quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Licínia Quitério






30.

Parto para lugares
onde nada mudou.
Vou na correnteza das palavras,
na transparência dos olhos de água,
no músculo do braço a soçobrar,
no escuro do segredo,
no fervilhar da lama,
na constância do medo,
na antevisão da memória,
na exaltação da tarde nas ruas apinhadas.
Dentro da manhã levo o lume e a cinza
de que a viagem se alimenta.
Retorno à fonte, à barca, à ignorância,
ao lugar sempre o mesmo.
Ao poço,
ao anjo,
à rosa branca.

Licínia Quitério, in “Os Sítios”, página 44, edição de autor, Novembro de 2012.

história com amor





náufrago em teu corpo
sucumbindo ao tempo
da revolta
e da insistência do prazer

entro em tua ilha
onde abunda a resistência às marés
numa intensa sensualidade
culminada em desejos
sem paralelo

resguardo sentenças
em ecos de fragilidade
onde se acolhem anseios
pelos póros transpirados
em suas fragrâncias plenas

êxtase incontido
nas salivas cruzadas
e nos braços enlaçados
numa profusão única
ante a batida constante
de um epílogo sublime

António MR Martins

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Joaquim Monteiro






A ETERNIDADE É ESSE TOQUE

Breve e leve, pelo teu braço, se aflora o canto.
Pulsam incipientes notas no velado olhar
Onde o subtil respirar das águas surpreende.
Percorro-te lentamente com a flor dos dedos,
Tacteando a luz que tua pele emana,
Não alcançando a mácula o seu desígnio.

Suspenso estou, por invisível fio que me guia,
Que me é dado sentir, respirando apenas,
Como se a eternidade fosse esse toque,
Esses sublimes beijos no teu dorso.
Essa “canção desesperada” de teu ventre
Que no meu em se espalhando, ama.

[ó dulcíssima pele de aveludados medos,
não temais a loucura de meus dedos,
que se me apodera de teus ais.]

Joaquim Monteiro, in “À Janela do teu Corpo”, página 38, edições Modocromia, Outubro, 2014.

Contagem final (simulacro)


Imagem da net, em: www.rosecolaneri.blogspot.com



Insólita sensação neste sentir
apregoando íntimos remorsos,
neura empertigada pelo devir
por exposição a tantos destroços.

Desfraldadas bandeiras incolores
mitigando o desespero dos povos,
raças e credos prenhes de suas dores
guerras suspensas entre velhos e novos.

A fome habita nos confins da alma
e as mentes perversas não ousam saber
rude conclusão que a ninguém acalma.

Os vampiros vão todo o sangue colher
neste deserto sem qualquer vivalma
e o mundo está prestes a perecer!...

 
António MR Martins

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Susana Campos





50

 
Fecho os olhos
Tudo me invade
Salpica
Fervilha
Cal-ma
Onde a tempestade não invoca
Segredo dentro de mim
Palavras
Wish you were here in side
Na procura do novo ser.
Onde a água
Solta.
Invade-me como um oceano
E acaricia corpo, meu
Suspirando
Fecho os olhos.

Susana Campos, in “Só Contigo”, página 73, edições Corpos Editora, colecção World Art Friends XIII, Outubro de 2012. 

O agreste caminhar do futuro


Imagem da net, em: www.bocaberta.org



Por entre as pétalas delicadas
Do teu sorriso
Há um apelo ingénuo
À descoberta generalizada
Ante a ampla pureza
Da ternura no teu olhar
Onde a maciez da contemplação
Desponta a relevância de um ventre
Que te trouxe a este palco da vida

Desse radioso sorriso
Se solta a frescura de todas as manhãs
E o constante nascer de um sol
Que nos envolve de alegria
E de esperança… sem limites

Tuas mãos geram gestos esvoaçantes
Inquietando-se perante o germinante saltitar
Que em ti predomina
Neste universo
Rastreado pela incongruência
Daqueles que já foram como tu
Mas desvirtuam a tua existência
E o sentido das coisas
Para tantos dos teus contemporâneos

Ainda há borboletas
Que voam de flor em flor
Mas escasseia esse profuso colorido
Cada vez mais
 
Tal como o teu deslumbrante sorriso
Se altera a cada passar de um tempo
Em que a esperança se desvanece
Sem preconceitos
Sem pressupostos
Sem pejo
Tristemente
E sem demoras
Irremediavelmente

 
António MR Martins

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Edgardo Xavier





Contigo

Vivo a noite contigo
e juntos andamos
em quietude de seda.

Pele e vontade
corpo e verdade
um sal de ti.

Vivo a noite contigo
e vou pela quentura
do teu peito adormecido
até ao fim das estrelas.

