Poema do fim do
mundo – 15
Um
homem grosso e curto caminha na penumbra.
Recolhidos
os beiços como um golpe,
as
pupilas varrendo os ângulos todos
num
fogo de barragem.
Cauteloso,
procura as melhores pedras
onde
possa poisar os pés descalços,
pés
desconformes, toscos e nodosos,
crestados
pelos sóis, e arranhados
p’las
areias do mundo que pisaram.
Pára,
e respira.
A
hora é de crepúsculo, quase noite,
com
nuvens baixas, túrgidas e negras,
que
em rolos se atropelam, e em farrapos
se
alastram no horizonte,
galgam,
investem, lutam, cabriolam,
como
toiros de fumo, bisontes de fuligem.
Até
onde o olhar trespassa o ar cinzento,
em
frente e atrás, tudo são pedras, pedras,
pedras
e pedras,
calhaus
rolados onde os pés se ajustam
palpando
a forma, tenteando o jeito.
Foge
o pesado corpo ao equilíbrio estável,
o
ventre se lhe espeta e em vão esbraceja
batendo
o ar como animal aflito
que
não quer afogar-se nem render-se.
Pára
e respira,
que
o arcaboiço é grande e o ar é pouco.
Na
quase noite avulta a espuma branca
das
vagas que o alcançam,
lavam-lhe
os pés e cobrem por instantes
a
faixa imensa das roladas pedras.
Sentem
os pés a água, e compreendem-na.
Na
alegria do encontro o corpo exalta-se
e
num gozo frenético
desafia
e defronta o chuveiro das vagas
que
embatidas nas rochas o encharcam.
Que
chatice, pá!
Está cansado mas ri-se, e até cantava
se
na penumbra alguma corda tensa
vibrasse
para ele.
Mas
os sons que lhe chegam são soturnos,
roucos
e ásperos, surdos e cavados.
Só
a espuma das águas é graciosa,
irrequieta
e ágil. Entre as pedras
a
babugem fervilha e se insinua.
Só
a espuma é graciosa. E que se faz com espuma?
Pára,
e olha p’ra trás.
Que
vastidão imensa! Que teatral espectáculo!
Relâmpagos
histéricos, caprichosos e rápidos,
cegas
assinaturas rabiscadas à pressa,
fundem
o escuro céu e em golpes o estilhaçam.
Na
luz intermitente iluminam-se as vagas,
dorsos
fluorescentes que se encurvam e dobram
como
peças de pano, salpicadas
de
gemas que se espraiam e se somem na areia.
Mas
não! São panos mesmo! Brocados e cetins,
alcatifas,
e tendas, e capas, e gibões,
dalmáticas
e véus, paramentos e estolas,
tudo
perdida a cor na pavidez dos raios.
Enfileiram-se
as rochas na lonjura da vista,
penedos
singulares como proas hirsutas.
Mas
não! São proas mesmo! Restos de galeões,
enxárcias,
gurupés, papafigos, traquetes,
mastros,
lemes, escotas, brandais e mastaréus.
Tudo
madeira gasta que a impulsão das águas
conserva
eternamente a boiar na memória.
Que
lixarada, pá!
As
vagas vão e vêm na cadência do sangue
que
ao coração acorre,
e
ecoam bravamente como vozes antigas,
brados,
imprecações, emparedadas vozes,
que
em espasmos se prolongam acentuando a origem.
São
vozes silabadas, palavras que circulam
entre
os destroços, e roem mais que a água.
de
Portugal e dos Algarves,
daquém
e dalém mar em África,
Senhor
da Guiné,
da
conquista, navegação e comércio
da
Etiópia,
Arábia,
Pérsia
e
Índia.
Redonda
voz de bronze, rolando sem atrito
na
suspensão do vácuo.
Bola
de som tangente às nervuras da abóbada,
desce
a roçar as lajes e às alturas regressa.
Quer
caminhar de novo mas os ecos e os raios
espasmam-lhe
os ouvidos e incendeiam-lhe os olhos.
Tem
frio,
e
as palavras tiritam-lhe na boca.
As
armas, pá.
E
os barões, pá.
Assinalados,
pá.
Um
meteoro deflagra, inflama o mundo côncavo,
ilumina
os destroços e,
no
céu,
parecem-lhe,
talvez, quem sabe de figuras,
braços
que gesticulam, discutem qualquer coisa,
barbas
enoveladas sobre o peito,
cabelos
ondulantes sobre as costas.
O
gajo gordo é Júpiter,
e
a gaja ao lado é Vénus.
Ondula-lhe
a barriga em farto riso
e
os lábios lambe com serôdio gozo.
Num
arremesso à frente o corpo lança
e
do novo procura as melhores pedras
onde
possa assentar os pés nodosos.
Ó
glória de mandar! Ó vã cobiça!
Pedras
e pedras só a vista alcança
onde
a força do mar encapelado investe.
O
mar, e sempre o mar,
o
mar que traz os peixes, que é estrada de navios,
e
as pedras que dão pão, pão duro como pedras.
António Gedeão (1906-1997), in “ Poemas Póstumos”, páginas 51 a
62, edições João Sá da Costa, colecção poética, 5.ª edição, 2000.