domingo, 16 de março de 2014

José Ilídio Torres





poema de amor para uma mulher

 
na janela aberta do teu peito
poisam os pássaros com fulgor
em rubros lençóis de cama
a saudade pegou fogo à dor
essa que vive no leito
de quem sofre e ama

vestiste-te de orvalho fino
cumprimentaste o dia-flor
no teu ventre de mel puro
zumbiam as abelhas sem tino
à procura da memória do amor

nomeaste as coisas para o futuro
terra ar fogo água
e do outro lado deste mundo
a saudade deixou de ser mágoa
e tem-te agora em meu peito fundo

encontrei-te num canteiro
quando a tarde madura tombou
fui apicultor e jardineiro
de um beijo que alguém roubou

José Ilídio Torres, in “O amor é um tema batido”, página41, edições Temas Originais, Coimbra, 2011.

sábado, 15 de março de 2014

Fraterna consistência


Flores de primavera, por António Martins.



Pela magia dos desejos perversos
desencantam-se tantos rumores,
à revelia de conceitos dispersos
se eliminam muitos dissabores.

Dicotomia nos díspares espinhos
lisonjeio de múltiplas emoções,
dito apogeu dos simples caminhos
que fazem emocionar multidões.

Desapego no servir da partilha
consistente valor que há na vida
fora do isolamento na ilha.

Desejo na matéria dividida
carisma duma auréola que brilha
na virtude por alguém concedida.

 
António MR Martins

sexta-feira, 14 de março de 2014

Águas salobras


Imagem da net, em: www.flymazon.com


Esgueiram-se os pruridos pendentes
penhorados na suave podridão,
pelo devaneio dos inteligentes
logo à sua primeira avaliação.

Refrega sem ter apoio potencial
na mordomia de tantos trejeitos,
filtragem num engodo policial
repressor dos mais simples conceitos.

Amarras de qualquer pensamento
que ultrapasse a simples esfera,
onde nada mais tem cabimento.

Ao apodrecer da margem severa
sai rascunho dum qualquer jumento
suprindo tanta palavra sincera.

 
António MR Martins

quinta-feira, 13 de março de 2014

Gisele Wolkoff





Perfume do Tempo

Este cais
em que moram
os meus ventos
que quando te vêem
cessam

porque é tudo
tão somente
teu abraço
e a temperatura
do teu corpo
a me fazer mulher
e oh
me pergunto
se é possível
te ancorares a mim
e eu a ti,
como esta brisa
de que somos morada!

Gisele Wolkoff, in “Rumo ao Sol”, página 51, edições Palimage, Coimbra, 2014.

virtuosismo ou negativismo


Foto tirada no Estoril, por António Martins.



vendo expressivo lesto fulgor
entreaberto no olhar que é teu
irradiante jeito animador
paralelismo ou antídoto meu

gracioso rasgo entusiástico
candeia semi-acesa ilusão
face inventada tez de plástico
criatura indefesa alienação

polémica encerrada contenção
em tesouros de valor simulado
onde desejos são eterna negação

o desamor é perder calculado
desmentindo plena interiorização
no desfile do caminho encetado

 
António MR Martins

sexta-feira, 7 de março de 2014

Apresentação de "Margem do Ser", em Coimbra - 7 de Março

Na Casa da Escrita
 
 
Mesa de honra:
 
Da esquerda para a direita: A jornalista e escritora Licínia Girão,
que apresentou obra  e autor de "Margem do Ser", o autor
António MR Martins e Pedro Baptista (Xavier Zarco) pela
editora Temas Originais.

quarta-feira, 5 de março de 2014

"Margem do Ser" em Coimbra, dia 7 de Março



A Câmara Municipal de Coimbra e a Casa da Escrita, a editora Temas Originais e o autor, António MR Martins, têm o prazer de o convidar a estar presente na sessão de apresentação do livro “Margem do Ser”, a ter lugar na Casa da Escrita, sita na Rua Dr. João Jacinto, 8, em Coimbra, no próximo dia 7 de Março, pelas 18:00.

Obra e autor serão apresentados pela jornalista e escritora Licínia Girão.

Obs.: Casa da Escrita de Coimbra - Rua Dr. João Jacinto, nº. 8 – 3000-225 Coimbra – Telef.: 239853590.

A “pen” que já não deixo


Imagem da net.



Argila secura
Condimento solene
Tanto se acumula na minha “pen”

Vistoso recheio
Incorporação
Delicioso meio de comunicação

Esfera aziaga
Meio inverdade
Tudo se apaga e fica a saudade

Ficheiro incorpóreo
Rastreio da mente
Faculdade que assiste a cada presente

Virtude ou conceito
Pelo deslumbramento
Base intrínseca de muito alimento

Moderno afago
Dispersa atitude
Arquivo maior para tanto talude

Descentro vertiginoso
Acalento e memória
Perante o condensar para tanta história

Transporte facultativo
Gerido doutro modo
Colher generoso das vinhas que podo

Introduzir eficaz
Voraz permanência
Apetrecho valioso com enorme apetência

Agenda volátil
De mostragem infinda
Surpresa futura nos demonstrará ainda

Caminho celeste
Ou subterrâneo
Sabendo guardar mensagens do crânio

Sensatez plausível
Evolução constante
Tamanho de formiga e memória de elefante

 
António MR Martins

terça-feira, 4 de março de 2014

Natália Canais Nuno




SAUDADE ONDE ME FAÇO CAIS

Sou barca, vogando em maré-cheia
sem destino neste monótono mar…
Barca fantasma sem rumo ou ideia,
que anda à procura sem se encontrar.

