domingo, 27 de julho de 2014

João Morgado




O Pássaro dos Segredos

O “25 de Abril” visto pelos olhos de uma criança (excerto)

“…Não entendia aquelas histórias de gente real, onde não havia nem cavalos nem leões. Mas, apesar de pressentir uma sombra negra nas histórias de meu pai, eu acabava por adormecer na mesma. Adormecia em sonhos no lugar mais seguro do mundo, no entrelaçado dos seus braços, no rochedo meigo do seu peito, com as mãos por dentro da sua camisola interior, branca, sentindo-lhe o calor da pele. Eu dormia no centro do mundo à volta do qual tudo girava em silêncio, porque o universo dormia quando eu dormia. Apenas havia duas excepções em todo o cosmos: a água que corria na ribeira ao lado da nossa casa e o Amílcar que trabalhava no forno noite dentro e nos levava o pão quente à janela, antes do meu pai ir trabalhar de madrugada. Tudo o resto dormia. Todas as estrelas. Até os planetas de berlinde emperravam na sua roda-viva.”

 
João Morgado, in “O Pássaro dos Segredos” (O “25 de Abril” visto pelos olhos de uma criança, excerto da página 25, edições Kreamus, com o apoio da vila de Belmonte e das cidades da Covilhã e Fundão, 1ª. Edição em 25 de Abril de 2014.

Na poética do teu caminho


Imagem da net, em: www.www2.turismo.rs.gv.br


No teu olhar a simples descoberta
da mistura dos conceitos dispersos,
sintonia na forma desconhecida
em que se apetrecham os sentidos.
Já a chama te surpreendeu tanto
pelos poros da pele quente suando…
no ferver deste sangue descomposto
dependendo do descanso da noite.
Buscas desígnios para o teu corpo
ante labaredas dum tempo morto
aquecido nas carícias da vida.
Eterna condição da tez humana
no misticismo tão alheio ao amor
em que se enformam de ti versos.

António MR Martins  

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Gabriela Pais





DIZ-ME

Diz-me o que quero saber e não sei
porque inquiro e não consigo achegar
obscura realidade porque penei
encontro da vida a desacordar.

Na penumbra como queria poder ver
o que se passa atrás dessa cortina
tão azul ora cinza, sem se antever
ao morrer, onde acabará a neblina.

Diz-me o que quero saber e não sei
para escolher se quero fenecer
ou se prefiro continuar a viver.

Terá luz, amor, flores sempre a nascer,
vergel onde o coração não sente o frio
do desamor deste mundo tão sombrio?!

Gabriela Pais, in “Castelo de Letras”, página 32, edições Lua de Marfim, Abril de 2014. 

Latejar contundente





Agem os lacaios do comportamento
em sintonia com o rigor do aprumo,
rebuscando num lesto andamento
destino pró inverdadeiro rumo.

Dão-se por trapaceiros, grosso modo,
espicaçados pela conjuntura;
crise sonolenta de que não acordo
neste “carrilar” que tanto perdura.

Raspam as peles ensanguentadas
e chupam ossos até ao tutano
destas almas pobres infernizadas.

Mil vozes a dois tempos a cada ano
esfriam esperanças mutiladas,
perante tanta manha e desengano.

António MR Martins

domingo, 6 de julho de 2014

Alvaro Giesta





[esquiva-se a luz]

esquiva-se a luz
nesta persistência
sombria
do afastamento;

na lúcida passagem
das pulsações,

a morte
tal perfume de estrela
ausente
visita o nascimento.

eu, noutra parte
fecho as pálpebras na misteriosa
bruma,

tu
noutro céu levante
crias de novo
a partir da espuma.

Alvaro Giesta, in “O Retorno ao Princípio”, página 20, Colecção Naïf, edições Calçada das Letras, Maio de 2014.

visões do quotidiano


Imagem da net, em: www.fundoswiki.com


vejo em teus olhos
a irreverência do nascer de um dia novo
acutilante e desbravador
na amplitude de um abraçar
olhado pela natureza
ante um desconfortante abranger
cerrado e avassalador
das margens do mundo
no revelar de múltiplos arfares
complementados
pela nitidez suspirada de um prazer infinito
sedutor e mesclado de rubor
e simples euforia
evaporizando as tristezas famintas
que impregnam os conteúdos filtrados
de todos os desígnios misteriosos
que nos rodeiam
e esmagam os corpos
a visão
a fala
o respirar
moldando todas as mãos insatisfeitas
a seu preceito
sorrateiramente
sem apelo nem agravo

 
António MR Martins

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Pedro Garcez Pacheco





[Melodias de azul em paz amansam]

 Melodias de azul em paz amansam,
e dançam,
lá ao fundo,
no meio do mar,
junto a um piano,
damos as mãos,
a noite e eu,
numa balsa etérea,
que vive dentro de um relógio estagnado
sem hora,
nem lugar.

