sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

MIA COUTO





Regresso

Voltar
a percorrer o inverso dos caminhos
reencontrar a palavra sem endereço
e contra o peito insuficiente
oferecer a lágrima que não nos defende

Recolher as marcas da minha lonjura
os sinais passageiros da loucura
e adormecer pela derradeira vez
nos lençóis em que anoitecemos

Reencontrar secretamente
o fugaz encanto
o perfeito momento
em que a carne tocou a fonte
e o sangue
fora de mim
procurou o seu coração primeiro

Bilene, Janeiro 1981

Mia Couto, in “Raiz de Orvalho e outros poemas”, página 22, edições Caminho, 4.ª edição, Março de 2009.  

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

CARLOS FRIAS DE CARVALHO





ciclo do orvalho

a minha mãe

dizias que o orvalho
era o alimento
das cigarras
- o canto áspero
no cimo da secura –

talvez por isso
eu acreditava
naqueles minúsculos
mundos redondos
de água

eram cristais voláteis
aromas
sílabas de poemas

- segredos que só a mim
tu confiavas

 
Carlos Frias de Carvalho, in “luz da água”, página 140, edições Babel “arcádia”, 2010.

sábado, 30 de janeiro de 2016

MANUEL ALEGRE






O MELRO

 
Está poisado no cedro e canta apenas
as penas e alegrias nupciais.
Amor e adeus. Encontro e despedida.
Por isso são de luto as suas penas
e o que ele diz está antes das vogais.
Onde o poeta falha ele não erra
só ele sabe a sílaba proibida
só ele canta o código da terra.

Manuel Alegre, in “Livro do português Errante”, página 37, edições Publicações Dom Quixote, 2.ª edição, Março de 2001.  

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Conceição Oliveira







Celebrar a paixão

As mãos agitam-se na penumbra
como se buscassem
do espaço solitário
o devaneio
inusitado.

Águas enremoinhadas
clareiam espumas
na noite quebrada.

Espantados sons roucos assistem
à cadência das marés em partos esperados.

Tocam-se corpos e almas
dedilhando cordas ao compasso da lua cheia.

Pela madrugada

desejos saciados
em juras de amor inscritas
nos beijos cúmplices cobertos de areia.

Conceição Oliveira, in “Da Raiz (transparências)”, página 32, edições Palimage, Coimbra – 2014. 

Dependências


Imagem da net, em: www.entremares.blogs.sapo.pt



Demorei a chegar a mim
Neste enredo
Da espera e da vida.

Os anos foram passando
E a inexperiência
Se foi tornando
Experiência por experimentar.

Dentro de mim me entreguei.

Omiti as forças do meu interior
E jamais expeli
Os condimentos da minha memória.

Sempre dependi do berço
Que me viu nascer,
Até ao último desfolhar
De um qualquer malmequer.

António MR Martins

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Clara Maria Barata






Ainda te espero

Ainda te espero junto ao cais
como no tempo
em que trazias o mar dentro dos olhos
nas mãos o ardor do vento nu

vinhas com o fulgor do sol e a intrepidez das marés
a ternura das ondas no sorriso
nos dedos estremecidos o segredo das conchas e dos búzios

espero-te
como naquele tempo distante da inocência
quando os sonhos eram pássaros de fogo
o desejo não tinha a mácula da tristeza
e eras água pura para a minha sede

há muito tempo que te espero
sei porque te espero
não sei se chegaste a partir.

Clara Maria Barata, in “No silêncio das luzes e das sombras”, página 36, edições Temas Originais, 2014.

árvore em destruição


Imagem da net, em: www.orgmiraterra.blogspot.com



nesta árvore,
em que habito,
há uma múltipla extensão
de labirínticos desígnios.

cada ala
em que transito
me devolve ao início de cada partida,
consecutivamente.

e o corpo desfaz-se,
cansado e fragilizado,
com o que estas ramificações,
assiduamente,
me vão contemplando.

resta uma loucura
em mim
num pré-estoiro mental,
prestes a eclodir,
sem que hajam
quaisquer calmantes apaziguadores
para esta infinita batalha
contra tantas adversas marés.

António MR Martins

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

FESTAS FELIZES

 

Edição da Temas Originais, na sua nova série "mínima", o seu n.º 3, "Severo Destino", de António MR Martins

 
Já se encontra disponível a obra "Severo Destino", da autoria de António M R Martins, número 3 da série "mínima".

ISBN: 978-989-688-239-6.
Formato: 13 x 9,5 cm - 32 pág. - P.V.P.: € 5,00.

