
daquela vida verdadeira

fecham-se as portas
rangendo
nos intervalos do silêncio
ante a lágrima não escorrida
pelo peito do sofrimento

fecham-se as portas
mas outras se reabrem
dizem!…

que as portas do amanhã
nos proporcionem
vistas verdejantes
com azuis cintilantes
e que um novo ar
mais puro
possa entrar em nossas narinas
rejuvenescendo-nos as memórias
e acicatando-nos para o futuro

a vida é assim
plena de altos e baixos

as portas
essas
consoante a ferrugem das dobradiças
e dos fechos que as sustentam
vão rangendo nos seus desígnios
umas mais que outras
entreajudadas pelas janelas
que entreabertas
as vão rodeando

que a abertura de novas portas
nos sustentem na felicidade
tanto no sentido da vida
como no silêncio da morte!...

 
António MR Martins

sábado, 21 de dezembro de 2013

Descubra-se o caminho


Imagem da net, em: www.dicasdacilene.blogspot.com


Pousam-me as memórias na mente
estagnadas pelo tempo infindo,
presas enleadas em tanta corrente
que me soterram e trazem desavindo.

Vejo ao meu redor e tudo se mantém
com a esperança esquartejada,
pela pobreza olhada com desdém
no sabor duma fome ameaçada.

Soltem-se-me as memórias de novo
na luz que não encadeia a vida
nem o caminhar lesto deste povo.

Faça-se com que não seja perdida
a mensagem que agora renovo
lutando-se pela melhor saída!...

 
António MR Martins

Álvaro Alves de Faria


Do poeta brasileiro mais português...



CARTA

 
Quando escrevi minha última carta,
não sabia que também
consumia meu último lápis.
As palavras saltaram manchadas do nada,
na última carta que escrevi
e o lápis ia aos poucos desaparecendo,
inútil como uma sombra.

Quando amanheci e enviei a carta a mim mesmo,
no endereço que desconheço,
a ao ler contive as frases esquecidas,
como se assim pudesse
compreender o que não tinha a me dizer.

Inútil trama de mim
que a mim se refere sem me sentir:
as palavras estão definitivamente mortas
no risco de um lápis
que também não sabe,
a escrever-se em si mesmo
essa carta derradeira
que me será entregue
quando não estarei mais aqui.

 
Álvaro Alves de Faria, in “Almaflita”, págs. 44 e 45, edições Palimage, Setembro de 2013.   

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Vou estar em Aveiro, no dia 4 de Janeiro, pelas 15 horas, no Hotel Moliceiro, a apresentar o meu amigo e enorme poeta Vítor Cintra e o seu último trabalho em livro "Nas margens do esquecimento", sob a chancela Lua de Marfim.




Apareçam e tragam mais amigos, também.

"Margem do Ser", de António MR Martins

 
No início do próximo ano, o meu novo livro de poesia "Margem do Ser", isto se não existirem quaisquer contratempos na minha vida e/ou da minha parte.
 
 

A tua fotografia



Rasguei
a última foto
que de ti tinha
depositando-a
no cesto
dos papéis rasgados.

Tocaram à porta.

Eras tu!...

Reconstrui-te
em fotografia
de novo.

 
António MR Martins

Angelina Andrade





REQUIEM

Parem o mundo
quando um poeta morrer!
Encerrem todas as cifras
que desvendam o amor
Deixem que o mundo se cubra
num manto de solidão
e apenas brotem dos olhos
lágrimas como oração
Um minuto de silêncio
com o céu, a escurecer
pois Deus ficou em júbilo
apenas para o receber

Angelina Andrade, in “Nas Asas de Simorgh”, página 70, edições Temas Originais, Coimbra, 2012.  

domingo, 24 de novembro de 2013

Validades


Imagem da net, em: www.cinepop.com.br


Pelo amor estarei sempre presente
Mesmo nas ausências obrigatórias;
Assim, nada pode haver que lamente
Por entre essas fases transitórias.

Entre os valores enaltecidos…
Onde se relevam tantos carinhos,
Assentam outros teores proibidos
Que podem afugentar passarinhos.

