sábado, 18 de abril de 2015

José Gabriel Duarte





DESERTO

Quando atravesso o deserto
Sem de ti saber
Se estou longe, se estás perto
Quando me afasto, quando me perco
É como se o vento me cegasse
Me levasse
Me escondesse nas areias
Cálidas de silêncio
Na ausência do tempo
Sem que me possa lembrar.

Atravesso o vazio do que me falta
Perdendo o rasto das ideias
Sem saber onde chegar
Sem saber como voltar.

José Gabriel Duarte, in “No outro lado de mim”, página 66, edições Chiado Editora, Outubro, 2012.

Empatias sem fim


Imagem da net, em: www.mensagens.culturamix.com



Tenho este meu olhar preso a ti
desde que te cruzas neste caminho,
anseio tua nova passagem por aqui
para te poder ver passar bem juntinho.

E prender de novo meu olhar ao teu
num comprido passar de tempo sem fim,
sentindo esse teu calor junto do meu
e permanecendo todos os dias assim.

Nesta esquina onde nos cruzamos
nossos olhares, a gosto, nós trocamos,
assim se recria nosso porto de abrigo.

Aqui levitamos pensamentos ao luar
navegamos nossas paixões neste mar,
esquecendo do mundo o seu perigo.

António MR Martins

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Tomás Ribeiro (Thomaz Ribeiro)





N’UM ALBUM

Somos dois viajantes: vós, senhora,
andais talvez em busca de prazeres ;
                   eu… sem destino ! á toa !
Percorremos um dia a mesma estrada ;
o acaso nos juntou, e pernoitámos
                   no grande hotel – Lisboa .

Pois que partis primeiro, auras benignas
vos acompanhem sempre, e vos segredem
                   meus votos d’amizade .
Se elas voltarem junto a mim de novo,
que me tragam de vós uma lembrança ;
                   se fosse uma saudade !...

 
Lisboa, 16 de Abril de 1863 .

Thomaz Ribeiro (1831-1901), in “Sons que passam”, páginas 85 e 86, edições Ernesto Chardron – Editor, 4.ª Edição, Porto, 1884.  

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Miguel Almeida





Todos somos vida

Todos somos escravos
E senhores da vida,
Porque todos somos fardos
E carregadores,
Onde a vida se vive,
Para se poder fazer vida;
Todos somos carga
E transporte,
Onde a vida viaja,
Para nos fazer viajar;
Todos somos (a) gente
E acção,
Onde a vida se dá,
Para se poder realizar;
Todos somos vida
E sem nós,
A vida seria diferente,
Pior, iria ser com certeza
Seria sempre vida menos viva,
Seria sempre menos vida, sem nós.

Miguel Almeida, in “SobreViver Ad Ritmo Poetae”, página 69, capítulo Viver (instantâneos), poema 4, edições Esfera do Caos, Março de 2013.

quando se esfarrapam as palavras


Imagem da net, em: www.etcetaljornal.pt



propago a dor da palavra ferida,
aquela que esvoaçando perdida,
se destrói,
levada em farrapos,
pelos ventos de todos os destinos.

promovo a ferida dorida da palavra,
daquela que amargurada se fragiliza
e se despedaça,
sem a força da revitalização.

trago-vos as sequelas da ferida incurável
da palavra esquecida, adormecida
e esquartejada,
aquela que se expõe sem trancas,
sem algemas ou ameias,
mas jamais é acarinhada e fortalecida,
a preceito.

divulgo o anseio dos povos
pelo “ressuscitar” da palavra,
com a força que representa.

aquela que passa de boca em boca,
perante a estranha indiferença
dos últimos habitantes do mundo.

sentem-se os ventres
inundados de dor, de mágoa
e de inconformação,
neste vil destino acomodado.

propago, então, a dor da última palavra ferida,
nos tempos de todos os tempos:
a palavra… LIBERDADE !!!

