sábado, 12 de abril de 2014

Metamorfose natural ou sortilégio


Imagem da net, em: www.ultradownloads.com.br



Derretem-se os palácios de neve
no imaginário da sua existência,
por entre subida e descida breve
pelo declinar de tanta aparência.

Assemelham-se aos castelos d’areia
elaborados de um jeito invulgar,
catástrofe omissa de qualquer ideia
quando o areal se inunda de mar.

Pavio fugidio no horizonte
rastro duma cauda de pomba branca
no espelho do olhar visto de fronte.

Ou um grito filtrado que desanca
ecos para lá do longínquo monte…
sofrer contido de tanta vida manca.

 
António MR Martins

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Teresa Brinco de Oliveira





Nostalgia

sente-se o arrepio estranho
do sorriso frio
que percorre as veias
e eriça a pele.

a vontade é regressar
aos lugares secretos
acolhedores de alvoradas.

o tempo não pára
de nos devolver memórias.

 
Teresa Brinco de Oliveira, in “O Riso Rasgado do Tempo”, página 94, edições Edita-Me, Maio de 2011.

Invento-te pelas palavras




São as grades do teu coração
que me aprisionam o ser
e nessa vasta imensidão
se percorre o acontecer

sem limites deito o olhar
numa infinita mensagem
pelas palavras de encantar
que entre tudo interagem

soltam as raízes dispersas
no desenvolver do alento
duma qualquer flor às avessas

sonho-te como um portento
e não te suplico por meças
nos versos em que te invento

 
António MR Martins

terça-feira, 1 de abril de 2014

Emílio Lima





Volta Criança da Rua

volta os teus pais ainda
acreditam poder fazer de ti
menino homem

volta menino de rua
volta que desta é para valer
tens razão em duvidar
neste ritual da verdade dos velhos

volta que já tens a mochila feita
com livros cadernos e brinquedos
agora podes ser menino que sonhaste ser

volta menino de rua
agora podes dormir e sonhar
agora podes escutar o cantar dos pássaros
as armas já se calaram
desta é para valer

vamos fingir que acreditamos
voltamos para casa
casa que outrora virou escombro

menino inocente volta
que a tua mãe já fez
“caldo de mancara calulu muamba e cachupa”
agora voltas a comer a horas
ao som dos batuques
não aos gritos dar armas
que a mãe África não sabe fabricar

Emílio Lima, in “Notas Tortas Nas Folhas Soltas”, página 47, edições Temas Originais, Coimbra, 2010.

A árvore da avenida


Ilusão Ardente - Acrílico 1,00 x 1,20, por Sara Livramento.
Visite a sua página do facebook, em:


Despida pela carência outonal
germinadora de gestos bucólicos,
abandonada da colheita ideal
companhia de acervos alcoólicos.

Haste entroncada em devaneio
prémio estático da avenida,
ilustrando um simples passeio
com muita pedra de si já perdida.

Espólio único e valoroso
aprimorado na robustez do tronco,
dando-lhe um ténue cariz vaidoso.

Antes os motores passantes a ronco
vilania de tanto som mais ruidoso,
as aves amenizam barulho bronco!...

 
António MR Martins

domingo, 30 de março de 2014

Diogo Godinho






Quadro à beira-mar

 
Vi o oceano no horizonte, o teu olhar
omnipresente. A maresia mostrava-me
os teus olhos ondulando,
uma mulher de luto nas mãos
um homem de braços enlutados
rostos e vultos à deriva
uma embarcação no mar, naufragada.
Pensei-te neste quadro
em tons negro e vermelho.
Elucidaste-me a razão, a busca
da verdade onde te presenteio.

 
Diogo Godinho, in “Estação Terminal”, página 30, edições Temas Originais, Coimbra, 2011.






O verso de ti


Imagem da net, em: www.pt.dreamstime.com


Se espraia de ti a noite decorada
nessa nudez inquietante e desejosa,
em veios duma doçura embriagada,
empolgante e sadicamente majestosa.

Teus lábios sequiosos quase tudo comportam
e teus tímpanos acolhem o silêncio da voz,
trauteando em ritmos que não abortam
a corrida do teu ínfimo rio para a foz.

Sulcas a montanha do entendimento,
aspiras à globalidade do universo
e omites negações do esquecimento.

Ruborizas a cada gesto desconexo
no palpitar de cada sensual fragmento,
onde aguardas que de ti se escreva o verso.

 
António MR Martins

sexta-feira, 28 de março de 2014

Emanuel Lomelino





O DIA MAIS FELIZ

O dia mais feliz para um poeta
não é quando o poema nasce;
as dores de parto são imensas
e ao sofrê-las tão intensamente
o poeta questiona-se,
coloca-se em dúvida,
recrimina-se e quer desistir.
O dia mais feliz para um poeta
é aquele em que vê orgulhoso
a sua poesia vestida para sair.

Emanuel Lomelino, in “Novo Respirar”, página 34 (Primeira parte), edições Lua de Marfim, Março de 2014.

Por onde anda o poema


Caminhos - Acrílico 1,00 x 1,20, de Sara Livramento.



Sentidos versos, onda de ternura,
escritos pela inspiração do autor,
nos relatos de tanta ventura
entre tristeza, alegria e dor.

