domingo, 12 de janeiro de 2014

A árvore da vida



ao tronco me encosto
na sombra efémera
desguarnecida no tempo

aqui arrecado
os prantos que são da vida
encerrando-os em minhas gavetas

aqui alinhavo
dissertares e percursos vindouros
esperançosos

aqui embalo palavras
agitando-as depois
e retirando-as  de seguida
do pensamento
uma a uma

nestes ramos
se penduram sentidos
do simples descanso
do voo de tantas aves

é nesta árvore
onde o meu momentâneo lar
de memórias
acontece

António MR Martins
 
 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A candeia das remotas memórias


Imagem da net, em: www.trocadero.pt



Da candeia se apagam
as rédeas da visibilidade
e as gotas de petróleo secam seu desvario
numa acendalha descabida
onde outrora o azeite fazia sua escalada

Da candeia se desfocam
as imagens ternas e afagantes
entre o denodo persistente do frio
e o pavio da concordância
que repele todas as máculas da tristeza breve

Da candeia flamejante
pousada no desvario da memória
se ungem os sentidos
através da tangente da sobrevivência
ante a espera do porvir

Da candeia irradiante
o calor único e a luz ténue
metamorfoseiam
a palidez incandescente
de um passado nunca esquecido

Da candeia velhinha
sobram tantos pedaços de história
na simplicidade do seu manusear
entre as esferas da solidão
e a negrura de tantas noites

Pela candeia sem luz
cresce a escuridão do ocaso
na presença de tantos anseios
que aguardam ansiosamente
a claridade de um novo dia

 
António MR Martins

Vítor Cintra - 3





Lembrando:
SIDÓNIO MURALHA

Se o «Novo Cancioneiro» foi razão,
Ou foi, apenas, uma solução
P’ra criticar visões salazaristas,
Em versos ditos neo-realistas,
Jamais o saberemos. Logo agora
Que quem escreveu já cá não mora.

No mal dizer, porém, há uma certeza,
É tradição da gente portuguesa.
E, quando o mal dizer assenta certo,
A gente sente quase o céu aberto.

 
Lembrando:
DAMIÃO DE GÓIS

Nascendo na nobreza, em Alenquer,
Foi Damião de Góis historiador;
Mostrou na sua vida tal saber,
Que se tornou versátil escritor.

Mas não provou somente a escrever
Os seus imensos dotes e fervor,
Também noutras alturas provou ser
Bom músico e até compositor.

Das artes foi mecenas, por prazer,
Colecionando obras com valor,
Quando era no estrangeiro embaixador.

Voltando a Portugal veio a sofrer,
Por mera insensatez de um delator,
O cárcere às mãos do Inquisidor.

Vítor Cintra, in “ Nas Margens do Esquecimento”, edições Lua de Marfim, páginas 49 e 73, Outubro de 2013.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

variações temporais


Imagem da net, em: www.r7universal.blogspot.com



fecham-se as portas
lentamente
de um dia
de um mês
de um ano
onde as paisagens
foram secas e húmidas
a destempo

fecham-se as portas
na dor
que nos tormenta o íntimo desflorido
na inquietude dos sobressaltos
em correntes de desespero
nos episódios da vida…
daquela vida verdadeira

fecham-se as portas
rangendo
nos intervalos do silêncio
ante a lágrima não escorrida
pelo peito do sofrimento

fecham-se as portas
mas outras se reabrem
dizem!…

que as portas do amanhã
nos proporcionem
vistas verdejantes
com azuis cintilantes
e que um novo ar
mais puro
possa entrar em nossas narinas
rejuvenescendo-nos as memórias
e acicatando-nos para o futuro

a vida é assim
plena de altos e baixos

as portas
essas
consoante a ferrugem das dobradiças
e dos fechos que as sustentam
vão rangendo nos seus desígnios
umas mais que outras
entreajudadas pelas janelas
que entreabertas
as vão rodeando

que a abertura de novas portas
nos sustentem na felicidade
tanto no sentido da vida
como no silêncio da morte!...

 
António MR Martins

sábado, 21 de dezembro de 2013

Descubra-se o caminho


Imagem da net, em: www.dicasdacilene.blogspot.com


Pousam-me as memórias na mente
estagnadas pelo tempo infindo,
presas enleadas em tanta corrente
que me soterram e trazem desavindo.

