quarta-feira, 3 de setembro de 2014

João Carlos Esteves





OLHARES

Olhas o Mundo por dentro
nas penumbras intermitentes
percorridas por sombras ausentes
que demarcam os ambientes
nas rugosidades do tempo

Crias instantes sagrados
intervalos intemporais
captados em instantâneos
que se intrometem, velozes,
na corrente ininterrupta
de momentos ignorados

Recuperas assim a beleza
dos lugares e dos sentidos
captados pelos olhares
que nascem dentro de ti

 
João Carlos Esteves, in “Absolvição”, página 76, edições Temas Originais, 2011. 

Entre guindastes e amarras


Imagem da net, em: www.engenharia.com.br



Soam subidas de perdidos guindastes
falhando alcances condicionados,
desfalecem na dependência das hastes
apesar dos pontos já esmiuçados.

Roldanas em ferrugem sem ter tino
desequilibram o estrado-perfeição…
afugentando correntes do destino
que se revoltam entre tanta negação.

Geram-se conflitos em total desordem
rangendo tantas patranhas por olear
e todos os solícitos que tal abordem.

Jamais façam as máquinas inventar!
Nem mesmo no rigor de qualquer ordem,
que seja impossível de concretizar.

 
António MR Martins

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Sara Timóteo




III
«Faz coisas boas.»
Sólon 

1.

Semeia nos ventos o teu amor pelas palavras,
respira o mar inicial,
descalça-te e alimenta com teu próprio corpo
a chama da poesia.
Sabe que, afinal, os teus passos
percorrem o solo que te há-de acolher.
 

“Os Passos de Sólon”, página 23.
 

VII
«Faz da razão o teu maior comandante.»
Sólon

4.

Em caso de dúvida, escolhe sempre
a liberdade.
Apenas o apego do coração
te torna escravo,

e a poesia não se compadece
de fogos de artifício.

 
“Os Passos de Sólon”, página 52.

 
Sara Timóteo, in “Os Passos de Sólon”, edições Lua de Marfim Editora, Maio de 2014.

Partículas dum bem-estar vilipendiado


Imagem da net, em: mazelasdojudiciario.blogspot.com



Nas margens intervaladas galgaram
contentamentos sem interrupção
e das raras tréguas se extasiaram
com tamanha dose de satisfação.

Embrenhados por esse desiderato
adornaram levemente um sonho;
de liberdade plena sem desacato
esfumando um pesadelo medonho.

Ali pairou um sentido de homicídio
que nem réstias ficaram de amor
e nas fagulhas nada mais que suicídio.

Nos violados filtros fecundou a dor
dum corpo que jaz naquele presídio
onde o paladar jamais terá sabor.

 
António MR Martins

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Manuel C. Amor





In Memorandum da Cesaltina Amor

 
Em  20 de Julho, terias feito 42 anos de casada
Em 23   de Julho, terias feito 62 anos de idade
Em 25 de Julho fez 39 anos que tombaste, na mina, a caminho de S. Pedro da Barra
Em 27 Julho, Fez 39 anos que desceste à terra.
Para trás ficaram filhos, companheiros, e sonhos.
Valeu a pena, a tua dedicação e entrega????

 

Sim minha irmã que comigo sonhaste
pintar a loucura dos girassóis
iluminar a obscuridade dos bairros periféricos das cidades
bairros de ruelas que cheiravam a mijo e merda
onde as crianças dormiam
no chão
sobre luandos apodrecidos
junto aos mais velhos
que aproveitam o seu sono
e o calor da noite para satisfazerem desejos
mesmo quando indesejáveis

minha irmã, companheira,
amiga certa nas horas mais dolorosas
as horas de incertezas de medos reprimidos
o tempo das lágrimas retidas
para não chorar frente às bestas bruta montes
guardiões de um sistema que se desmoronava de podre

sim minha irmã camarada
que me acompanhaste pelos percursos poeirentos´
dos caminhos do isolamento
mulher
que me ajudaste a construir um jardim de amor
jardim onde nasceram duas flores
que cumpriram o seu destino
também elas se multiplicaram

Mas
a mina assassina no caminho  
que emudeceu o teu riso
a tua alegria de viver
a tua esperança de um caminho melhor
também te fechou os olhos
para que não visses as nove novas flores
fruto do nosso jardim…

 
Manuel C. Amor
2014

sábado, 2 de agosto de 2014

Gonçalo Lobo Pinheiro




Psique

Não te atropelo com desejos vãos.
Pensamentos fúteis que surgem,
por vezes no tempo,
quando estamos perdidos na psique.
O meu princípio de vida é outro,
rebuscado na minha poesia.
Enquanto te vou tolerando a falta de rumo,
a alma do corpo preenche-me.

Gonçalo Lobo Pinheiro, in Tributo a Mário Sá-Carneiro, colecção Sob Epígrafe (vários autores), edições Temas Originais, 2014.

embaraçosa utopia





há uma exponente claridade
entre as brechas
da contemplação inesperada

uma esfera colorida
iluminada
e perturbante
mas inédita ao olhar

o observar culmina
num vislumbre incomparável
mas belo
simplesmente

um desnudar
sem limites
um paralelismo
sem paralelo
um desfecho
impensável
uma luz inconcebível

a plenitude
passou por aqui

António MR Martins

domingo, 27 de julho de 2014

João Morgado




O Pássaro dos Segredos

O “25 de Abril” visto pelos olhos de uma criança (excerto)

“…Não entendia aquelas histórias de gente real, onde não havia nem cavalos nem leões. Mas, apesar de pressentir uma sombra negra nas histórias de meu pai, eu acabava por adormecer na mesma. Adormecia em sonhos no lugar mais seguro do mundo, no entrelaçado dos seus braços, no rochedo meigo do seu peito, com as mãos por dentro da sua camisola interior, branca, sentindo-lhe o calor da pele. Eu dormia no centro do mundo à volta do qual tudo girava em silêncio, porque o universo dormia quando eu dormia. Apenas havia duas excepções em todo o cosmos: a água que corria na ribeira ao lado da nossa casa e o Amílcar que trabalhava no forno noite dentro e nos levava o pão quente à janela, antes do meu pai ir trabalhar de madrugada. Tudo o resto dormia. Todas as estrelas. Até os planetas de berlinde emperravam na sua roda-viva.”

