terça-feira, 7 de abril de 2015

Ary dos Santos





A FACA

A palavra será faca
o sentido será gume
a imagem será chama
mas a matéria é o lume.

Lume dos nervos riscados
pelo fósforo do medo
lume dos dentes cerrados
pela goma dum segredo.

Lume das faces de cera
lume dos dedos de cal
lume golpe  lume pedra
lume  silêncio  metal.

Lume que se acende a frio
e nos devora por dentro
lume agulha  lume fio
da faca do pensamento.

Lume navalha que rasga
o ventre da solidão
vingança de quem se gasta
queimando frases em vão.

Lume lembrança das coisas
que nos arderam na voz
cinza viva que nos corta
e nos separa de nós.

José Carlos Ary dos Santos (1937-1984), in “Vinte anos de poesia”, página 77, edições Círculo de Leitores, 2.ª edição, Maio de 1984.  

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Licínia Quitério






[Sento-me na inutilidade]

 
Sento-me na inutilidade das coisas quando secam os frutos

à míngua de carícias.

 
Peso tanto como as minhas pernas cansadas de alinhavar

viagens.

 
A penumbra é um lugar indeciso aninhado na paciência do

tempo.

 
Na hora de folhear as outras horas, passam por mim cavaleiros

de infindáveis batalhas, corças assustadas, cabeleiras fulvas,

flores de oiro velho.

 
Espero um teatro novo, de luz sem sombras, de suspiros de

riachos, de corpos nus, terrenos, fabulosos, fabricando o

pão, repartindo.

 
Adormeço.

 
Licínia Quitério, in “ O Livro dos Cansaços”, página 25, edição da autora, Fevereiro de 2015.

Pernoito em ti


Imagem da net, em: umolharespiritual.blogspot.com



Pernoito em ti!
No descanso dos dias desencontrados
alfanados de luzes esbatidas,
elícitos pelo madrugar silencioso
onde se escutam arfares tocados,
pelos rimados versos em vão perdidos
no seu aroma breve e delicioso.

Pernoito em ti!
Sob a odisseia do vento passageiro,
perante o luar das descobertas
e as estrelas presentes no desejo,
assim vai correndo o tempo ligeiro,
até à manhã das gentes despertas
ansiando por mais um nosso beijo.

Toquem violinos melodias joviais,
gritos ultrapassem decibéis razoáveis,
os sentidos interajam desiguais
e os sonhos jamais sejam palpáveis.

Pernoito em ti!

De qualquer modo!...

 
António MR Martins  

domingo, 5 de abril de 2015

Jorge Oliveira








reduzir a pó os poemas e quem os faz
 
nos meus olhos o amor se deitou
adormeceu com as memórias de ti
e na cama húmida de lágrimas sonhou
na noite das noites que não têm fim

noite escura onde brilham primaveras
de um ébrio amor de um luar ardente
vindo de céus de estrelas de outras eras
onde dois corpos se amaram loucamente

e no calor da lareira onde me aqueço
queimo paixões de um desejo bem fugaz
nas labaredas de chamas no firmamento

aguardo o tão esperado silêncio de paz
nas cinzas que arrefecem diante o tempo
a reduzir a pó os poemas e quem os faz
 
Jorge Oliveira
( ? – 2014)
 
 

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Sara Timóteo





ENCONTRO NA CAVERNA 

À luz escura
dos archotes
fui encontrar-te
desprendido
na nomenclatura
da Arte
e dos consortes.

Logo vi
que em meu acolhimento
se acendera uma crueza sem fim.

Tremias embrulhado
no saber do frio
e soube
que as cinzas da união
a todos chegam
sem que por isso
o ser se ache mais alumiado.


Sara Timóteo, in “ Elixir vitae”, página 8, edições Lua de Marfim, Setembro de 2014.

Também o céu era azul






Pairavam as nuvens, arredondadas nas suas pontas, quais flocos de algodão esvoaçantes, na miragem de um surpreendido rebanho. Harmoniosamente algumas abelhas pululavam, em curtos voos, por meio de variados movimentos de puros insectos, protectores de todo o pólen colhido das graciosas flores, ali germinadas, que aquela bucólica tela emoldurava, em reflexos de plena e radiosa alegria, naquele específico espaço, envolvido por quatro barras de azul claro, saliente.

António MR Martins

quarta-feira, 1 de abril de 2015

António Gedeão





Poema do fim do mundo – 15

Um homem grosso e curto caminha na penumbra.
Recolhidos os beiços como um golpe,
as pupilas varrendo os ângulos todos
num fogo de barragem.

Cauteloso, procura as melhores pedras
onde possa poisar os pés descalços,
pés desconformes, toscos e nodosos,
crestados pelos sóis, e arranhados
p’las areias do mundo que pisaram.

Pára, e respira.