Edgardo Xavier, in “Azul como o silêncio”, página 47, edições Chiado Editora, Maio de 2014.

Nos percursos de um poema





Embaraçado no caminhar disperso
alheio a ancestrais recomendações,
revela o oculto em cada verso
que possa transmitir novas emoções.

Deturbam-se os íntimos sentires
nas profundezas dos seus interiores,
palavras ferem chegares e partires
elevando todos os esplendores.

O poema tem força no seu condimento
pelo que pode fazer sentir e imaginar
entre a alegria e um lamento.

Tantas vezes um soluço vem apertar,
noutras faz diluir tanto tormento
ou nos empertiga os trilhos d’amar!...

 
António MR Martins

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Lília Tavares





[Passamos pelos ventos]

 
Passamos pelos ventos
como as aves tardias.
Azul é a folhagem
que cobre a nossa nudez branca.

Violinos tocam a melodia
dos nossos abraços
e as ondas beijam
os lábios plenos e sedentos
por outra boca.

Lília Tavares, in “ Parto com os Ventos”, página 66 (capítulo “Tua”), edições Kreamus, 2013. Obra com ilustrações de Simone Grecco (esculturas de arame). 

frustrantes contrariedades





na pele rosada de um lábio
se humidificam hálitos
por cada beijo adormecido

franco aquecimento neutral
ante os fulcrais paradigmas
de uma sedução contida
complexadamente esbatida
e desabitada de fundamento erótico

resfriam-se desse modo
os parapeitos da aventura
e encurta-se a razoável extensidade
de cada rubor

neuroticamente
tanto urge

mas nem o tempo
servirá de consolação

 
António MR Martins

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Hélder Leal Martins





Um esboço da alma

Inconscientemente
foco o meu olhar
indiscreto e perpendicular
nos rostos que desfilam
à minha frente

Analiso à lupa
o contorno da face
o desenho da fronte
a expressão dos olhos
e as entrelinhas
no livro dos lábios
inspiro a aragem
e desenho à margem
um esboço da alma
atrás de cada imagem

Hélder Leal Martins, in “Até Ser Dia”, página 111, edições Editora Cidade Berço, Novembro de 2013. 

Um novo outono se avizinha


Imagem da net, em: www.iplay.com.br



Quando os ramos das árvores secam
e as folhas se envolvem com o vento,
as ironias, sendo demais, pecam
ao forjar qualquer tipo de lamento.

São puros ensaios da natureza
que brindam o olhar de quem as assiste,
caminhos duma completa grandeza
intrínseco mistério que lhes consiste.

A esfera outonal bate à porta
continuar do tempo que vai e vem
onde a essência não está morta.

Ciclo que surpreende sempre alguém
numa sequência de vida torta
que já não poderá enganar ninguém.

António MR Martins

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Dalila Moura Baião






UM BERÇO ATRACADO NO CAIS

 
Em que nó se entornou a lata de chá
e o perfume de violetas?
Em que margem se esvaziou o futuro
dotado pelo homem em parcela de vida?

A floresta que desculpe os ramos,
enquanto se exibem nos remos junto ao cais.

Os nós apenas envergam um casaco de cordas,
num turbilhão de inverno despido, a rondar os passos
das águas, que se desprendem numa corrente de ar.

A vida é um berço atracado no cais,
que se desfaz num instante,
que o tempo desembrulha!

A tesoura, estremece o corte   
onde se espraiam os farrapos e as cinzas!

Dalila Moura Baião, in “Quando o mar corre no peito”, página 23, edições El Taller del Poeta, Pontevedra (Espanha), 2014.

desintegração quase total


Imagem da net, em: www.anjodeluz.net



consentimento amorfo
da poluente contingência
que apruma a seca
e corrói a fertilidade

galope áspero e preciso
que amedronta a liberdade
em tórridos lamentos
ofuscando as partículas
inexistentes da felicidade

lápide da memória
que esbanja todos os sentidos
num afogadilho constante
onde os devaneios sociais
se assumem
no espartilhar da coesão da saudade

e espalham o ventricular
nas bocas inquietas
em tantas imagens esbatidas
num tempo que se amortiza
nesta vivência impagável

tudo se renega
tudo se espartilha
tudo se desapega
até à última maravilha

e assim nos mutilam
nos desencorajam
nos desintegram
até à ínfima espécie
num insolente corrupio

restam
pequenas coisas desvalorizadas
para além da vida
e de tudo o que nos rodeia

e este desvirtuado
antebraço improfícuo
perante o infindo anseio
duma terra
em vésperas de se sentir
quase “morrida”

encontra-se congelado
em rastreio final
ante a última
e ténue esperança
ora demolida

 
António MR Martins