Vejo ao meu redor e tudo se mantém
com a esperança esquartejada,
pela pobreza olhada com desdém
no sabor duma fome ameaçada.

Soltem-se-me as memórias de novo
na luz que não encadeia a vida
nem o caminhar lesto deste povo.

Faça-se com que não seja perdida
a mensagem que agora renovo
lutando-se pela melhor saída!...

 
António MR Martins

Álvaro Alves de Faria


Do poeta brasileiro mais português...



CARTA

 
Quando escrevi minha última carta,
não sabia que também
consumia meu último lápis.
As palavras saltaram manchadas do nada,
na última carta que escrevi
e o lápis ia aos poucos desaparecendo,
inútil como uma sombra.

Quando amanheci e enviei a carta a mim mesmo,
no endereço que desconheço,
a ao ler contive as frases esquecidas,
como se assim pudesse
compreender o que não tinha a me dizer.

Inútil trama de mim
que a mim se refere sem me sentir:
as palavras estão definitivamente mortas
no risco de um lápis
que também não sabe,
a escrever-se em si mesmo
essa carta derradeira
que me será entregue
quando não estarei mais aqui.

 
Álvaro Alves de Faria, in “Almaflita”, págs. 44 e 45, edições Palimage, Setembro de 2013.   

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Vou estar em Aveiro, no dia 4 de Janeiro, pelas 15 horas, no Hotel Moliceiro, a apresentar o meu amigo e enorme poeta Vítor Cintra e o seu último trabalho em livro "Nas margens do esquecimento", sob a chancela Lua de Marfim.




Apareçam e tragam mais amigos, também.

"Margem do Ser", de António MR Martins

 
No início do próximo ano, o meu novo livro de poesia "Margem do Ser", isto se não existirem quaisquer contratempos na minha vida e/ou da minha parte.
 
 

A tua fotografia



Rasguei
a última foto
que de ti tinha
depositando-a
no cesto
dos papéis rasgados.

Tocaram à porta.

Eras tu!...

Reconstrui-te
em fotografia
de novo.

 
António MR Martins

Angelina Andrade





REQUIEM

Parem o mundo
quando um poeta morrer!
Encerrem todas as cifras
que desvendam o amor
Deixem que o mundo se cubra
num manto de solidão
e apenas brotem dos olhos
lágrimas como oração
Um minuto de silêncio
com o céu, a escurecer
pois Deus ficou em júbilo
apenas para o receber

Angelina Andrade, in “Nas Asas de Simorgh”, página 70, edições Temas Originais, Coimbra, 2012.  

domingo, 24 de novembro de 2013

Validades


Imagem da net, em: www.cinepop.com.br


Pelo amor estarei sempre presente
Mesmo nas ausências obrigatórias;
Assim, nada pode haver que lamente
Por entre essas fases transitórias.

Entre os valores enaltecidos…
Onde se relevam tantos carinhos,
Assentam outros teores proibidos
Que podem afugentar passarinhos.

Mas o amor não pode ter fronteiras
Nem das algemas pode ser prisioneiro
Em tantas das etapas derradeiras.

Por isso nunca poderá ser ligeiro
Nem provocador de muitas asneiras…
Jamais parcial, mas sempre inteiro.

 
António MR Martins

Teresa Teixeira




POEMA RASGADO

 
Eu queria cantar o amar…
(solta-se um vento que estremece as ondas,
namora-me o mar)

Queria cantar a força…
(solta-se um tempo que estreita as fissuras,
fascina-me a forca)

Queria cantar a paz…
(rasgo-me em verso, de lírios vestida,
sou branco fugaz)

Quero cantar a esperança!
(prende-me a rima que busca sem rumo…
… as ranhuras ásperas da cobrança…)

 
Teresa Teixeira, in “Da serena idade das coisas”, página 50, edições Temas Originais, Coimbra, 2012. 

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Olhar


Imagem da net, em: www.sabe.br



Olhei-te
Na limpidez
De relance

E nesse olhar
Abarquei o universo.

 
António MR Martins