Oportuna razão do pensamento
desmascarada de forma singela,
correndo risco de deslumbramento
dum simples olhar pra lá da janela.

E o poema surge docemente
pelo estio ou no rígido inverno,
genial, ágil e consequente.

Saído de entre o céu ou inferno,
áspero, doce, amargo ou prudente,
do ódio rude ao amor eterno.

 
António MR Martins

sexta-feira, 21 de março de 2014

Poesia é vida, alimento e cor





Há um qualquer poeta em mim
e outro mais, em ti também,
mais um outro que é assim…
um poeta de mais alguém!...

A poesia é encanto
vigília compensação,
é versátil e espanto
em generosa sedução,
é rigor tão liberal
contexto e elevação,
dissertar sem ter igual
é terapia e emoção.

Tantos poetas houveram,
tantos há e mais haverão,
tantos nos permaneceram
tantos são inspiração.

Camões que nos descreve
Pessoa que nos ultrapassa
Eugénio que nos harmoniza
O’Neill que nos percebe
Régio que nos devassa
Gedeão que nos imortaliza
Adolfo que nos antecede
Florbela que nos desfaça
Afonso que nos giza
Bocage que nos enxergue
Ary que nos abraça
Natália que nos revitaliza
Sofia que nos conhece
David que nos entrelaça
e a poesia se eterniza.

Tantos foram os poetas
tanta poesia criada,
tantas as palavras certas
entre tantas festejadas…
tanto verso tanta fonte,
tanta métrica estudada,
entre rios e montes
Poesia, és tão amada.

Por entre versos forçados
e outros com alegria,
tantos temas abordados
portanto: viva a poesia!...

António MR Martins

21 de Março de 2014, Dia Mundial da Poesia

quarta-feira, 19 de março de 2014

Vítor Cintra





SÃO PAULO

 
Cidade grande, um mundo de cimento,
Que chega aonde a vista nem alcança.
Qual é a explicação dum crescimento,
Que te levou, no sul, à liderança?

Amálgama de raças e culturas,
Metrópole de crenças e saber,
Brasília tem políticos, mesuras,
Mas tu tens o dinheiro e o poder.

O parque da cidade é um encanto,
Tal como a Catedral e o Mercado
E o largo onde nasceste, no passado.

Mas a Pinacoteca é o recanto
Onde nos deixas ver, emoldurado,
Imenso do que em tela foi pintado.

 
Vítor Cintra, in “Por Terras de Vera Cruz”, página 13, edições Lua de Marfim, Outubro, 2013.

Bandeira duma nação


Imagem da net, em: www.dezinteressante.com



Bandeira hasteada tão tocante
desfraldar propenso à ovação,
colorido rejubilar elegante
entre cada superior abanão.

Passagens elevadas sorrateiras
apregoar denodo cativante,
epílogo tombado pelas asneiras
levantar do caminhar rastejante.

Voz do seu hino em dedicatória,
preceito da melodia aprovado,
simbologia da fecunda memória.

Fundamento para qualquer tratado
valências em engodos da história
glória alheia ao furor ventilado.

 
António MR Martins

terça-feira, 18 de março de 2014

Sara Timóteo


 
O Viajante



Vem de longe e carrega consigo

as mercadorias e os seus bens.

Pelos trilhos celestiais traça as suas rotas,

pela face das pessoas

estabelece as suas raízes.

 

À noite, partilha o céu com a sua mulher

enquanto escuta a vida cá fora.

Distraído, engole a última refeição do dia

enquanto o sol se põe

e o horizonte se veste de negro.

Os mercadores algaraviam numa língua

que ele não compreende.

De madrugada, um aperto no coração,

adormece.

 

A flauta na manhã enevoada

e ele sai da tenda, parte sem mais,

deixa tudo,

nunca mais é visto.

 

Sabe-se que agora é feliz.

 

Sara Timóteo, in “Chama fria ou lucidez”, página 19, edições Papiro Editora, Agosto, 2011.

Incompreensões do imaginário


Imagem da net, em: www.amigodaalma.com.br


Estaticismo de um breu saliente
pelo acorrentar do pensamento,
moderador da paixão deprimente
alterada sem qualquer cabimento.

Ênfase de desconexão surreal
despontado por ideais algo toscos,
intenso num conceito de festival
ante pandemónios e demais gostos.

No rastreio da mente pensadora
se encerram questões mirabolantes
com mensagem assaz perturbadora.

Anseios e interrogações constantes,
completar de tensão apaziguadora
da vida serão sempre estudantes.

 
António MR Martins

segunda-feira, 17 de março de 2014

José Luís Outono





NOS CAMINHOS DO TEU CORPO

 
Nos caminhos do teu corpo…
Sulco falésias de luares felizes
Por entre campos viçosos
Onde brotam sucos amor
Flores odor fruição
Palavras escritas de mãos
E questões constantes…
De respostas únicas…nossas!

No calor do teu corpo
Beijo o infinito do rio desejo
No idílio coral da tua nascente…
De ombros caídos…
Olhos sonhadores
Purifica-se o gotejar corrente
Aninha-se o embalo
Olha-se o “barulhar” enredo
E o vapor cristaliza
Momentos mar (e)terno!

José Luís Outono, in “Da janela do meu (a)Mar”, página 15, edições vieira da silva, Maio de 2011.