A hora é de crepúsculo, quase noite,
com nuvens baixas, túrgidas e negras,
que em rolos se atropelam, e em farrapos
se alastram no horizonte,
galgam, investem, lutam, cabriolam,
como toiros de fumo, bisontes de fuligem.

Até onde o olhar trespassa o ar cinzento,
em frente e atrás, tudo são pedras, pedras,
pedras e pedras,
calhaus rolados onde os pés se ajustam
palpando a forma, tenteando o jeito.

Foge o pesado corpo ao equilíbrio estável,
o ventre se lhe espeta e em vão esbraceja
batendo o ar como animal aflito
que não quer afogar-se nem render-se.

Pára e respira,
que o arcaboiço é grande e o ar é pouco.

Na quase noite avulta a espuma branca
das vagas que o alcançam,
lavam-lhe os pés e cobrem por instantes
a faixa imensa das roladas pedras.
Sentem os pés a água, e compreendem-na.
Na alegria do encontro o corpo exalta-se
e num gozo frenético
desafia e defronta o chuveiro das vagas
que embatidas nas rochas o encharcam.

Que chatice, pá!

Está cansado mas ri-se, e até cantava
se na penumbra alguma corda tensa
vibrasse para ele.
Mas os sons que lhe chegam são soturnos,
roucos e ásperos, surdos e cavados.
Só a espuma das águas é graciosa,
irrequieta e ágil. Entre as pedras
a babugem fervilha e se insinua.
Só a espuma é graciosa. E que se faz com espuma?

Pára, e olha p’ra trás.

Que vastidão imensa! Que teatral espectáculo!
Relâmpagos histéricos, caprichosos e rápidos,
cegas assinaturas rabiscadas à pressa,
fundem o escuro céu e em golpes o estilhaçam.
Na luz intermitente iluminam-se as vagas,
dorsos fluorescentes que se encurvam e dobram
como peças de pano, salpicadas
de gemas que se espraiam e se somem na areia.
Mas não! São panos mesmo! Brocados e cetins,
alcatifas, e tendas, e capas, e gibões,
dalmáticas e véus, paramentos e estolas,
tudo perdida a cor na pavidez dos raios.
Enfileiram-se as rochas na lonjura da vista,
penedos singulares como proas hirsutas.
Mas não! São proas mesmo! Restos de galeões,
enxárcias, gurupés, papafigos, traquetes,
mastros, lemes, escotas, brandais e mastaréus.
Tudo madeira gasta que a impulsão das águas
conserva eternamente a boiar na memória.
 
Que lixarada, pá!

As vagas vão e vêm na cadência do sangue
que ao coração acorre,
e ecoam bravamente como vozes antigas,
brados, imprecações, emparedadas vozes,
que em espasmos se prolongam acentuando a origem.
São vozes silabadas, palavras que circulam
entre os destroços, e roem mais que a água.

de Portugal e dos Algarves,
daquém e dalém mar em África,
Senhor da Guiné,
da conquista, navegação e comércio
da Etiópia,
Arábia,
Pérsia
e Índia.

Redonda voz de bronze, rolando sem atrito
na suspensão do vácuo.
Bola de som tangente às nervuras da abóbada,
desce a roçar as lajes e às alturas regressa.

Quer caminhar de novo mas os ecos e os raios
espasmam-lhe os ouvidos e incendeiam-lhe os olhos.
Tem frio,
e as palavras tiritam-lhe na boca.

As armas, pá.
E os barões, pá.
Assinalados, pá.

Um meteoro deflagra, inflama o mundo côncavo,
ilumina os destroços e,
no céu,
parecem-lhe, talvez, quem sabe de figuras,
braços que gesticulam, discutem qualquer coisa,
barbas enoveladas sobre o peito,
cabelos ondulantes sobre as costas.

O gajo gordo é Júpiter,
e a gaja ao lado é Vénus.

Ondula-lhe a barriga em farto riso
e os lábios lambe com serôdio gozo.
Num arremesso à frente o corpo lança
e do novo procura as melhores pedras
onde possa assentar os pés nodosos.

Ó glória de mandar! Ó vã cobiça!

Pedras e pedras só a vista alcança
onde a força do mar encapelado investe.
O mar, e sempre o mar,
o mar que traz os peixes, que é estrada de navios,
e as pedras que dão pão, pão duro como pedras.

António Gedeão (1906-1997), in “ Poemas Póstumos”, páginas 51 a 62, edições João Sá da Costa, colecção poética, 5.ª edição, 2000. 

 

   

segunda-feira, 30 de março de 2015

Carla Furtado Ribeiro






METAMORFOSE

é na água dos teus olhos que me nascem
as palavras de gelo com que esculpo
a tua antevisão inexplorada

se não fosse o silêncio percutido do nada

um hiato atravessou-nos a esfera do tempo
como crisálida desfiando a madrugada
e nós cedemos à metamorfose inesperada

Carla Furtado Ribeiro, in “[ EM SILÊNCIOS ]", página 35, edições Chiado Editora, Agosto, 2013.