Sou barca à deriva num poema lento
olhando fins de tarde buscando certeza
uma saudade imensa e nu o pensamento,
na boca beijos a que ainda estou presa.

Remoto o tempo na distância percorrida
derradeira esperança levo ingenuamente!
Não paro que o tempo me leva de vencida

navego neste mar… Onde não sou mais
nem onda, ou maré, ou sequer corrente
apenas saudade onde me faço cais…

Natália Canais Nuno, in “A Melodia do Tempo”, página 33, edições Lua de Marfim, Outubro de 2013.

Teu jeito de ser


Tagus - postal panorâmico CTT, colecção 2004, by Gonçalo Lobo Pinheiro.


Enlevo sol, tão sedutor,
raiz do meu alimento,
candeia, afago e amor…
pendor de cada momento.

De ti recebo mensagens…
luz das nossas madrugadas,
descanso entre as viagens
das palavras bem regadas.

Como uma flor
te transporto,
minha fonte jamais perdida.
Com tanto amor
me importo
na ponte da minha vida.

Te beijo na primavera
em sedução sem limites,
és a mulher mais sincera
nos valores que transmites.

És ninho, força suprema
no carinho avaliador,
sintonia do belo tema
vindo da palavra amor.

António MR Martins

segunda-feira, 3 de março de 2014

Arnaldo Saldanha Abreu





A cidade

Fazíamos arcos com ramos de eucalipto
esticados por finas cordas de nylon que roubávamos
dos fios-de-prumo.
Os cabouqueiros abriam a pulso valas que enchiam
com cascalho, cimento e areia grossa.
As casas proliferavam semana após semana.
O povoado crescia – anos mais tarde a capital transbordou
e a nossa terra aumentou-se de casas e de pessoas
e ganhou o estatuto de cidade desordenada.
Havia comércio a cada esquina e a vida acontecia muito depressa,
os homens sopravam o pó dos fatos
e as senhoras sujavam os saltos das botas de cano alto
na lama das ruas sem alcatrão.
Os cabouqueiros passaram a guiar máquinas que esventravam
a terra para se alimentarem das raízes dos pinheiros
e dos eucaliptos
e os lavradores plantavam guindastes e enxertavam-se
no cimo dos andaimes.

Foi há muito tempo.
Mas de um tempo mais antigo são as noites em que tirávamos
prumadas às estrelas
e nos dias resplandecentes de sol
tu equilibravas-te num curto vestido de renda
e em troca de um beijo
eu deixava-te desfilar com o meu chapéu de palha.

Arnaldo Saldanha Abreu, in “Transparências e outros anexos”, página 8, edições Euedito, 2014.  

definitivo (re)encontro





parto
lentamente
sem para trás olhar

oculto-me
na suja vidraça
suspensa numa velha parede

parto
sem um elaborado destino
meio intencionado
no retomar da viagem

os sons poderão diferenciar-se
e os registos confundirem-se
nesta premente fuga
ansiada por quase todos os mortais

assim parto
para um outro lugar
uma outra paragem

essa é a radical sentença

ofuscarei
de vez
todas as miragens

buscarei o reencontro
com a tua presença

para sempre

 
António MR Martins

domingo, 2 de março de 2014

Licínia Girão





Eras

Eras angústia perdida
Miséria do meu amor
Ardia em chama a saudade
do beijo que não te dei
do corpo que não toquei
Vivíamos perfilados na distância
Éramos irónicos fantasmas
Aventureiros sem aventura
Amantes sem memória

Licínia Girão, in “Porque te AMO muito!”, página 18, edição de autor, 2014.  

Sem qualquer pejo


Imagem da net, em: www.martynlloyd-jones.com


Fervilham contrastes nunca perdidos
raiar de celeumas disparatadas
e a humana-carne sem abrigos
tem as vidas por demais atrapalhadas.

Premeditadas falas incoerentes
esvair de tormentas e percalços,
além das dificuldades adjacentes
num retorno ao caminhar descalços.

Antecipa-se o prélio da morte
ante um agoniante sobreviver,
desfile da imprevisível sorte.

Alheios a todo este desvanecer
os mentores deste rude transporte
estão imbuídos em nos enlouquecer.

 
António MR Martins

sábado, 1 de março de 2014

Descontrolo de grosso modo


Imagem da net, em: www.oprevisor.blogspot.com


Sei de tantas memórias que já perdi
imagens esquecidas em recantos,
palcos observados que conheci
que se esfumaram com seus encantos.

Sei das palavras perdidas que ouvi
sílabas sonoras já rasuradas,
as metáforas que nunca percebi
e por tantas vezes enumeradas.

Brancas presas a um chão esquecido
rarefeito num inconsolável não,
abordagem no mais amplo sentido.

Linhas vazias sem qualquer sugestão
ao descarrilar do sentido proibido
onde termina a imaginação!...

 
António MR Martins