sábado, 29 de abril de 2017

Carlos Morais José


Carlos Morais José, foto de Gonçalo Lobo Pinheiro.



Reservatório

Lá por ter acreditado num espelho onde
tudo se reflectiria, não teria forçosamente de o encontrar.
O vasto céu acaricia a água e o vento estremece-a de
prazer. Não há mais nada, mais nada interessa: só há 
vento, só há céu. E tudo isto na água.


Carlos Morais José, in “MACAU - O Livro dos Nomes”, edições COD, Macau, 2010.


Reservatório de Macau, foto de António Martins.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

no findar de uma caminhada


Borboletas pretas, imagem da net.



no parapeito,
onde adormecem as saudades
das remotas horas da infância,
há uma janela semi fechada
entre as madeiras,
que quase a encerram.

daquela trémula imagem
se esconde um mortiço olhar,
resultante duma idade dos tempos,
na penumbra do interior
perante um genuíno silêncio.

de vez em quando
uma convulsiva tosse,
de voz grave e rouca,
perturba todos os sons inaudíveis.

e o quase vazio da vida,
ganho pelo passar dos anos,
naquele último espaço
de uma caminhada existencial
afugenta o pousar das borboletas.

será na residência final
que a flor última
desencadeará o retorno
de todas as mariposas. 


António MR Martins

terça-feira, 25 de abril de 2017

Abraão Vicente


Abraão Vicente. Imagem da net.



versos impunes

Já não há contos
de embalar ou
fadas madrinhas
com quem possas
selar alianças e inventar
asas de licórnios
voadores onde
te possas esconder
da vida, do pesar
e das pérolas
ensanguentadas
que o amor
te reserva.

Poe-te a contar
com minúcia e fervor
os dias de alegria
e a incoerência que
ainda te restam, 
nobre criança.

Vem até mim, vem
quero-te embalar
na melodia do antes
do fim.

Andatas, valsas e 
mariachis loucos…

Onde estavam os corpos?
Em que areia movediça,
em que praia as
donzelas trincaram
laranjas ácidas de 
um pomar inaudito?

Sabre, safira,
pedra ume.
Que canção
saberá cantar
o Príncipe
perante o abismo
do teu sexo
descoberto?

Mar, rosas, espinhos
clichés fatais e a
morte da inocência
três tristes tigresas
Simone, Akhmátova
e Florbela
de mãos entrelaçadas
na espuma do vento
que as desfolhou
em versos impunes
pela morte.


Abraão Vicente, in “amor 100 medo, cartas improváveis & outras letras”, páginas 32 e 33, edição do Autor, Dezembro de 2014.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

desenho sem planos


Imagem da net.



vejo-te em linhas concretas,
desenhada,
ante as tangentes fugidias das margens
duma sóbria folha de papel cavalinho,
com tuas vestes soltas,
tombando aqui e acolá,
que te desnudam
numa toada simples
e subtilmente frágil.

te vendo assim
apelei ao som das árvores,
que vinham surgindo
num dos topos da folha,
e ao olhar vigilante do rio,
que acabara de galgar
uma das simuladas margens,
por onde acabarias 
de fazer flutuar teu corpo.

a imagem dessa ficção,
visionada em desenho,
completou-se
com o inédito
da tua sublime presença física.

António MR Martins

Escrito em Hoi An, Vietname (Hotel Maison Vy), 15 de Abril de 2017

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Sérgio Godinho


Sérgio Godinho. Imagem da net.



De fora para dentro dos olhos

De fora para dentro dos olhos
baixam os fantasmas
trazem sempre roupa nova
nunca a dor foi a mesma em pessoa nenhuma:
se morrermos sozinhos das dores colectivas
é o que diz o cantor
ninguém vem levantar-nos do chão.

A rampa enfeita a porta da garagem.
Paredes-meias com o passado
quem controla o sossego dos fantasmas?
Desfazem-se pelo pouco que há de pó
gastamo-nos na luta.

Quando se dá por ela é meia-noite
de dentro para fora dos olhos
grande saudade
é fogo eterno. 


Sérgio Godinho, in “O Sangue por Um Fio” (poemas), página 79, edições Assírio & Alvim, 2009.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

No fascínio do ser


"Freedom", por José Cavaco, in http://olhares.sapo.pt/freedom-foto8623135.html


Palpei tua mão
que repousando em teu corpo,
de delicadas matizes,
se afigurava à minha mercê
ante a matriz do esplendor,
arredia e insegura,
ou, talvez, adormecida.

Sorriste num sono,
que se estendia na quietude
inquieta
das marés infindas,
pelo desvario dos sonhos 
incautos,
que sempre despertam clamores.

Desci ao templo
da misericórdia do corpo
e da hecatombe da mente, 
por onde despertaram
todos os sentires,
num tortuoso sacrifício 
do teu acordar.

Depois, num ritmo alucinante,
o apogeu 
de todas as sensações
e de todos os prazeres humanos,
até ao epílogo final,
que selámos com um beijo.


António MR Martins

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Vinícius de Moraes




Vinícius de Moraes 
(Rio de Janeiro, 19 de outubro de 1913 — Rio de Janeiro, 9 de julho de 1980)



Aquarela

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva
Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu

Vai voando, contornando
A imensa curva norte-sul
Vou com ela viajando
Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela branco navegando
É tanto céu e mar num beijo azul
Entre as nuvens vem surgindo
Um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo
Com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo
Sereno indo
E se a gente quiser
Ele vai pousar

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos, bebendo de bem com a vida
De uma América a outra consigo passar num segundo
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Um menino caminha e caminhando chega num muro
E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está

E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida
E depois convida a rir ou chorar
Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
Que descolorirá
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Que descolorirá
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Que descolorirá

………………………………………………….


Um belíssimo poema, que nos relata o percurso existencial em torno da vida, que veio a resultar numa não menos belíssima melodia / canção, com a interacção de Toquinho, Guido Morra e Maurizio Fabrizio.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Empatia


"Olhares", imagem da net.



Tenho o meu olhar
preso ao teu, almejando
a razão para a descoberta,
num anseio
pendente de concretização.

Há um apelo mútuo
à sedução, desde a origem
à consumação da nossa rota
das descobertas.

Tudo se roboriza
numa amplitude sem limites
e numa eloquência
única
sem restrições
e ambiguidades.

Continuo com o meu olhar
preso ao teu!... 



António MR Martins