Adquira o seu exemplar através do e-mail: temas.originais@gmail.com
 

Outros títulos desta série:

1 - Indícios para um cântico poveiro, Xavier Zarco (p.v.p.: € 5,00)
2 - Manual de Escultura,
José Félix (p.v.p.: € 5,00)
4 - Génesis,
Emanuel Lomelino (Brevemente).


Boas leituras.

 

sábado, 12 de dezembro de 2015

Teresa Brinco de Oliveira





Espera

Na Ausência constrói-se a plenitude
e do silêncio faz-se a espera do acontecer
soltam-se formas como impetuosidade de mar
e define-se o desenho num significado novo.
É o tempo do regresso. A cidade espreita a chegada
a ebulição de corpos soçobrados
do uivo dos lobos…

…murmúrios longínquos em horizontes planos.

Teresa Brinco Oliveira, in “Laços de Luar e outras histórias”, página 55, edições Edita-Me, Dezembro de 2014.

A palavra da vida


Imagem da net, em: www.pequenoguru.com.br



Há uma toponímica invisível
No espaço do nome esquecido
Onde não moram mais letras
Com que esse nome se escreve
E se diz.

Há um tempo diferente para o poeta,
Entre as páginas da vida.
As passadas,
As presentes,
As futuras.

Por fim,
Ficam outras palavras.

Outras se esfumaram,
Aqueloutras memorizaram-se.

Eternizando-se
Aquelas que definem
O grito da própria vida

 
António MR Martins

sábado, 5 de dezembro de 2015

Hoje, dia 5 de Dezembro de 2015, partiu um grande poeta, um enorme amigo: VÍTOR CINTRA. A minha singela homenagem. Até um dia!...




AFAGOS

São ditos, são gestos,
Intensos, modestos,
São tudo, ou os restos,
De cada sentir;
Paixão reprimida,
Ou mágoa sentida,
Adoçam a vida,
Fazendo sorrir.

Ardentes e ledos
Desvendam segredos,
Desfazem os medos
E, logo a seguir,
Despertam sentidos;
Desejos contidos
Em sonhos vividos
Irão descobrir.

Vítor Cintra, in “Afagos”, página 29, edição de autor, 2011.
 
Até sempre amigo VÍTOR CINTRA!... Um dia nos voltaremos a encontrar!...
 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Augusto Gil






QUANDO AS ANDORINHAS PARTIAM…

A Cassiano Neves

Boca talhada em milagrosas linhas,
A luz aumenta com o seu falar.

Esta manhã, um bando de andorinhas
Ia-se embora, atravessava o mar.

Chegou-lhes às alturas, pela aragem,
Um adeus suave que ela lhes dissera,

- E suspenderam todas a viagem,
Julgando que voltara a primavera…

Augusto Gil (1873-1929), in “Luar de Janeiro”, página 175, edições Livraria Guimarães & C.ª, 8.ª Edição.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

João Rasteiro






ERRATA

O homem principiou por amar em deus; à medida que adolesceu sobre o orvalho julgou-o sob o pó e sentenciou-o; por vezes desobriga-o do fogo e perdoa-o na oblação do sangue; em desespero concebeu-se existência imprópria para a inocência do mundo: névoa por entre névoa. Na esfera armilar das criaturas com fala (é sempre tão sublime blasfémia um poema) deus e homem sempre principiaram por uma coisa infinitamente obscura em sua trágica e desmesurada beleza de logro. Há criaturas tão insanas sobre a respiração ofegante da terra, sobre a derradeira visão do axioma da rosa, da fé que se fareja, que só se poderá revelar deus nos brancos tendões do homem, ou sob o primeiro logro de um ímpio verso: e será só isso que lhe sobejará em sua anomia sagrada. O homem e deus são o relâmpago do incansável caminhante sob uma única metaphora sem haste: o ilusório olhar do evo.

João Rasteiro, in “acrónimo”, página 28, Edições Sem Nome, 2015.

Cai chuva dos teus olhos


Imagem da net, em: www.wallysou.com



Nesta sociedade desumanizada
onde tanta gente passa sem ver
e olha, sempre,  sem o fazer,
muita gente se torna indiferente.

Nesta sociedade financeira
e onde tanta gente pouco ou nada tem
perdeu-se a humanização do sentir
para tanta outra gente.

Nesta sociedade consumista
onde a tantos o dinheiro falta,
poucos conseguem dar um carinho
ou um sorriso persistente.

Restas tu criança de outro modo
e que o és da mesma forma…
caindo-te, amiúde, uma lágrima do olho
por seres duma semente diferente!...

 
António MR Martins