sábado, 24 de outubro de 2015

Gonçalo Lobo Pinheiro





Como uma ave

Quero ser uma ave
E pairar no alto, suspenso.
Sentir a pressão do ar em mim.
Leve, perceber as nuvens.
Ouvi dizer que contam histórias aos pássaros.

Apetece-me viajar a sul,
Onde o espaço aéreo é mais quente.
Lá, contemplo as paisagens do Estio.
Sinto-me mais incluído,
Mais cercado pela vontade do sol.

Gonçalo Lobo Pinheiro, in “Etéreo”, página 34, edições Temas Originais, 2010.

Escasseia-nos a liberdade libertada no voo de uma ave


Imagem da net, em: www.ultradownloads.com.br



Solta ave
não passes de soslaio
nas terras de ninguém,
num prenhe deslumbramento
acompanhada das nuvens
da mais densa rebelião.

Ave só
não poises no desalento
e nos ramos despidos das árvores,
saltitando pela vez primeira
em intrépido desleixo
como se essa vez… fosse a última.

Única ave
não desenvolvas a saudade
no íntimo dos humanos,
que te observam pasmados…
ruídos da plena inveja
ante a sedução do teu voar.

Ave livre
leva o sonho com o teu voo,
foge do degredo rumo à vida…
que a nós, por cá, sonhando,
por breves ou longos minutos,
só nos acontecem pesadelos.

António MR Martins

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Licínia Quitério





46.

Subíamos os degraus da paixão
a esconjurar demónios de viagem,
a conjugar passados com futuros.
Tempo de brincar com palavras carnívoras –
sexo, gengibre, estandarte – ou palavras
de seda – abraço, infinito, teorema.
Às vezes era o sol que nos vestia de ouropel
e apagava o rasto dos chacais.
As mãos pousadas em redes de silêncio,
tecíamos pontes sobre o tédio.
Antes de sabermos a medida do frio,
quando se extingue a brasa e as flores de gelo
descem, exangues, a vertical das noites.
Antes do bolor nas paredes.

Licínia Quitério, in “Os Sítios”, página 69, edição de autor, Novembro de 2012.  

Mais do mesmo


Imagem da net,  em: www.temasbblicos.blogspot.com



Acercam-se memórias do passado
neste percurso aspirando ideais;
assim: num sentido transfigurado…
somos dominados, mestria dos maiorais.

Peões perdidos num emaranhado
sem vislumbre duma sadia saída,
um todo se sente muito saturado
mas continua a querer da mesma vida.

Não se entendem estes resultados
em que os mandantes não são mudados…
ficamos cercados p’lo mesmo murete.

Prevejo que não mude a exploração
pela envolvência de mais contenção
aromatizada p’lo mesmo pivete.

 
António MR Martins

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Manuel C. Amor





12

 
“Ainda há ruas para a revolta do mundo”
Jorge de Sena

 

os sorrisos que na boca das mulheres
encostadas nas ombreiras
se abrem para distâncias maternais
são metais fundentes
imagens que não morrem
palavras inexequíveis de escrever
num corpo que já não é corpo

E não se trata
de diluir angústias
deslizar no esquecimento
muito menos tropeçar na vastidão dos mares

Manuel C. Amor, in “ Canto de Diáspora”, página 32, edições Temas Originais, Vozes de Angola / 1, 2013. 

Tendo-se quase nada





Brilham teus olhos, azedos de fome,
página branca, desígnio da vida;
nada tens… quase tudo te consome
nesta herança sem qualquer guarida.

Rugas profundas na carne da pele,
mórbido destino sem contemplação;
feroz sociedade que te repele
entre os vazios da consumação.

Abrigos rasgados, vestes ligeiras,
só pó do teu tempo nas prateleiras
na pobreza-valor da tua memória.

Desapego do ser agora perdido,
nos repelões batidos sem sentido…
julgado, por fim, como sendo escória!...

António MR Martins

sábado, 10 de outubro de 2015

Dora Nunes Gago






Toada de Outono

I

Mar de folhas
revoltas
que este Outono trouxe:
serenata de esperanças,
pairando soltas.

 
II

Desfolhar dourado
de dias suaves
e sonhos revoltos,
árvore ansiada
plantada
no solo da alma,
promessas de vento escarlate
a escorrer
pelas margens da alegria.

Dora Nunes Gago, in “A Matéria dos Sonhos”, página 64, edições Temas Originais, 2015.

Ruínas da razão


Imagem da net, em: www.cempalavras.wordpress.com



Há pedaços podres de vida morta
espalhados pelos confins do mundo,
percalços onde a razão se entorta
até ao seu sentido mais profundo.

Desintegra, aos poucos, sua consistência
com menos apelo, mas mais agravo,
perdendo toda a sua sapiência
entre o seu mais recôndito travo.

Esmorona-se ao poder corruptivo
ruindo mordazmente seu activo,
suprimindo, por inteiro, seu fulgor.

Se esfuma sua razoabilidade
nas réstias da frágil vitalidade
restando à razão ficar sem valor.

António MR Martins

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Vítor Cintra






SEM MEDO

Tenho apenas saudades do passado,
Do tempo em que vivemos entre amigos.
Éramos nós, vivendo lado a lado,
Um dia a dia, sem medo de perigos.