 

 
[A bruma e a água salgada]

A bruma e a água salgada,
lá ao longe,
tocam-se,
em húmidos vapores,
e beijam-se,
num sopro de vento,
entreolham-se,
apaixonam-se e dissipam-se em sons,
com tons de fim de dia,
ao longe fica a marca de um ser,
que não nasceu,
só aconteceu.

Pedro Garcez Pacheco, in “ Partituras de uma Nau”, página, 23, edições Vieira da Silva, Janeiro de 2014.

 

Eficácia perturbadora





Na cedência única do teu olhar
brilham alvos vestígios lunares,
numa quietude serena a brotar
entre receios e tantos desejares.

De soslaio vês ondular o teu mar
penetrado por tantas brancas asas,
deleite de contínuo espreguiçar
culminado no sonho que extravasas.

A poente da auréola do teu sentir
se inferem medos exponenciais,
batalhados na espera do porvir.

Simulas noutro olhar teus ideais
nesse efeito de tanto seduzir
com que firmas teus sorrisos naturais.

António MR Martins

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Telma Estêvão





AMARGURA

É como se em mim pousasse
Uma angústia lívida e lenta
Um sussurrar de véus em oração
O desnudar de um sal morno
Nos lagos do meu corpo arrefecido.

É como se em mim assentasse
Todo o luto da minha alma
Tecesse incompreendida
Um colar de uivos
Gélidos e cortantes

Percorresse sozinha a madrugada
Esquecida e abandonada.

É como se nos orvalhos, desgraçados
Vestidos de mim, arrastasse amargura
E sentisse a exigência vaga
E o suplicar longínquo
Dos perfumes desaparecidos, da Primavera.

É como se nos meus olhos, escarpados
Salpicados de alvura
O sol não penetrasse…
E as sombras efémeras gemendo
Não se encostassem eternamente a mim.

Telma Estêvão, in “Sob este céu azul, esta distância”, página 31, edições Arandis Editora, Março de 2014.

Recanto do encanto


Imagem da net, em: www.groupon.com.br



No bordo do gineceu
De uma cândida flor
O traçado sublime

Por onde se sente o fragor
De um perfume inalado
A partir da tua pele serena
Onde atracam
Os sentidos da esperança
E da felicidade

Perante a eternidade
Plausível

António MR Martins

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Teresa Teixeira





ALCANCE

…no eixo do mundo
na linha imaginária das asas
elevo-me em pontas
faço das estrelas um fio de contas
e regresso
ao estado elíptico das palavras –
numa curva
quem sabe
quem sabe
estará um abraço.

Teresa Teixeira, in “ Voo Livre”, página 58, edições Versbrava, Abril 2014.

melodia da saudade




cantam os pássaros
no meio dos silvados
enquanto
a saudade emerge
em batidas compassadas
a cada preâmbulo
das madrugadas esquecidas

a cada amanhecer
os pássaros regressam
saltando daqui para ali
perante o acordar seguinte

e às últimas
penosas batedelas
continuam cantando
a melodia da saudade

António MR Martins

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Francisco F. Gomes





Desejos doces

Pousem
Colmeias
Sobre seus túmulos
E deixem que o mel
Se escoe para dentro
-
Quando morrerem
E deste mundo se forem
-
São desejos pedidos
-
As ruas do paraíso
Serão douradas
E cheias de sol
Mas basta-lhes
O pequeno talhão
E um pouco de mel
Para adoçarem a viagem
E esquecer o amargo
Do mundo cruel
De “férias” em romagem
De tanto embargo
-
Pousem
Colmeias…

Francisco F. Gomes, in “Notas ao acaso”, página 82, edição de Autor, 2014.

Incontrolável contorno


Imagem da net, em: www.olhares.uol.com.br



Contorno as gengivas do teu canto
paladar agridoce da aventura,
saliva solta, lágrima e pranto,
dentes cerrados, ténue candura.

Contorno a espiral do teu corpo
adjacente ao vislumbre do olhar,
omitindo um qualquer anticorpo
que dificulte sublime desbravar.

Contorno eufórico tudo de teu
em amplitude que faz ruborizar…
relevando-me para o apogeu.

Contorno mesmo sem saber contornar
sintoma de que algo bom renasceu
pelo mais puro sentido de te amar.

 
António MR Martins

terça-feira, 10 de junho de 2014

José Gabriel Duarte





(NAS RUAS DA CIDADE)

Nas ruas da cidade escura e poluída
Vagueiam sombras de gente abandonada

Procurando entre os despejos de comida
Os sabores de uma mesa recusada

Adormecem cansados e sofridos
Pelos cantos dos becos e vielas
Abrigam-se do frio quase despidos
Debaixo das varandas e janelas

Como se nada de verdade eu dissesse
Como tanto do tão pouco se esquece
Mas é muito desse nada que envergonha

Não dessa gente pobre e desolada
Mas de outra rica e insaciada
Que essa cidade não vê,… nem sonha.

 
José Gabriel Duarte, in “No outro lado de mim”, página 95, edições Chiado Editora, Outubro, 2012.