António MR Martins

terça-feira, 14 de abril de 2015

Manuel Maria Barbosa du Bocage






[Não sou vil delator]

Não sou vil delator, vil assassino,
Ímpio, cruel, sacrílego, blasfemo;
Um Deus adoro, a eternidade temo,
Conheço que há vontade e não destino.

Ao saber e à virtude a fronte inclino;
Se chora e geme o triste, eu choro, eu gemo;
Chamo à beneficência um dom supremo;
Julgo a doce amizade um bem divino.

Amo a Pátria, amo as leis, precisos laços
Que mantêm dos mortais a convivência,
E de infames grilhões oiço ameaços !

Vejo-me exposto à rígida violência,
Mas folgo e canto e durmo nos teus braços,
Amiga da Razão, pura Inocência.

Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805), in “Poesias”, colecção Pequeno Tesouro, página 82, edições Círculo de Leitores, selecção, introdução e revisão de Orlando Neves.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Dalila Moura Baião





SINTO

No outro lado da margem
onde estremecem estrelas e desejos
onde o mar vem beijar o areal
e em sobressalto me alcança…

Embala-me devagar como alga adormecida
colho a espuma que se esvai por entre os dedos
e teço no olhar horizontes voados de gaivotas
que descalças me acenam em danças embevecidas.

No outro lado da margem
vou tocando na maré inventando nos meus braços
a leveza dos remos que atravessam um destino
onde anémonas se distraem num breve sonho
preso na janela de conchas e cores de mar!

Na outra margem, navega o beijo que me espera
dobrando a distância que a idade não roubou.

Há corais escondidos
num lençol de luar
onde o vento se delicia
quando se juntam as margens
e os beijos nos vêm aprisionar.

Dalila Moura Baião, in “Quando o mar corre no peito”, página 67, edições El Taller del Poeta S. L., Pontevedra, Espanha, 2014. 

Criações artísticas





Pincela-se um roedor
Pelos seus aparelhos auditivos
Um coelhinho janota
Tema: Cinzento-rato
Em primeira mão.

Cortam-se tecidos
Por entre manuseamentos
Guardados de antemão.

Desalinham-se
E entrelinham-se
As meadas dos fios novelados
Com atenção.

E constrói-se
Uma nova peça decorativa
No plano da ilusão.

Há um veículo
Anos setenta
A ser pintado rosa-leve
À condição.

Eis o burilar
De vidas sonhadoras
Em símbolos de magia
E imaginação.

António MR Martins

terça-feira, 7 de abril de 2015

Ary dos Santos





A FACA

A palavra será faca
o sentido será gume
a imagem será chama
mas a matéria é o lume.

Lume dos nervos riscados
pelo fósforo do medo
lume dos dentes cerrados
pela goma dum segredo.

Lume das faces de cera
lume dos dedos de cal
lume golpe  lume pedra
lume  silêncio  metal.

Lume que se acende a frio
e nos devora por dentro
lume agulha  lume fio
da faca do pensamento.

Lume navalha que rasga
o ventre da solidão
vingança de quem se gasta
queimando frases em vão.

Lume lembrança das coisas
que nos arderam na voz
cinza viva que nos corta
e nos separa de nós.

José Carlos Ary dos Santos (1937-1984), in “Vinte anos de poesia”, página 77, edições Círculo de Leitores, 2.ª edição, Maio de 1984.  

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Licínia Quitério






[Sento-me na inutilidade]

 
Sento-me na inutilidade das coisas quando secam os frutos

à míngua de carícias.

 
Peso tanto como as minhas pernas cansadas de alinhavar

viagens.

 
A penumbra é um lugar indeciso aninhado na paciência do

tempo.

 
Na hora de folhear as outras horas, passam por mim cavaleiros

de infindáveis batalhas, corças assustadas, cabeleiras fulvas,

flores de oiro velho.

 
Espero um teatro novo, de luz sem sombras, de suspiros de

riachos, de corpos nus, terrenos, fabulosos, fabricando o

pão, repartindo.