Indiferença não tinha cabimento,
Porque o teu problema era meu também.
Partilhava-se até o sofrimento,
Jamais se abandonava à dor, alguém.

Inveja não havia de ninguém.
Apenas união, camaradagem
E boa vizinhança. Era a mensagem.

Qualquer uma alegria era, porém,
Razão de regozijo para a gente
Pois ninguém se sentia indiferente.

Vítor Cintra, in “Ao Acaso”, página 32, edições Lua de Marfim, Março de 2015.

infinita envolvência


A sesta, de José Malhoa (1855-1933) - 1909.



e as pálpebras cansadas se estendiam
sobre as vistas pendentes do próximo abraço
intimista.

as folhas abotoavam os ramos cruzados
da árvore, que permanecia estática, localmente,
mas ondulante ao fruir do vento.

a paisagem incólume
ali permanecia.

ao fundo
algumas aves ondulavam, também,
pareciam quase tocar o céu
em movimentos voadores que
pareciam ensaiados.

o ambiente bucólico estendia-se
até que a margem que as pálpebras deixavam livre
pudesse gravar no íntimo do seu dono,
corpo também cansado
sentado à porta daquela casa velha,
aquelas imagens únicas.

tantas histórias, tantos anos, meses , horas,
tanta envolvência esquecida
que aquele ser reservava, unicamente, para si.

as aves ao longe já lá não moravam,
mas a árvore ali permanecia
desabotoando ramos numa empatia única
com aquele espaço tão belo.

por fim
as pálpebras não estavam mais cansadas
o corpo sentado à porta da casa velha,
também não,
o silêncio era imparável,
mas a árvore fez brotar flores dos ramos
da sua vida.

António MR Martins

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Fátima Guimarães








Não, não quero ser musa, nem ninfa, nem sereia.
Não quero ser palavra calada
nem sonho à margem do desejo.

Quero ser em ti mulher inteira,
aquecer a alvura fria dos lençóis.
Quero ser em ti o sol
duma amena tarde de outono.

Quero-te antes que os sonhos morram,
antes que hibernem em si mesmos.
Quero-te, agora, ao entardecer,
na urgência de quem teme não amanhecer.

Fátima Guimarães, in “a voz do nó”, página 58, edição de autor, Novembro de 2014. 

Versos da vida





Rente à fala do teu fixo olhar
surpreendem-nos pedaços primaveris,
reflexo nó em que tento mergulhar
nos desígnios dum tempo, por seus carris.

Folhagem inquieta solta ao vento
emana dos sentidos vindos de ti,
num afagar de dor que tanto tento
apaziguar, num abraço feito aqui.

Revoltas marés, jamais domesticadas,
se estendem nas areias desbravadas
acalentando tantos prantos de sonhos.

Ficam as réstias salpicando fragor
na maresia suspirante-incolor
entre versos alegres ou medonhos.

António MR Martins

sábado, 26 de setembro de 2015

Apresentação de "De Soslaio", em Coimbra


Casa da Escrita
 
Sexta-Feira, 25 de Setembro de 2015
 
A montra de livros.

A mesa de Honra. Da esquerda para a direita: A poetisa
Jessica Neves, que apresentou obra e autor de "De Soslaio",
o autor António MR Martins e
Pedro Baptista, editor pela Temas Originais.
 
Pedro Baptista dá início à sessão.
 
Jessica Neves faz a apresentação da obra.
 
A palavra ao autor.
 
Jessica Neves e António MR Martins.
 
Luísa Maria Simões Martins, Jessica Neves e António MR Martins.
 
Álvaro Alves de Faria e António MR Martins.
 
Um autógrafo para o poeta brasileiro Álvaro Alves de Faria.
 
 
 
 
 
 
 


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Apresentação do meu novo livro "De Soslaio", em Coimbra, no dia 25 de Setembro de 2015, às 18 horas, na Casa da Escrita



A Câmara Municipal de Coimbra e a Casa da Escrita, a editora Temas Originais e o autor, António MR Martins, têm o prazer de o(a) convidar a estar presente na sessão de apresentação do livro “De Soslaio”, a ter lugar na Casa da Escrita, sita na Rua Dr. João Jacinto, 8, em Coimbra, no próximo dia 25 de Setembro, pelas 18:00.

Obra e autor serão apresentados pela poetisa Jessica Neves.
 
 

sábado, 12 de setembro de 2015

Paulo Nogueira






XX

Todos os caminhos são ilusões
E todas as ilusões são caminhos
Possibilidades de ir a todos os mundos
Mesmo àqueles para os quais, não há tempo

Todos os destinos são ilusões
Desvarios concretos de fantasias finais
Entremeios de felicidades profundas
Todas! Mesmo aquelas, estranhamente, verídicas

E todos os mitos são ilusões
Pedaços de real polvilhados de fantástico
Pequenos rasgos do vivido e do sonhado
Todos… Pedaços de todo e, do todo, pedaços

Paulo Nogueira, in “Comércio de Ilusões”, página 24, edições Lua de Marfim, Edição Especial Numerada e Limitada 024/100, Abril de 2015.