quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Direito à vida


Imagem da net (autor não identificado).


Foram lançadas três sementes à terra
que superaram o tempo,
o sol, a chuva e o vento.

Germinaram três plantas da terra
que cresceram no seu tempo,
ante o sol, a chuva e o vento.

Formaram-se na vida do seu fruto.
Um amarelo, outro laranja
e um outro vermelho.

Secaram na terra que as acolheu.
Uma primeiro, outra depois
e por fim a de teor mais velho.

Todas tiveram direito à sua vida,
à sua condição, à sua existência,
até ao seu ponto final.

Tal como deverão ter todas as crianças!

Sejam elas como forem!...

António MR Martins

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Roberto Durão





À LIBERDADE

Eu gosto de nadar nas águas, livremente,
Prazer que tu também, por certo, já tiveste.
Gosto de dar-me ao sol, embora ele me creste,
Gosto de o ver também escoar-se no poente.

Mas nem por isso odeio a chuva impertinente,
A neve sem ter lar, a ventania agreste;
Tanto me faz sentir que a Primavera veste
Como o Outono despe a Natureza ardente.

Quero ser livre, enfim, como a luz que me guia,
Ver com o mesmo olhar a noite como o dia,
Sem precisar de alguém que me conduza e exorte.

Quero ser livre assim, como a minha poesia
Que ama de igual maneira o sol e a ventania
E seu beijo final reserva para a morte!

 
Roberto Durão, in “Trovas do meu Pensar e do meu Sentir”, página 97, edições Editorial Minerva, Novembro de 2000.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

J. T. Parreira





O MENSAGEIRO

As rugas do teu rosto são as linhas
visíveis da mensagem
lê-se em cada linha
as ruínas da vitória

Com sandálias molhadas pelos rios
com os pés febris, vens do longe
com os olhos, como espelhos
da mensagem

e tocas outras distâncias com o olhar
o coração desocupado, só
a mensagem que carregas
de Maratona é o que importa

Chegas ao teu reino e a tua calma
virá depois da morte.

 

******

 
EL MENSAJERO

Las arrugas de tu rostro son las líneas
visibles del mensaje
se lee en cada línea
las ruinas de la Victoria

Con sandalias mojadas por los ríos
con los pies febriles, vienes de lejos
con los ojos, como espejos
del mensaje

y tocas otras distancias con el mirar
el corazón desocupado, sólo
el mensaje que traes
de Maratón es lo que importa

Llegas a tu reino y tu sosiego
vendrá tras la muerte

 
J. T. Parreira, in “encomenda a Stravinsky – encomenda a Stravinsky”, páginas 32 e 33, edições El Taller del Poeta S.L, Pontevedra (Espanha), 2011.

Dores dum tempo como este


Imagem da net, em: www.escreveretriste.com



Num evasivo contexto desnatural
embromado de falsas suposições,
se despoletou num arguto festival
que deixou os participantes em calções.

Sintomático delinear turvado
pelo inquieto saber do mundo,
limite inconsistente mas folgado
com seu indelével estar vagabundo.

Sortilégio de querer sempre à perna
os condimentos duma origem terna
suspirados num intocável fragor.

Num ritmo moderado se caminha
umas vezes nela, outras fora da linha,
roçando amargura ou plena dor.

 
António MR Martins

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Prisca Agustoni





[assisto ao milagre da tua mão que voa]

 

assisto ao milagre da tua mão que voa
e se mistura e se confunde na minha pele,
entre as dunas sopradas por meus sonhos, entre
as margens de um lago do qual sabemos
a presença, principalmente à noite, quando
a distância se apaga, e nossos dedos seguem
as manchas do frio sobre os vidros,
as horas híspidas da espera, o chão
nosso teto, céu e casulo,
cada um congelado fora do tempo,

 

porém tão perto da vida

 
Prisca Agustoni, in “A Recusa”, página 47, Colecção Pasárgada, edições Ardosia, Associação Cultural, Outubro de 2009.   

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Rogério Martins Simões (Romasi)





Caem lágrimas

Rolam-me na face,
Caem no chão,
Secam com o vento,
As lágrimas tristes
Do meu coração!

Continuo escrevendo,
Versando tua beleza,
Apenas interrompido
Por longos suspiros,
Da grande tristeza,
Do meu coração!

E se depois penso…
Que jamais serás minha:
Rolam-me as lágrimas
Pelo rosto molhado.
Caem no chão!
Secam com o vento!
As lágrimas tristes
Do meu coração.
 

Escola Comercial Patrício Prazeres
Lisboa, Abril de 1968

 
Rogério Martins Simões (Romasi), in “Golpe de Asa no Sequeiro”, página 54, edições Chiado Editora, Maio, 2014.

Fim da caminhada





Pela vida raramente vivida
desfeita numa trágica comédia,
saltou do corpo maleita sofrida
com tantos percalços fora da média.

Desprezo-fim nesse rio escorrendo
onde a fala silenciou o porvir,
delineando um findar morrendo
em igual sentido ao contínuo partir.

Submersa a alma deixou de o ser
à infundada tentação do fenecer
imortalizando mais luzes nos céus.

Do nascimento ao eterno padecer
rasgou manhãs a cada alvorecer
e à última noite se cobriu de véus!...

