terça-feira, 24 de agosto de 2021

Falando de um beijo

 

Imagem na net.


Solta-se um beijo
descabido de interesses
na amplitude das necessidades
impróprias
para quaisquer consumos.
 
O gesto inolvidável
retrata a sedução solitária
dessa caminhada
até à duplicidade da ambiência.
 
O rubor e a ardência
justificam todos os melodramas
e a pertinácia em labirinto
de cada obediência
será o contraste
de qualquer produto final.
 
A única diferença
será no modo de beijar
de cada diferente portador
desse impulsionador movimento.
 
Há sempre um beijo escondido
por entre cada um de nós.
 
 
António MR Martins

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Lita Lisboa

Hoje, é dia de fazer anos o nascimento da Lita Lisboa. 
Ela já nos deixou fisicamente, mas a memória conterá sempre a sua presença viva, em nós.
Deixo-vos um seu poema e o sentir profundo de imensas saudades!...

Lita e eu.


TELA VIVA

 

Não amordaço as mãos,

deixo que falem,

quando na tela branca

elas deslizam.

Solta-se a cor e o pincel,

é a força das artérias

que matizam.

 

Em murmúrios

apagam-se os abismos

arde o fogo

em alquimia azul,

na tela alva.

As imagens, da sombra são despidas.

Visto-as com auréolas de liberdade.

 

E de repente

contemplo o nascimento…

E é luz, é luar

é dia que amanhece

é jarra florida

é mar que encapela

é colina que floresce.

E do nada, fez-se sonho

e o sonho criou vida.

 

Missão cumprida !

 

Lita Lisboa, in “Crepúsculo”, página 34, edições Temas Originais, 2012.   


 

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

José Luís Peixoto

 

Capa do livro "Regresso a Casa",
de José Luís Peixoto.


Morreste-me
 
Como nos papéis onde calculavas a vida,
arrumados na tua gaveta ou esquecidos
sobre a mesa da cozinha,
esta conta:
 
as horas que passámos nas viagens
de regresso a casa são agora
menos do que as horas lidas no livro
onde descrevi essas viagens
de regresso a casa.
 
E, no entanto, aquele tempo
brilha ainda no interior
dos meus olhos
fechados.
 
E, no entanto, as palavras,
como árvores.
 
E, no entanto, aquele tempo.
 
E, no entanto, as palavras,
desde a raiz mais profunda,
levam o sangue da terra,
decantado, condensado,
até à folha mais alta
do último ramo.
 
José Luís Peixoto, in “Regresso a Casa”, página 105, edições Quetzal, Agosto de 2020.  

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Sentir intermédio

 

Imagem na net.


Soam baladas sentidas
noutros tempos cantadas
pelas míticas vozes da razão
por entre as frestas das janelas
adormecidas.
 
Brilham num ecoar taciturno
que despoleta a conjugação
do predicado de um verbo
indizível.
 
Logo surge o destempero
dos versos configurados
no cerne de cada garganta
que colide com o anseio das aves.
 
Num inequívoco ápice
o desespero lhes tolhe os movimentos
e passam a voar baixinho!...
 
António MR Martins