Seu nome é: Tejo


Imagem da net, em: www.blogplanoc.blogspot.com
 



Espraiando-se verde-maduro na foz
longe de um começo sem sentinelas,
sendo canção, verso e poema em nós
e sentido ibero-luso com sequelas.

Luminosa varanda, ou triste fado,
brilho mágico em voo de gaivotas
constante melodia, destino fadado,
onde cacilheiros apontam suas rotas.

Muitos contrastes suspensos na memória,
empatia geral com relevos na História,
laborioso correr ante tanta proa.

Nas suas águas as gentes chegam e partem
e as saudades em si sempre se rebatem…
cruzando-se com seu abraço a Lisboa.

António MR Martins

terça-feira, 24 de março de 2015

Faustino Xavier de Novaes





SONETO

Aos meus trinta e três anos
(Aos meus trinta e tres annos)

Como os anos, p’ra mim, correm ligeiros !
Como os dias se vão, sem que se contem !
Julgo que trinta e dois anos fiz ontem,
E trinta e três já tenho, muito inteiros !

Foram curtos os meses derradeiros,
Ou vão, sem que as folhinhas os apontem ?
- Eu não creio, ainda que me afrontem,
Que não ouve n’este ano dois fev’reiros ! –

Mas… se o tempo, que foi, não foi perdido,
Se o que outros não verão já tenho visto,
Se tantos, inda moços, têm morrido,

Alegre eu devo estar, porque inda existo ;
Pois se Cristo assemelho em ter nascido,
Se um ano inda viver, sou mais que Cristo.

Faustino Xavier de Novaes (1820-1869), in “POESIAS”, publicadas por António Moutinho de Sousa, página 189, edições Livraria Internacional, de Ernesto Chardron, Porto e Eugénio Chardron, Braga, 1879.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Rogério do Carmo





ROTA

Quem me deixou aqui
Perdido em alto mar
Sem timoneiro qualquer nauta
Desnorteado navegante incauta
Em épico trágico naufragar?

Como nestas águas ainda permanecer
Numa viagem que há muito deixou de ser
Sem farol que destino me venha indicar?

Como continuar esta erma busca sem fim
Teimosamente à procura de mim
Sem nunca jamais me poder encontrar?

Paris, 15/12/1992


Rogério do Carmo, in “VAGAS”, página 191, Edição de Autor, Mafra, Maio de 2008.

Azul profundo


Imagem da net, em: www.pt.forwallpaper.com



Do teu sorriso: O maior esplendor!
Perante o aconchego do teu olhar,
tal como um rio exulta o seu rubor
quando, deslumbrando-se, chega ao mar.

Do teu abraço: A maior mensagem!
Enorme grito de fraternidade,
tal como o clique da melhor imagem
traz ao fotógrafo a felicidade.

Do teu beijo: O patamar supremo!
Em pensamentos que ainda temo
por serem cumes da alegria e dor.

Entre tantos gestos de sentir profundo,
integrantes deste humano mundo
que dão consistência, para este amor.

António MR Martins

quinta-feira, 19 de março de 2015

Fernando Pessoa





[CONTEMPLO…]

Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.

O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo.
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.

Trémulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?

Fernando Pessoa (1988-1935),  in “Poesias”, página 122, da Colecção Poesia, Obras Completas de Fernando Pessoa, Edições Ática, Janeiro de 1997.

domingo, 15 de março de 2015

Emanuel Lomelino





GASTÃO CRUZ

Diz-me em que escarpa ou falésia
está sepultado o pai da poesia
e se as pedras que o cobrem
são xisto leve ou basalto pesado.
Revela-me em que penhasco
posso ver a génese dos poemas
que o tempo iletrado corroeu
e a nossa memória não enxerga.
Conta-me os segredos da verve
ou inicia-me no uso do estro
antes que o equinócio negro
resolva cancelar-me os sentidos.

Emanuel Lomelino, in “ Poetas que sou”, página 54, edições Lua de Marfim, Janeiro de 2013.  

Rasteiras governamentais


Imagem da net, em: www.derly.com.br



Na reprimenda a um ideal louco
se disferem mais termos pervertidos,
certeza de terem feito tão pouco
para além dos cortes não prometidos.

Condimento regular conjuntural
retaliação profunda, não construtiva,
esquecendo todo o fundamental
e faz influente parte da nossa vida.

As palavras fazem depender actos
circunscritos a adendas dos factos
introduzidos sem quaisquer afeições.

Tudo pende apenas para um lado
omitindo virtudes de cada recado
onde acarinharam… crianças-multidões.

António MR Martins