sábado, 30 de novembro de 2019

Há silêncio entre as vozes


Imagem na net.




Corta-se o silêncio
da voz inquieta
augurando
rancores intrometidos
acomodados pelo tempo.

Esvoaça o grito
pelos trilhos da glória
onde o vento é dono
de todos os percalços
inundando
o aroma silvestre
de agudizados tremores.

Caem as folhas secas
do mito
cruzando-se decepadas
no tempo desencontrado
de todas as palavras.

Sucumbem os mortos
com os vivos a seu lado
num percurso alado
onde a saliva silencia
o defeito da voz pendente
pela rouquidão descrente
no receio de tanta demora.


António MR Martins

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Cidade desamparada


Imagem da net.




Caem as rimas falhadas
nas ruas do sem fim
e nos becos perdidos sem luz.

Os recantos escondidos
esbanjam o silêncio das noites
e os números de todas as portas
turvam-se nas madrugadas
do degredo.

A cidade fria esvazia-se
e só
fica totalmente desamparada.

Vão gemendo os carros do lixo,
mas não conseguem amparar o declínio
apesar de aturdirem toda a intimidade
onde se sagra a nudez explícita
e a envolvência de todos os corpos
ou, então, o simples bafejar sonolento
de todos os outros anseios.

A solidez empertiga-se
e o desamparo torna-se conveniente
a todas as conjecturas
mais desesperadas.

Ao dealbar surgem
outros conceitos
outras virtudes
e a esperança volta a renascer.

António MR Martins

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Ana Paula Lavado


Ana Paula Lavado, imagem da net.





A VERDADE DA MENTIRA

Como é espantosa a mente humana
capaz de grandes feitos e invenções
deste o fogo à penicilina
do LSD, à estricnina
até à bomba de neutrões!

Até houve quem inventasse o sol
a chuva, o raio e o trovão
o mar, os rios e as cores
a terra, as plantas e as flores
e ainda a polinização!

Tudo se inventa, tudo se transforma
nem a verdade foge ao achamento.
Aos gestos moldam-se os tons
às letras alteram-se os sons
e temos a mentira como invento!

Ana Paula Lavado, in “Mentes Perversas e outras conversas”, página 30, edições Edium Editores.  

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Sophia de Mello Breyner Andresen, nasceu há 100 anos, no Porto


Sophia de Mello Breyner Andresen, imagem da net.





Tua voz

a Sophia de Mello Breyner Andresen,
no dia em que se comemoram 100 anos do seu nascimento.


São teus versos
o canto agridoce da liberdade
e o encanto da profunda
razão de cada ser.

O ânimo indelével
da consistência da voz
e a luta permanente
pela veracidade da palavra.

O aparelho deslumbrante
da límpida sapiência
e o foco persistente
de qualquer guarida.

António MR Martins
(in “Sob Epígrafe – Tributo a Sophia de Mello Breyner Andresen”), no ano em que se assinalam os 100 anos sobre o seu nascimento), uma edição da Temas Originais.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

“Marin Alsicó”


"Marin Alsicó" (Sérgio Manuel Fernandes Nunes),
imagem da net.





VIAJANDO COM FANTASMAS

Estou parado na paragem
Olhando o mundo em burburinho
Tudo não passa de miragem
Cada ser caminha sozinho.

O Homem caminha sozinho
Cego na sua viagem
Nem aprecia o caminho
Esbroando-se na sua voragem.

É um silêncio ensurdecedor
No barulho desta viagem
Não há remédio p’ra dor
Falta uma brisa de coragem.

Vou olhando tristemente
A procissão de mortos-vivos
Também eu me sinto demente
Revoltai-vos seres cativos!

“Marin Alsicó” (Sérgio Manuel Fernandes Nunes), in “Justa Mente e Sal e Picos”, página 97, edições “O Declamador”, 2018.

domingo, 3 de novembro de 2019

Supremo êxtase


Imagem da net.




Ardem as mechas do prazer
pelo sopro do vento falante,
guindado aos pontos fulcrais.

No ruído se acrescentam
os gemidos de circunstância
pelo arrepio da pele,
no sentido da virilidade presente.

No aprumo da consistência
se tornam arredios os males
ante o superior sentir dos seres
e a ousadia de toda a naturalidade.

O atear é concludente
e ao rubro se manifesta
com toda a sua pujança,
até ao dilatar de todos os poros.

Depois
resta a suprema sedução
e o êxtase complementar dos corpos.


António MR Martins

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Luís Filipe Sarmento


Luís Filipe Sarmento. Foto de José Poiares photography



5.

“Sete mulheres de noite”

Cabelo-plumagem ao olhar inesperado reflectido no espelho-universo:
o sereno movimento do torso, a fotografia-memória, registo
de desejo: há um corpo-residência no palácio-sombra, a nudez
soberana no achamento de um território de ninguém. Vibro.
Transfiguração do inesperado, metamorfose da hora
num sereno adiamento da luz. Pretexto do acaso,
movimento imperceptível: sugestão entre a boca semiaberta
de silêncio, acidente e abstracção, novo como descoberta,
o corpo que me absorve, a gruta do teu nome, a embriaguez
das águas que em ti residem, o banho que ilumina a eternidade.

Luís Filipe Sarmento, in “Repetição da Diferença – Casa dos Mundos Irrepetíveis”, página 63, poética edições, Outubro de 2016.