 
João Morgado, in “O Pássaro dos Segredos” (O “25 de Abril” visto pelos olhos de uma criança, excerto da página 25, edições Kreamus, com o apoio da vila de Belmonte e das cidades da Covilhã e Fundão, 1ª. Edição em 25 de Abril de 2014.

Na poética do teu caminho


Imagem da net, em: www.www2.turismo.rs.gv.br


No teu olhar a simples descoberta
da mistura dos conceitos dispersos,
sintonia na forma desconhecida
em que se apetrecham os sentidos.
Já a chama te surpreendeu tanto
pelos poros da pele quente suando…
no ferver deste sangue descomposto
dependendo do descanso da noite.
Buscas desígnios para o teu corpo
ante labaredas dum tempo morto
aquecido nas carícias da vida.
Eterna condição da tez humana
no misticismo tão alheio ao amor
em que se enformam de ti versos.

António MR Martins  

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Gabriela Pais





DIZ-ME

Diz-me o que quero saber e não sei
porque inquiro e não consigo achegar
obscura realidade porque penei
encontro da vida a desacordar.

Na penumbra como queria poder ver
o que se passa atrás dessa cortina
tão azul ora cinza, sem se antever
ao morrer, onde acabará a neblina.

Diz-me o que quero saber e não sei
para escolher se quero fenecer
ou se prefiro continuar a viver.

Terá luz, amor, flores sempre a nascer,
vergel onde o coração não sente o frio
do desamor deste mundo tão sombrio?!

Gabriela Pais, in “Castelo de Letras”, página 32, edições Lua de Marfim, Abril de 2014. 

Latejar contundente





Agem os lacaios do comportamento
em sintonia com o rigor do aprumo,
rebuscando num lesto andamento
destino pró inverdadeiro rumo.

Dão-se por trapaceiros, grosso modo,
espicaçados pela conjuntura;
crise sonolenta de que não acordo
neste “carrilar” que tanto perdura.

Raspam as peles ensanguentadas
e chupam ossos até ao tutano
destas almas pobres infernizadas.

Mil vozes a dois tempos a cada ano
esfriam esperanças mutiladas,
perante tanta manha e desengano.

António MR Martins

domingo, 6 de julho de 2014

Alvaro Giesta





[esquiva-se a luz]

esquiva-se a luz
nesta persistência
sombria
do afastamento;

na lúcida passagem
das pulsações,

a morte
tal perfume de estrela
ausente
visita o nascimento.

eu, noutra parte
fecho as pálpebras na misteriosa
bruma,

tu
noutro céu levante
crias de novo
a partir da espuma.

Alvaro Giesta, in “O Retorno ao Princípio”, página 20, Colecção Naïf, edições Calçada das Letras, Maio de 2014.

visões do quotidiano


Imagem da net, em: www.fundoswiki.com


vejo em teus olhos
a irreverência do nascer de um dia novo
acutilante e desbravador
na amplitude de um abraçar
olhado pela natureza
ante um desconfortante abranger
cerrado e avassalador
das margens do mundo
no revelar de múltiplos arfares
complementados
pela nitidez suspirada de um prazer infinito
sedutor e mesclado de rubor
e simples euforia
evaporizando as tristezas famintas
que impregnam os conteúdos filtrados
de todos os desígnios misteriosos
que nos rodeiam
e esmagam os corpos
a visão
a fala
o respirar
moldando todas as mãos insatisfeitas
a seu preceito
sorrateiramente
sem apelo nem agravo

 
António MR Martins

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Pedro Garcez Pacheco





[Melodias de azul em paz amansam]

 Melodias de azul em paz amansam,
e dançam,
lá ao fundo,
no meio do mar,
junto a um piano,
damos as mãos,
a noite e eu,
numa balsa etérea,
que vive dentro de um relógio estagnado
sem hora,
nem lugar.

 

 
[A bruma e a água salgada]

A bruma e a água salgada,
lá ao longe,
tocam-se,
em húmidos vapores,
e beijam-se,
num sopro de vento,
entreolham-se,
apaixonam-se e dissipam-se em sons,
com tons de fim de dia,
ao longe fica a marca de um ser,
que não nasceu,
só aconteceu.

Pedro Garcez Pacheco, in “ Partituras de uma Nau”, página, 23, edições Vieira da Silva, Janeiro de 2014.

 

Eficácia perturbadora





Na cedência única do teu olhar
brilham alvos vestígios lunares,
numa quietude serena a brotar
entre receios e tantos desejares.

De soslaio vês ondular o teu mar
penetrado por tantas brancas asas,
deleite de contínuo espreguiçar
culminado no sonho que extravasas.

A poente da auréola do teu sentir
se inferem medos exponenciais,
batalhados na espera do porvir.

Simulas noutro olhar teus ideais
nesse efeito de tanto seduzir
com que firmas teus sorrisos naturais.

António MR Martins