 
Adormeço.

 
Licínia Quitério, in “ O Livro dos Cansaços”, página 25, edição da autora, Fevereiro de 2015.

Pernoito em ti


Imagem da net, em: umolharespiritual.blogspot.com



Pernoito em ti!
No descanso dos dias desencontrados
alfanados de luzes esbatidas,
elícitos pelo madrugar silencioso
onde se escutam arfares tocados,
pelos rimados versos em vão perdidos
no seu aroma breve e delicioso.

Pernoito em ti!
Sob a odisseia do vento passageiro,
perante o luar das descobertas
e as estrelas presentes no desejo,
assim vai correndo o tempo ligeiro,
até à manhã das gentes despertas
ansiando por mais um nosso beijo.

Toquem violinos melodias joviais,
gritos ultrapassem decibéis razoáveis,
os sentidos interajam desiguais
e os sonhos jamais sejam palpáveis.

Pernoito em ti!

De qualquer modo!...

 
António MR Martins  

domingo, 5 de abril de 2015

Jorge Oliveira








reduzir a pó os poemas e quem os faz
 
nos meus olhos o amor se deitou
adormeceu com as memórias de ti
e na cama húmida de lágrimas sonhou
na noite das noites que não têm fim

noite escura onde brilham primaveras
de um ébrio amor de um luar ardente
vindo de céus de estrelas de outras eras
onde dois corpos se amaram loucamente

e no calor da lareira onde me aqueço
queimo paixões de um desejo bem fugaz
nas labaredas de chamas no firmamento

aguardo o tão esperado silêncio de paz
nas cinzas que arrefecem diante o tempo
a reduzir a pó os poemas e quem os faz
 
Jorge Oliveira
( ? – 2014)
 
 

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Sara Timóteo





ENCONTRO NA CAVERNA 

À luz escura
dos archotes
fui encontrar-te
desprendido
na nomenclatura
da Arte
e dos consortes.

Logo vi
que em meu acolhimento
se acendera uma crueza sem fim.

Tremias embrulhado
no saber do frio
e soube
que as cinzas da união
a todos chegam
sem que por isso
o ser se ache mais alumiado.


Sara Timóteo, in “ Elixir vitae”, página 8, edições Lua de Marfim, Setembro de 2014.

Também o céu era azul






Pairavam as nuvens, arredondadas nas suas pontas, quais flocos de algodão esvoaçantes, na miragem de um surpreendido rebanho. Harmoniosamente algumas abelhas pululavam, em curtos voos, por meio de variados movimentos de puros insectos, protectores de todo o pólen colhido das graciosas flores, ali germinadas, que aquela bucólica tela emoldurava, em reflexos de plena e radiosa alegria, naquele específico espaço, envolvido por quatro barras de azul claro, saliente.

António MR Martins

quarta-feira, 1 de abril de 2015

António Gedeão





Poema do fim do mundo – 15

Um homem grosso e curto caminha na penumbra.
Recolhidos os beiços como um golpe,
as pupilas varrendo os ângulos todos
num fogo de barragem.

Cauteloso, procura as melhores pedras
onde possa poisar os pés descalços,
pés desconformes, toscos e nodosos,
crestados pelos sóis, e arranhados
p’las areias do mundo que pisaram.

Pára, e respira.

A hora é de crepúsculo, quase noite,
com nuvens baixas, túrgidas e negras,
que em rolos se atropelam, e em farrapos
se alastram no horizonte,
galgam, investem, lutam, cabriolam,
como toiros de fumo, bisontes de fuligem.

Até onde o olhar trespassa o ar cinzento,
em frente e atrás, tudo são pedras, pedras,
pedras e pedras,
calhaus rolados onde os pés se ajustam
palpando a forma, tenteando o jeito.

Foge o pesado corpo ao equilíbrio estável,
o ventre se lhe espeta e em vão esbraceja
batendo o ar como animal aflito
que não quer afogar-se nem render-se.