Mas o amor não pode ter fronteiras
Nem das algemas pode ser prisioneiro
Em tantas das etapas derradeiras.

Por isso nunca poderá ser ligeiro
Nem provocador de muitas asneiras…
Jamais parcial, mas sempre inteiro.

 
António MR Martins

Teresa Teixeira




POEMA RASGADO

 
Eu queria cantar o amar…
(solta-se um vento que estremece as ondas,
namora-me o mar)

Queria cantar a força…
(solta-se um tempo que estreita as fissuras,
fascina-me a forca)

Queria cantar a paz…
(rasgo-me em verso, de lírios vestida,
sou branco fugaz)

Quero cantar a esperança!
(prende-me a rima que busca sem rumo…
… as ranhuras ásperas da cobrança…)

 
Teresa Teixeira, in “Da serena idade das coisas”, página 50, edições Temas Originais, Coimbra, 2012. 

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Olhar


Imagem da net, em: www.sabe.br



Olhei-te
Na limpidez
De relance

E nesse olhar
Abarquei o universo.

 
António MR Martins

Vítor Cintra - 2




D. JOÃO I (1385 – 1433)

Casado com Filipa de Lencastre,
Tornou-se Dom João, Mestre d’ Avis,
Monarca de prestígio, como quis,
Salvando assim o reino do desastre.

Tentando impor-se à força, diz a História,
Castela, nas batalhas, foi vencida.
Deixou fugir a presa, apetecida,
Ficando-nos do rei Boa Memória.

O povo, em todo o reino, e muitos nobres,
Nascidos «os Segundos», que eram pobres,
Tal como foi Dom Nuno, “O Condestável”,

Fizeram, com arrojo e com coragem,
Surgir em Portugal nova linhagem,
Senão a mais ilustre, a mais notável.

 
Vítor Cintra, in “Dinastias”, página 27, edições Temas Originais, Coimbra, 2010.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Releve-se a Humanidade


Imagem da net.


Se engrandecem de ti simples formas
fortalecimento iluminador,
florir privilegiado sem normas
sustenta teu ser tão enriquecedor.

Apanágio por vezes irreverente
no cerne de tamanha perspicácia,
jeitos teus têm maneira saliente
onde se desenvolve tanta eficácia.

Nunca irás acotovelar ninguém
nem enformarás gestos infundados
sujeitando ao perjúrio qual alguém.

Não suportarás discursos deformados
nem filhos rejeitados por cada mãe
num mundo entre seres maltratados.

 
António MR Martins

Asun Estévez

(Galiza)



Medrar nas mans

 
Hoxe vin tras as frías pedras
agocharse cauta á liberdade.
Unha liberdade que nos observa
profanada e vendida
nunha doutrina de chuvias malditas.

Tras as pedras
políticas desorientadas,
desvergoñadas, indiferentes,
desleigadas e fendidas.
E choran as pobres putas
de meixelas rotas
acubilladas no infortunio.

E xemen os medos enriba
e detrás das pedras,
e as promesas seguen ulindo a vello.
Apoloxía de tódolos sons contidos
a través dos séculos.

Pero nas mans dos nenos
medran cada día centos de papoulas…

 
Asun Estévez, in “Medrar nas mans”, página 51, edições Ir Indo Edicións, 2013.

domingo, 17 de novembro de 2013

ainda espero


Imagem da net, em: www.doutissima.com.br


ainda espero
a dobragem do caminho
amplo e aberto
em que se fazem as visitas a tantos
campos alheios a descoberto

ainda espero a nova fórmula
do desejo prometido
onde se vertem as saudades
do último encanto adormecido
entre o duro sofrimento
de uma morte
jamais aliviada

ainda espero o iluminar
coerente e intenso
que faça desenvolver novos pretextos
inovadores num transitar repleto
de inquietação
mas virtuoso nos seus desígnios

ainda espero o que nunca alcançarei
como num sonho imaturo
desmedido
tão imaginário
na réstia da moldura visível
que se afronta ao meu olhar
a cada segundo intemporal
de um tempo incontável

sem reveses
sem contemplações
sem palavras
em silêncio

ainda espero

 
António MR Martins