 
António MR Martins

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

De olhos bem abertos





Uma fresta salienta o vácuo da sentença premeditada. O aperto é mais ténue embora a intransigência tenha o seu limite assegurado. Determinadas atitudes continuam a ser reprovadas, sem o recurso a quaisquer explicações. Nesse âmbito os resultados prosseguem na sua inconsequência, verificando-se um autêntico menosprezo pela singela criação, apesar de ser considerada arte. Por entre a esfera da conservação existem opiniões contrárias, mas sem a força necessária para que se possam desactivar todos estes considerandos e se permita seguir uma nova linha de orientação. Estreitam as possibilidades de um acordo apelativo ao progresso não esquecendo a integridade e os valores que lhe são inerentes. Propositadamente, fazem-se circular boatos, repletos de conteúdos maquiavélicos, com o fim de ofuscar todas as válidas e coerentes ideias. Nada consegue interferir neste desalinhar contínuo e a paciência vai chegando ao seu limite. Talvez seja a hora de todos acordarem.


António MR Martins

Do meu livro "De Soslaio", página 24, edições Temas Originais, 2015.

MIA COUTO





Regresso

Voltar
a percorrer o inverso dos caminhos
reencontrar a palavra sem endereço
e contra o peito insuficiente
oferecer a lágrima que não nos defende

Recolher as marcas da minha lonjura
os sinais passageiros da loucura
e adormecer pela derradeira vez
nos lençóis em que anoitecemos

Reencontrar secretamente
o fugaz encanto
o perfeito momento
em que a carne tocou a fonte
e o sangue
fora de mim
procurou o seu coração primeiro

Bilene, Janeiro 1981

Mia Couto, in “Raiz de Orvalho e outros poemas”, página 22, edições Caminho, 4.ª edição, Março de 2009.  

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

CARLOS FRIAS DE CARVALHO





ciclo do orvalho

a minha mãe

dizias que o orvalho
era o alimento
das cigarras
- o canto áspero
no cimo da secura –

talvez por isso
eu acreditava
naqueles minúsculos
mundos redondos
de água

eram cristais voláteis
aromas
sílabas de poemas

- segredos que só a mim
tu confiavas

 
Carlos Frias de Carvalho, in “luz da água”, página 140, edições Babel “arcádia”, 2010.

sábado, 30 de janeiro de 2016

MANUEL ALEGRE






O MELRO

 
Está poisado no cedro e canta apenas
as penas e alegrias nupciais.
Amor e adeus. Encontro e despedida.
Por isso são de luto as suas penas
e o que ele diz está antes das vogais.
Onde o poeta falha ele não erra
só ele sabe a sílaba proibida
só ele canta o código da terra.

Manuel Alegre, in “Livro do português Errante”, página 37, edições Publicações Dom Quixote, 2.ª edição, Março de 2001.  

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Conceição Oliveira







Celebrar a paixão

As mãos agitam-se na penumbra
como se buscassem
do espaço solitário
o devaneio
inusitado.

Águas enremoinhadas
clareiam espumas
na noite quebrada.

Espantados sons roucos assistem
à cadência das marés em partos esperados.

Tocam-se corpos e almas
dedilhando cordas ao compasso da lua cheia.

Pela madrugada

desejos saciados
em juras de amor inscritas
nos beijos cúmplices cobertos de areia.

Conceição Oliveira, in “Da Raiz (transparências)”, página 32, edições Palimage, Coimbra – 2014. 

Dependências


Imagem da net, em: www.entremares.blogs.sapo.pt



Demorei a chegar a mim
Neste enredo
Da espera e da vida.

Os anos foram passando
E a inexperiência
Se foi tornando
Experiência por experimentar.

Dentro de mim me entreguei.

Omiti as forças do meu interior
E jamais expeli
Os condimentos da minha memória.

Sempre dependi do berço
Que me viu nascer,
Até ao último desfolhar
De um qualquer malmequer.

António MR Martins

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Clara Maria Barata






Ainda te espero

Ainda te espero junto ao cais
como no tempo
em que trazias o mar dentro dos olhos
nas mãos o ardor do vento nu

vinhas com o fulgor do sol e a intrepidez das marés
a ternura das ondas no sorriso
nos dedos estremecidos o segredo das conchas e dos búzios

espero-te
como naquele tempo distante da inocência
quando os sonhos eram pássaros de fogo
o desejo não tinha a mácula da tristeza
e eras água pura para a minha sede

há muito tempo que te espero
sei porque te espero
não sei se chegaste a partir.

Clara Maria Barata, in “No silêncio das luzes e das sombras”, página 36, edições Temas Originais, 2014.

árvore em destruição


Imagem da net, em: www.orgmiraterra.blogspot.com



nesta árvore,
em que habito,
há uma múltipla extensão
de labirínticos desígnios.

cada ala
em que transito
me devolve ao início de cada partida,
consecutivamente.

e o corpo desfaz-se,
cansado e fragilizado,
com o que estas ramificações,
assiduamente,
me vão contemplando.

resta uma loucura
em mim
num pré-estoiro mental,
prestes a eclodir,
sem que hajam
quaisquer calmantes apaziguadores
para esta infinita batalha
contra tantas adversas marés.

António MR Martins