Pára e respira,
que o arcaboiço é grande e o ar é pouco.

Na quase noite avulta a espuma branca
das vagas que o alcançam,
lavam-lhe os pés e cobrem por instantes
a faixa imensa das roladas pedras.
Sentem os pés a água, e compreendem-na.
Na alegria do encontro o corpo exalta-se
e num gozo frenético
desafia e defronta o chuveiro das vagas
que embatidas nas rochas o encharcam.

Que chatice, pá!

Está cansado mas ri-se, e até cantava
se na penumbra alguma corda tensa
vibrasse para ele.
Mas os sons que lhe chegam são soturnos,
roucos e ásperos, surdos e cavados.
Só a espuma das águas é graciosa,
irrequieta e ágil. Entre as pedras
a babugem fervilha e se insinua.
Só a espuma é graciosa. E que se faz com espuma?

Pára, e olha p’ra trás.

Que vastidão imensa! Que teatral espectáculo!
Relâmpagos histéricos, caprichosos e rápidos,
cegas assinaturas rabiscadas à pressa,
fundem o escuro céu e em golpes o estilhaçam.
Na luz intermitente iluminam-se as vagas,
dorsos fluorescentes que se encurvam e dobram
como peças de pano, salpicadas
de gemas que se espraiam e se somem na areia.
Mas não! São panos mesmo! Brocados e cetins,
alcatifas, e tendas, e capas, e gibões,
dalmáticas e véus, paramentos e estolas,
tudo perdida a cor na pavidez dos raios.
Enfileiram-se as rochas na lonjura da vista,
penedos singulares como proas hirsutas.
Mas não! São proas mesmo! Restos de galeões,
enxárcias, gurupés, papafigos, traquetes,
mastros, lemes, escotas, brandais e mastaréus.
Tudo madeira gasta que a impulsão das águas
conserva eternamente a boiar na memória.
 
Que lixarada, pá!

As vagas vão e vêm na cadência do sangue
que ao coração acorre,
e ecoam bravamente como vozes antigas,
brados, imprecações, emparedadas vozes,
que em espasmos se prolongam acentuando a origem.
São vozes silabadas, palavras que circulam
entre os destroços, e roem mais que a água.

de Portugal e dos Algarves,
daquém e dalém mar em África,
Senhor da Guiné,
da conquista, navegação e comércio
da Etiópia,
Arábia,
Pérsia
e Índia.

Redonda voz de bronze, rolando sem atrito
na suspensão do vácuo.
Bola de som tangente às nervuras da abóbada,
desce a roçar as lajes e às alturas regressa.

Quer caminhar de novo mas os ecos e os raios
espasmam-lhe os ouvidos e incendeiam-lhe os olhos.
Tem frio,
e as palavras tiritam-lhe na boca.

As armas, pá.
E os barões, pá.
Assinalados, pá.

Um meteoro deflagra, inflama o mundo côncavo,
ilumina os destroços e,
no céu,
parecem-lhe, talvez, quem sabe de figuras,
braços que gesticulam, discutem qualquer coisa,
barbas enoveladas sobre o peito,
cabelos ondulantes sobre as costas.

O gajo gordo é Júpiter,
e a gaja ao lado é Vénus.

Ondula-lhe a barriga em farto riso
e os lábios lambe com serôdio gozo.
Num arremesso à frente o corpo lança
e do novo procura as melhores pedras
onde possa assentar os pés nodosos.

Ó glória de mandar! Ó vã cobiça!

Pedras e pedras só a vista alcança
onde a força do mar encapelado investe.
O mar, e sempre o mar,
o mar que traz os peixes, que é estrada de navios,
e as pedras que dão pão, pão duro como pedras.

António Gedeão (1906-1997), in “ Poemas Póstumos”, páginas 51 a 62, edições João Sá da Costa, colecção poética, 5.ª edição, 2000.